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sábado, 18 de setembro de 2010

Um Conto De 5 Minutos

Ela possuía uma vontade imensa de sair de casa. Faltava-lhe espaço, era o que dizia. Mais do que a falta de espaço, o desejo pela liberdade fazia as vezes de seu interesse maior. No entanto, não havia coragem sequer recursos para uma mudança, assim digamos, desse nível. Muitas coisas para lidar, a ponderar - afinal, dezesseis nunca foi uma idade simples...
Os pais a vigiavam de uma forma absurdamente intrínseca; não que isto fosse uma maldade da parte deles - provavelmente se tratasse de excesso de zelo, protecionismo. Ela era a eterna menininha, suscetível a todas as ofensividades possíveis e imagináveis que as forças alheias fossem capazes de cometer: ela nunca deixaria de ser a criancinha linda e intocável para eles. O fato era que ela não nutria condições de tamanha percepção do que realmente se passava com aqueles dois um tanto quanto inconvenientes; o seu protesto, portanto, era perfeitamente compreensível. Ah!, a juventude... Existe coisa mais equivocada e bela que o frescor dos joviais momentos de rebeldia e altivez presentes em uma coquete como essa nossa senhorinha?
Porém, como já disse antes, ela não reunia condições para tamanha liberdade. Não sozinha. E, coisa estranha, se não fosse sozinha, como haveria de ser? Afinal, assim não seria verdadeiramente o seu sonho; sim, ela era mesmo precoce. E é bem provável que justamente a impulsividade de seus atos e decisões é que a tornassem curiosa (algo ou alguém que produza intriga, e não um ser altamente provido de curiosidade, que isso fique bem claro). Ela atraía aos montes olhares ávidos por descobertas - e isso era um problema. Ela queria apenas a sua liberdadezinha, uma reserva, seguranças ao seu redor: somente assim, dizia para si, somente assim seria capaz de crescer e viver dentro de sua própria inconstância.
Um dia desses, Larissa - sim, este é o seu nome; perdão pela minha falta de tom em não dizê-lo apropriadamente -, a nossa pequena e intrépida sonhadora, saíra de casa. Não em definitivo; óbvio, isso não se realizaria tão cedo em sua vida. Saíra por aí, sem mais nem mais. Motivos não havia, obrigações, menos ainda. Ficara um dia inteiro fora, ou quase. Fazendo o quê, só deus sabe. Vira ruas, pessoas, vitrines, cachorros - nada muito interessante. Sentira-se corriqueira. Ao fim de tal dia, encontrara-se perdida. Em pensamentos, endereços e vontades. Sem rumo. Entristecera-se um pouco, uma leve melancolia que lhe invadia os traços juntamente com o crepúsculo rosa já presente e feito diante da paisagem de cidade grande. Decidira-se por voltar para casa.
No caminho de retorno, pensara com seus botões:
- Fui livre por um dia e me vi assim, sem motivos. Só. Despercebida. Será mesmo a liberdade, o ato de se perder plenamente... Será mesmo isto de que necessito?
Um leve sorriso soberbo brotara em seus finos lábios. Chegara em casa, abrira a porta de soslaio.
Um grito súbito fora a sua solene recepção:
- Filha, minha filha! Deus, por deus, onde esteve?, o que houve?, que cara é essa? Morri e nasci novamente, filhinha; por que fez isto comigo, com sua mãezinha? Ai, minha nossa senhora, eu choro e você ri... Em que está pensando, sim, em que está pensando, hem, meu docinho?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Algumas Notas Consideráveis

