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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Crônicas De Um Miserável (uma sexta-feira agradabilíssima - parte final)

Ah!, mas, no entanto, sou eu mesmo merecedor de tamanha delícia, e amorosa e curiosa felicidade? (Presença inexplicável e indiferente da beleza.) Numa palavra, não - claro que não... Ainda assim, ainda assim, que noite agradabilíssima. Ao final de tudo, ao final de tudo!... (Quanto tolhimento da ação - não obstante, é preciso, é preciso!...)
Numa palavra - pois naquele momento, sob mãos irrequietas, o aparelho celular enfrentava sérios riscos quanto a sua integridade física; este oscilava entre tais mãos e a iminência de uma queda inesperada -, numa palavra, encontrava-me incapaz de assimilar tudo o que ela, a lesta senhorinha, dizia-me. Ao fim, um convite - à casa dela, senhores, à casa dela!... O motivo? Bem, isso já não importava mais - aos diabos se eu não ouvira direito! Minha condição emocional insuflada me permitira tão somente - o que já se tratava de um esforço imensurável - memorizar o endereço. Rua tal, praça etc., uma escola, uma padaria, três quadras... Quatro quadras... (Pelo amor!, não há modos para tamanho armazenamento!...)
Pois bem, por mais incrível que parecesse, sobrou-me tempo até para um perfuminho barato - ah!, que coisa deplorável!... Um completo bufão. Lá estava eu, feito um juvenil, décadas sob as costas; ainda assim, um juvenil. Identifiquei uma luz acesa em um dos apartamentos do pequeno e único prédio do local - logo após a praça, a escola etc. Era ela; a luz era ela, digo, melhor, a luz era dela - ou do apartamento, ou de ambos, ou... Enfim, era ela. Decidi por anunciar minha presença através de um telefonema - uma segurançazinha de nada (que mal me faria?)...
Em instantes, ela surgira. Se houvesse dirigido meus olhares para cima, seria possível que me perdesse os sentidos. Não era a mesma senhorinha com que me acostumara tão brevemente a lidar na repartição - ela era outra pessoa, digo, outra imagem. (Relato um parágrafo sobre tal imagem? Não, não relatarei parágrafo algum - manter-me-ei egoísta até o fim dessa crônica!) Maravilha, senhores, maravilha! Vestido, cabelo, perninha - de fato uma coisinha admirável!...
E o que acontecera dali em diante, digo, após eu recobrar-me de meu semi-estado de catatonia? Bem, senhores, é de se imaginar, é perfeitamente previsível; mas, não obstante, trata-se de minha função contar o que houve - afinal, ela não vos diria absolutamente palavra a respeito. (Portanto, agradecei-me, ainda que tardio...)
A cena se deu assim: quinze minutos. Pouco menos de quinze minutos. Ela entrara no carro. Estava um pouco trêmula, embora agisse decidida. Um leve beijo como cumprimento. Aquilo tudo me deixou inebriante; ela alternava a direção dos olhares entre os meus e o porta-luvas. Eu cá não conseguia desviar-me de seus traços. E, logo de imediato à minha iniciativa de lhe dizer algo, como que me atropelando, ela me confessou a sua brilhante idéia.
- Perdão, pois sei de que se trata de sua hora de descanso, ainda mais em uma sexta-feira como essa - ela disse tais palavras prenunciando o pior para mim. (Ora o que tem de mais em uma sexta-feira como essa?) Não obstante, ela continuou. - Porém, é com a melhor das intenções que o chamei aqui. Tenho em mãos alguns documentos que, creio eu, irão facilitar e acelerar o seu trabalho. Eu, bem, eles estão aqui. Tome-os. É isso...
Não havia notado a pasta que ela carregava consigo. Não me importavam os detalhes irrelevantes; ela estava ali, em meu carro insignificante, diante de todas as minhas vontades e necessidades, para me entregar uma pasta que, segundo ela, continha elementos o suficiente para me auxiliar no ofício de minhas responsabilidades? Era isso então? Ela queria mesmo tornar-me um inútil por completo, incapacitando-me de meus próprios afazeres? Como se eu não estivesse à altura de...
(“Espera um minuto, deixe-me refletir sobre o sucedido. Quer oferecer-me hora extra? Do meu trabalho cuido eu, mocinha... Já de você, já de você cuido eu também!”)
Óbvio. Eu não disse palavra. Recebi a pasta, derrotado. Não obstante, toquei-lhe a mão - e senti toda a sua insegurança. Mas do que se tratava esse ato impulsivo da parte dela? Inocências?, uma galhofa?, indecisões?... O diabo, o diabo sabia o que ela possuía verdadeiramente em mente!
- Ah, é isso - após o meu toque ela demorara exatos três segundos para afastar sua mão, assustada, de minha. - Bem, obrigado. Muito obrigado. Não precisava de tanto esforço (ou pressa) afinal - mas, não obstante, era perceptível a sua fragilidade. - Prometo-lhe resolver tudo (mesmo!) já nesta segunda...