Em primeiro e segundo lugares, sinto-me na incontida obrigação de esclarecer algumas condições imprescindíveis de minha parte nesse momento. Ainda que me cubra de esforços para evitar certos comportamentos, o ato de tecer explicações, absurdas ou não, perante minha vontade e o que mais preciso for, trata-se de algo inflexível, incondicional e irreversível em minha natureza - daí a razão de tantas palavras. Morro por tais e a partir de tais. É inevitável. Ademais, desejar-lhes-ia o perdão pela ridicularidade dos versos últimos aqui intrepidamente postados; aquilo foi tão somente um deslize inconsciente e ignorante advindo dos cantos infantis de minha mente equivocada. Isto não se repetirá; é uma promessa, senhores. Prezo pela boa literatura, por mais que as aparências possam tendenciar o contrário. Uma lástima - explicada, ainda que incorrigível.
Para manter a brevidade destas notas, continuo sem mais nem mais. Um projeto me veio aos devaneios meus: uma série de contos, uma personagem nada digna de nota - embora curiosíssima, confesso; talvez justamente por semelhante motivo -, ironias, cotidiano, e Victor Hugo. Pronto, eis o meu projeto! Até nome ele já ostenta, o que, diga-se de passagem, é uma raridade em meus processos de criação. Crônicas De Um Miserável - que meu ilustríssimo e meritamente estimado escritor francês me isente de culpa, um dia... Prometo-lhes o primeiro episódio ao longo dos próximos dias. Explico-me: eu já o escrevi, caneta e papel. Falta-me a completa convalescença de uma enfermidadezinha insolente para concretizar tal feito, digamos, em termos digitalizados. Sem celeridades, senhores - ora, mas que diabos estou dizendo? A urgência, coisa estranha, sempre se fez pioneira em minhas ânsias, e tão somente nelas, eh eh eh!... Nesta semana, ainda nesta semana!
Por último, agradecimentos. É com muito préstimo, o que jamais poderia ser diferente, que recebo comentários, críticas e congratulações durante esse primeiro ano - ainda incompleto - de Meio Copo Vazio. Idéias e vontades nascem e evoluem em meio a semelhantes constatações. Isso está acima das primeiras expectativas, ainda que eu nunca espere sucessos e gracejos direcionados à minha pessoa... Afinal, sou um ser ordinário, corriqueiro. Aceito a condição. Mas, não obstante, aprecio a arte de - ousar tentar! - escrever. Minha gratidão é sincera; um orgulho e uma vaidade, uma necessária nutrição.
(Um copo meio vazio, mas cheio de euforia!) Desejo-lhes uma boa vida. E boas leituras - que eu possa ajudar-lhes em tais!

sábado, 11 de setembro de 2010

Sem Nome

Tu és paisagem em minha mente
Teu olhar feito água cristalina
Torna meus anseios em grande gente
Amar-te sem rodeios é minha sina

Dias se vão, horas morrem
Campos se dão, noites correm
O tempo se esvai
A espera me recai

Um idílio, um marco em minha frente
Um doce olor, tal qual relva fina
Teus traços, tua memória quente
Um torpor se me faz, me desatina

Duas semanas me tolhem
Vontade e ânimo escoem
O mundo me decai
Sem ti, tudo se vai

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

(certa outra) Tarde De Sábado

Um pensamento lhe insistia na mente; uma curiosidade - uma intriga tão somente. Sim, ele desgostava do estéril, do improdutivo ato de prever o futuro, regia cada dia como a única concretidão de sua vida; mas, não obstante, aquele pensamentozinho de nada lhe pungia a serenidade costumeira. Uma pedrinha lançada na vastidão lacustre de sua alma. “Mas, e se...”; “Ora, que diabos eu!...”; “Tolices, quantas tolices estou...”; “Ainda assim, o que há de fato a perder?” - decidira-se então por mediar possibilidades, por mais contraditório que pudesse ser... Consigo, não com a natureza humana. Paciência!, tratava-se de Paulo afinal; ele era toda a noção de momentos - eternidades não lhe despertavam valores.
Aquela tarde de sábado havia sido realmente memorável. De uma forma mais intensa a ele do que a Joana; por mais incrível que semelhante verdade se mostrasse, o caso era que um leve torpor, uma insegurança irrisória, invadia-lhe gestos e cores. Tal condição se fazia por inédita - ou ao menos numa raridade considerável, permitam-me assim afirmar - em seu comportamento: Paulo sempre se apresentava imperturbável, ainda que se vestisse de uma sensibilidade jamais despercebida. Eram os detalhes que lhe chamavam atenção - ele prezava pela notabilidade, mais do que isso, ele a buscava com todo o ardor presente em sua vontade, sua essência; porém as nuances, as nuances é que representavam a sua percepção de beleza. Os caprichos do vestido, o pequeno rubor oriundo do embaraço daquela colisão entre eles, os cabelos tão lisos e bem cuidados - um suave brilhozinho de sol, refletido no retrovisor do táxi, que a fez erguer o braço esquerdo um pouco acima de seus olhos. Era Joana, tão somente Joana, a causa de tamanha repentina incoerência de sua parte. Uma doce e agradável incoerência.
Já se haviam passado três dias, e Joana permanecia num insólito estado indefinido de reflexão. Seu rostinho de porcelana já não transparecia aquela habitual alegria inocente; mantivera-se pensativa assim ao longo de todas as sessenta horas - fechara-se em suas próprias, e até então inéditas, indagações. Olhava para o seu quarto, o guarda-roupa dos sonhos, a estante impecável, a janela que ia ao encontro do mar... E por mais que lhes gostasse ainda, conseguia apenas ocupar-se com tamanha súbita e inesperada introspectividade. Não que isso se tratasse de um embaraço, senhores, esse estágio, digo, essa metade do caminho, ou melhor, famigeradas encruzilhadas que por vezes nos deparamos - não, senhores, tal nova condição unicamente engrandecia seus traços. Joana estava transformando-se irreversivelmente; com isto, sua formosura de cristal e vitrines passaria a adquirir um aspecto mais profundo, mais complexo. Seu encanto deixara de ser unicamente simétrico, este havia atingido a perturbação inevitável - a vivacidade, o arrebatamento constante, a audácia e o ímpeto dos eternos amantes solitários.
Joana mal se continha em suas delimitações físicas; sentia-se, ao mesmo tempo, acima e abaixo do chão. Seus olhos de boneca se vestiam de uma perplexidade considerável; seus dias, ocasiões e necessidades não pareciam tão simples mais - ela continuaria a sorrir para a felicidade, no entanto se dissipara de suas certezas. Encontrava-se, naquela singular terça-feira, imersa em sentimentos incomuns para ela. Ansiava, tressuava, mirava o horizonte, esquecia-se das horas - havia perdido inclusive o episódio diário de sua novela favorita. “Quem se importa mais?...”, reagia despretensiosamente, a coquete. Mas, não obstante, semelhante mudança mostrar-se-ia, daqueles instantes em diante, anos e dias e semanas, inconstante - jamais efêmero. Aqueles olhinhos brilhantes não mais voltariam a si - dispensara todo o seu reino, súditos. Tornara-se um anjo. Um anjo cujo afã se revelava o humano, nada mais que o humano.
Na sexta-feira, Paulo já não sabia mais o que fazer para lidar com a ansiedade acumulada durante a semana. “Um comportamento tão infantil...”, pensava. “E, pelo mesmo motivo, tão bonito!...” Fazia ciência da sua condição nobre, ainda que ridícula. Outro sábado estava por nascer - como agir? Ele buscava saídas, retornos, desvios; nada. Nada parecia extrair-lhe da inconstante estática - a espera. E o pior: o incerto, o improvável. Havia decidido voltar ao lugar onde a encontrara. Joana. Quais chances de êxito em seus movimentos de fato existiam - “Uma, tão somente uma possibilidade.” Não lhe era estranha tal certeza: “Apenas se ela, Joana, houver sofrido, ainda que a décima parte e não mais que isso, o que sofri nesses dias. A desordem dos sentidos precisaria ser recíproca. Ah, deus!... Amanhã, amanhã estará tudo decidido!”
Esperar sorrisos de fortuna raramente constava em seus atos usuais. Mas, não obstante, fá-lo-ia no dia seguinte - naquele tão aguardado amanhã; tudo o que desejava era uma nova e semelhante tarde de sábado. Joana não lhe saía de sua rotina. Arrependera-se inúmeras vezes por ter sido tão indiferente, tão íntegro, tão... Ele. “Por que não me insinuei? Ao menos o telefone, o telefone eu deveria ter descoberto! Quanta prepotência, indesejada ingenuidade...” - com isso, Paulo acabava de trair a si mesmo. Porém ele não sabia que, se houvesse realmente tomado decisão por tal comportamento, jamais sua tão ansiada reciprocidade poderia realizar-se. “Joana haverá de estar lá!”, ele imaginava a própria sorte. No fundo, contava mesmo com ela, com o acaso. Mais uma vez. “Apenas mais uma vez...”
O tempo havia congelado. Conquanto de fato uma nova tarde de sábado se fizesse no horizonte, os ponteiros do relógio pareciam retroceder impetuosamente. Ele não suportava um segundo sequer a mais - já estava lá, do outro lado da rua, observando a fila de táxis. Permanecera ali, encostado em um muro qualquer; um quarto de hora. Uma intragável eternidade. Um arrebate tomava direção de seu corpo. Expressava-se por si, palavras e sinais lhe eram desnecessários. Por mais trinta minutos desistiria... Ao menos era esse o tratado que fizera consigo. “Uma hora, não mais que isso. Afinal, em que estou pensando? Exatamente o quê vim procurar aqui, memórias de Joana?...” - ele esteve mesmo por retroceder. Começara a dobrar a esquina - a mesma esquina que havia tomado na semana passada; o caminho de volta. Um último olhar, o suspiro final de sua insolente esperança. Um movimento súbito - uma imagem gravada há dias; a impossibilidade da confusão e do esquecimento. Tudo isso num átimo. Sim, era Joana, era ela própria que acabara de sair da porta giratória do shopping center - o desejo incontido concretizado. O alento final, o brilho permanente do sol, o desconhecido, o destino; a beleza em si, dispensada de justificativas - Joana! “É mesmo ela! Eu, eu...” Atravessara a rua.
- Olá, bonita! Precipitações me trouxeram aqui, a crença no acaso me fortalecera, e você acaba de me fazer as vezes da doçura e da vontade de viver. Permita-me instigar-lhe o devido respeito e admiração dessa vez... E obrigado por estar onde esperava que estivesse, justamente ao encontro de meus anelos!... - ele se calara após um breve momento; sorriram-se, abraçaram-se. Uma leve brisa lhes acariciavam os rostos. Realmente não havia mais nada a dizer... Nada!
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Que mais querem, senhores? Detalhes, esclarecimentos, descrições?... Aí eu lhes pergunto: e para quê, senhores, para quê? O novo ensejo fala por si, deixemos ambos se instilarem nesse enlace curiosamente tão previsível - e ainda assim tão grandioso! Uma pequena reserva, digo-lhes, é o que falta nos dias de hoje. Façamos a nossa parte, tão somente sonhemos. Com Joana, com Paulo; com nossos próprios alentos. Com a esperança - e com outra fantasiosa tarde de sábado...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Uma Breve Explicação