- Eu preciso ir. Eu, bem, trabalho amanhã cedo... Estou de plantão, e... Bem, é isso. Digo, eu preciso dormir cedo. Eu, bem, é isto. Pois, boa noite. Eu...
Ah!, mas só podia se tratar de uma troça - uma mofa! Ela, a senhorinha que respira altivez, que desfila trejeitos e gracejos, maliciosa, aquela que adora ostentar seu narizinho acima de nossos olhares, ela mesma, atuando desesperadamente? Ela exibia angústias, tão somente angústias e inquietações - dava para ouvir o coraçãozinho de beija-flor dela pungindo centenas de batimentos incontroláveis. Ah!, mas aquilo se tratava mesmo de uma piada... Um chiste, uma pilhéria - e nada mais, nada mais!
- Tem certeza? Não há nada que possa oferecer? Nós podemos, digo, se não for uma inconveniência, nós poderíamos conversar sobre assuntos mais agradáveis. Nem é tarde assim (ainda)...
Não obstante, ela foi irredutível. Dispensara-me. Uma bela - e precoce - suposta noite de sono fora a sua opção mais apraz. Ela saíra de meu carro, deixara-me com a sua pastinha. Trôpega, confusa, receosa; chegara por fim a sua residência. Ponto final. “Até logo. Até segunda...”
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“As mulheres brincam com a própria beleza como as crianças brincam com seus canivetes. Sempre saem feridos.” - pois bem, mas no ato de fato, o que fazer? Eu não iria atrás dela, amarrar-lhe os pulsos e reclamar-lhe os tremores e suores... Uma cena miserável, ainda que agradabilíssima. Após ligar o carro, com o verdadeiro intuito de assassinar o pusilânime silêncio, unicamente me restara um destino: a ebriedade! Doses, estupefacientes, toxicidades; o que mais aliviar-me-ia tal estúpida condição? E numa sexta-feira como aquela... Eu sabia que havia algo de inusitado, mas aos diabos!, que pessoas morram em seus plantões! (Nem que seja tão somente de tédio, senhores, de tédio - mas morram...) Revoltara-me com o belo e o sublime. Pronto, falei!...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um Dia (ou crônica final)

"Mas um dia, um dia tudo estará resolvido..." - com semelhantes palavras dei início a esse ano e a este blog. Um ano se fez (ou quase) e se desfaz; o que foi feito? Digo, numa palavra, e com muito orgulho, pois, que inúmeros atos se deram por satisfatoriamente realizados - capítulos de uma história não mais tão anônima assim... Corações, condições, situações; pensamentos exteriorizados, constantes alternâncias, angústias compartilhadas. Conheci amigos, paguei contas, atingi objetivos pré-estabelecidos, conclui assuntos mal-resolvidos - segui em frente (sempre em frente!). Não obstante, continuei no mesmo lugar de sempre; um retorno talvez, quiçá um novo começo (quem sabe)... Incertas certezas, um dia de cada vez, dinamismo - aí estou eu, aonde quer que vá.
Experiências, tudo se tratou de experiências. Equivoquei-me, como sempre - é bem verdade. Mas, não obstante, não me neguei um momento sequer. E mesmo que mantivesse a incoerência, a estranheza e a excentricidade, toquei a alma feminina - ainda que houvesse sido um esbarrãozinho de meia pataca tão somente... Aos diabos!, eu sei que o consegui! E isto, coisa curiosa, isto se tornou a maior concretidão de meus passos ao longo dos dias tais...
Além disso, três décadas de vida - e os cabelos brancos, e as protuberâncias, e os rezingões -, pedaladas inconvenientes afora, espiadelas de praxe e o diabo a quatro. Sim, o diabo - o próprio... Afinal de contas, se não acreditas no diabo, ele acredita em ti, quá-quá-quá!
De algo que escrevi possuo vaidades. Ainda que vãs, sem sentido; vaidades. Sei da beleza, da sinceridade - da ironia, vê bem, isso é muito importante! - e da profundidade de tamanhos dizeres capazes de serem encontrados por aqui. Amores e vontades estão neles. Projetos futuros - e o melhor de tudo: já vivos e em prática - brotam aos montes no lado mais inefável e incompreensível de minha mente. Não obstante, perfeitamente tangível. Eu sou um livro aberto - e assim começo o novo caminho, os meus dias extremos.
Digo-te que perdi o meu medo da chuva. (A inquietude, jamais.) Lembranças remotas, uma leve ansiedade e nada mais. Que as águas façam o que devem fazer - assim como eu, palavras soltas por aí...
Estou pronto para o que virá. Continuarás tu comigo? Não importa, mantenho-te em minhas verdades.
(Um ano novo - ah!, quem não precisa dele?)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Mensagem De Natal

Quanto tempo nós possuímos? Não muito; não obstante, o suficiente. O suficiente para fazermos o necessário e o almejado. Basta agir - e pensar, e pensar... - por si. Não façamos do tempo um artigo de luxo ou motivo de revolta. Hoje não somos mais os mesmos de ontem, assim como amanhã seremos igualmente diferentes; que isto se conserve por todo o tempo - melhor dizendo, pelo tempo suficiente.