Por vezes, tudo de que precisamos é uma novidade, um acaso, um ensejo. Em grande parte deles, não sabemos agir da melhor forma - a mais correta, digo, concluída por nossa própria reflexão a respeito, em momentos extremamente tardios (quando não há mais nada a fazer). Não importa. Só existe uma chance - o ineditismo é imperioso. E aí está, creio eu, a diferença entre a imensa massa de nós, subordinados, confinados, revoltosos, e os tais ditos-cujos extraordinários. Nada mais justo - únicos são os que se movimentam brilhantemente no exato instante em que lhes são concedidas quaisquer espécies de escolha. Nada mais justo...
O resto, senhores, o resto são lamentos; lamentos e fracassos. Perdão por tais palavras, mas, não obstante, a cada dia que se esvai, perco um pouco da minha capacidade de esconder verdades - rodeios, vá lá... Enfeites, eu cá os julgo inviáveis. Ilusões, é disto que se tratam as impressões, excetuando-se o êxito. A compreensão até que possui algum valor; o reconhecimento implica ao respeito e dignidade; compartilhar pode vir a fazer as vezes da auto-estima - aceito esses dizeres de forma branda inclusive. Mas a felicidade não se encontra em nenhuma delas; tão somente na vitória, no sucesso, no agir corretamente, magistralmente - ainda que esta seja irritantemente limitada.
Portanto, senhores, saibam agir - esperar, intervir, observar etc. Todos os átimos são insólitos, não há volta ou correções. Talvez outras oportunidades existam de fato; quiçá, sorte ou acaso - é muito provável que sim. No entanto, saibam agir. Não me tomem como exemplo; sou, pois, uma coleção de equívocos, falhas. Não ostento dons e tons. As reflexões, apenas as reflexões habitam minhas particularidades - ainda que aquelas sejam os meus maiores demônios, através de tais produzo semelhantes palavras... Não obstante, mais um dia frio e insone se faz por acabado.

P.S. Um longo período de inanição de idéias e atividades literárias é o resultado deste inverno para mim. Espero que isso se encerre logo. Porém indesejadas constantes em minha vida me tolhem a força motriz de minha caneta - meus dedos ostentam o estado glacial presente na ausência da ação. Conquanto continuo a viver e absorver tudo o que se passa ao redor; em seu devido tempo expelirei minhas impressões neste espaço, em forma de linhas, protestos e utopias. Peço as mais sinceras desculpas por atrasos e inatividades. No entanto, um alento: prometo, tão logo possível, esclarecer aqui, como dito há meses, os acontecimentos fantasiosos de (certa outra) Tarde De Sábado...

sábado, 31 de julho de 2010

Retrato

Seus olhos - seus olhos denunciavam todo o interesse. Uma curiosidade que beirava a intriga; certa soberba, arrogância em sua imagem, sua postura; uma altivez que enaltecia e multiplicava curvas e silhuetas; um sorriso, um indagar, uma dúvida; um convite, uma provocação. Ela desfilava, exibia fatalidades, garras suaves, olores inebriantes - cores, gostos, nuances inimagináveis. Transformava ambientes, granjeava atenções, produzia sonhos e enlevos, consumia mente e coração. Devorava infelizes, seres ávidos por caprichos e extravagâncias, deleites e arroubos, que, como o autor réprobo destas linhas, se mostravam incapazes de mediar perigos e conquistas. Ela era seus próprios olhos; tratava-se o resto de faculdades, particularidades. Um arrebate, um êxtase, um projétil. Um selo, uma marca - um liame. Uma impossibilidade perturbadora, um embaraço; ainda assim, um desejo, ainda assim, uma vontade.
E ela enredava tramas e suspeitos - ah!, como enredava!... Dona de poderes e direitos, repleta de ímpetos audaciosos, consciente de atos e passos; deixava-se tão somente submergir por lances e mistérios. Ela era um encanto, senhores! Um terrível e magnífico encanto.
Um simples gesto e um mundo se despedaçava sob seus pés. Alisava-lhe os cabelos com a sutileza e a doçura de mil rosas, pequenos sóis que emitiam centelhas abrasadoras - arredores se viam incendiados com singelos tais movimentos. Caminhava sob pétalas e nuvens, tapetes vermelhos lhe eram estendidos através de pensamentos e apetências. Linhas delgadas, traços firmes, definitivos; soberania, tentação. A lascívia exalada como que por instinto.
Um olhar; um olhar era tudo, senhores. Tudo e nada. A condenação. Sentimentos amorais, razões sem valor, o esquecimento. Perto dela, perdia-se o sentido de bem ou mal; restavam apenas ardências. Suores, tremores, ânsias, prontidões. Bastava-lhe um estalar dos dedos - um exército a seu dispor!... Uma imagem, uma breve memória de suas mostras, e destinos haviam sido decididos. Entregas sem fim, intermináveis noites melancólicas. A inefável solidão de sufocados prazeres; sofreguidão. Ditos, dizeres... Atrevimentos contidos. Necessidades, sobrevivência - o clamor pelo autoconsumo da carne. Almas tropegamente a vagar ao longo de horas insones, perdidas. Livres.
Não obstante, a complexidade e a inconveniência delineavam situações e ambientes; ela era intangível, ainda que inegável. Sonhos, tarefas, quimeras. Um desafio inefável, uma audácia; tão somente uma insolência. Conquanto inexistissem aproximações, ainda que incompatibilidades denotassem todas e quaisquer permissões, ainda assim, ela se fazia feito brisa de mar. Um frescor, um acalento. Ocasionava lembranças ao mesmo tempo torpes e motivadoras - transpunha ensejos ordinários. Vertia o dia em noite, transfigurava a lua em holofote.
Apesar das incapacidades alheias, da falta de tom generalizada, de especialidades; por maior que fossem distâncias e diferenças, ela procurava. Mais do que isso, ela escolhia. Indagava, pretendia, ensaiava diligências. No fundo, ela desejava acasos e enleios. Exausta dos seus divinos dias de perfeições premeditadas, sonhava com o humano, o comum. Estava a um passo da entrega, da descoberta. Uma flor sob a primavera.
Mal sabíamos de sentimentos tais!... Curioso, os anos não nos ajudam absolutamente. Nós, os senhores do equívoco, apenas tecemos nuvens, anseios, imagens e amanhãs. Nada mais ocorreria - um cumprimento, um sorriso talvez; quiçá uma frase completa. No entanto, uma única e elegante pouca-vergonha era do que precisávamos - infelizes e ingênuos! Em seguida, lamentos, tão só lamentos...
- Volte ao trabalho, seu maldito! - ouvia-se uma imprecação indizível ao fundo do balcão. - O que você pensa que está fazendo, seu enamorado de uma figa?...
Uma pena, senhores, uma pena!
E lá se ia tamanha e verdadeira inspiração. Um retrato; um retrato grafado e ornamentado com sangue, vigor e inquietações.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Fim

Trata-se do tempo o significado da vida. A dualidade, ações, decisões, renúncias, aprendizagem. O tempo é o nosso instrumento, feito um papel em branco - é nele que despejamos os sentidos, a identidade. O papel se torna nossa obra, nossa face; no entanto, algo finito. E ainda que o conservemos intacto, ainda assim, tal tornar-se-á velho - a candura indubitavelmente se desfaz ao longo dos anos. A diferença, a singular diferença que reside nessas condições, é que a ausência das manifestações e de movimento tão somente nos oferece passividades. Um mundo desperdiçado; devaneios, lamentos, anelos, tudo aquilo que nos impede o agir.
Conquanto os anos se vão - a inevitabilidade da mortalidade. Vinte deles, talvez mais... Se ínfimos ou bastos, uma questão de situação. Não importa. O tempo se expande, condensa, dilui, adeja etc.; séculos se vestem de um simples gesto, segundos se mostram complexas eternidades. Tal faz as vezes de vilanias, e por vezes tantas o próprio nos representa soluções. Hoje, criança; antanho, enfermo. Agora, uma bela mulher - amanhã, o desgaste, inconveniências. Cabe ao nosso pensar - nossas mãos, nossos pés - administrar a pena que guia e dá forma a esse grande papel em branco que recebemos. Na verdade, o tamanho é irrelevante; as palavras é que são a verdadeira diversidade.
Mas, não obstante, minhas palavras há muito vieram a ser um malogro. E neste mesmo papel, já gasto em situações de outrora, não se permite o ato de corrigir - restam apenas parcos espaços a preencher. Minhas palavras não surtem mais efeito. Talvez tamanha estranheza de minha parte seja o motivo desse estado, quiçá tais jamais ostentaram quaisquer diferenciais. Porventura também elas componham o senso comum - esse odioso! Afinal a verdade é tão só uma, e está diante de meus olhos: tudo se perdeu e nada mudará. Ao diabo!, desinteressa-me o longínquo, o improvável e o inadmissível. Eu não sou mais um bom rapaz - apenas um senhor de cabelos descuidados e por esbranquiçar...
O fim. Ainda assim, um derradeiro alento. Uma última palavra. Uma doce e melancólica lembrança. Uma promessa; direções opostas, adversidades, ardores. Uma centelha, um feixe de luz - por mais distante e incrível que seja, uma esperança. Uma razão e um motivo para seguir o caminho. Um caminho. É isso, é simplesmente isso. Um obrigado; um muito obrigado e nada mais.
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Será este mesmo o fim que desenhaste para mim?