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Pois bem, uma mensagenzinha altruísta era a minha intenção inicial. Semelhante intenção se encerrou naquelas primeiras linhas - é tudo o que consigo no momento... Sinto muito em não me portar como o esperado. Sinceramente, eu sinto mesmo muito. No entanto, meus sentimentos permanecem; nunca encontrarás pessoa como eu: a ausência de preconceitos e a admissão de erros e culpas são condutas singulares. E o amor, o amor despojado - o simples e indizível estado permanente de admiração, respeito, confiança e compreensão, jamais defasado, perpetuamente cultivado -, livre e isento de condições e retribuições, esta motricidade que me leva a atos, escolhas e decisões, de fato, tal plenitude e concretidão de íntima consciência tornar-se-á única em tuas impressões. Talvez leves a vida inteira para perceber o que sou, quiçá não haja tempo o suficiente para tal realização. Não importa. Teus olhos, tão somente teus olhos neste momento - e nada mais, nada mais me faz vital, isto juro a ti - são as testemunhas de que preciso. Presencia meus mistérios - os equívocos, a dramaticidade, já conheces de cor. Um longo inverno foi vencido; meus frutos virão, ah!, eles virão... Um dia, um dia.
Tenho aversão ao passado; ver-me em melhores condições no ontem, e não no hoje, simplesmente destrói toda a minha vontade. Numa palavra, trata-se do fim. Não obstante, desgosto de criar responsabilidades para o futuro - deixo os dias como estão. E embora eu desconheça o mínimo que seja do rumo que minhas próximas atitudes tomará, sinto pela primeira vez (e isso durante um longo tempo) que de fato estou vivo. Não se trata de meu querer que tais atos se vertam em negligências e incômodos - porém, será inevitável. Ao final destes parágrafos tudo soará como uma despedida; que seja assim... Explicações não há, tampouco rusgas ou desordem. É, sim, uma despedida; voarei em direção ao novo ano - à aceitação do anonimato, do comum, do cotidiano. No entanto, lembra-te de um único dizer de minha parte e serei eterno. Feito pedra, rocha, nuances deixadas por ondas já desfeitas de mar.
Eu te prometo, estas são as minhas últimas palavras - não busques o porquê (afinal a curiosidade nunca fez parte de teus interesses). Meus pés agora são meus o bastante para seguir em frente... Nossos caminhos jamais foram os mesmos - para quê adiar novamente? Não desejo mais a agonia; os sonhos já me foram tolhidos, todos eles sepultados. A felicidade, não quero escrever sobre ela. Não obstante, continuar é preciso. Defenderei perante a morte todas as tuas vontades, mas não quero mais saber de ti. Abraço o que sou. (E que venham os dias extremos!...)
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No momento adequado, ao nosso tempo, saberemos como pensar - e agir. Isso é tudo o que importa, a única certeza que possuo. Todos nós saberemos; todos nós possuímos. Não precisamos de mais nada, de mais ninguém - a não ser de nós mesmos... Tão somente de nós mesmos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Crônicas De Um Miserável (uma sexta-feira agradabilíssima - parte dois)

Ah, mas sessenta minutos de intervalo não passam de uma miséria - como, eu lhes pergunto, como se é possível satisfazer todas as necessidades de um simples e ordinário homem em tão pouco tempo? E o direito à sesta, senhores, onde fica? Quinhentas mil e uma maldições, o inferno aguarda por vossas malquistas almas - todos vós, detentores do poder! Tão somente duas classes cultivam certas regalias: os fidalgos e os descabidos. E ainda que eu ostente pretensões a ambas, bem, este não é momento para semelhante vislumbre; afinal todos esses meus sessenta minutos, um por um, já se encontram esvaídos. Mas, não obstante, continuar é preciso, é preciso! Com o quê, sabe-se lá... Ah!, sim, sim, a história... A curiosa história daquela fagueira senhorinha, assim como o desenrolar de minha sexta-feira agradabilíssima. Sem mais nem mais - continuemos, continuemos!
A tarde ocorreu tranquila, contradizendo toda a expectativa, ainda que vã, minuciosamente elaborada pela manhã (e durante a noite anterior, por que não?) já exaurida; óbvio, para tudo isso se possui um bom motivo: um intrigante par de pernas - digo, senhores, uma mente brilhante e um semblante simpaticíssimo. Meus caros colegas de repartição já não faziam mais nada além de exercer o papel da insignificância. E assim fui coroado com breves e fugazes quatro horas esvoaçantes de labuta naquela sexta-feira.
Mas, não obstante, esperanças não havia - aprendera a sobreviver isento de ilusões. Embora a imagem de minha ilustre e oportuna cliente permanecesse feito véspera de feriado em minhas irrelevantes lembranças, a opção primeira e mais prudente para minha condição era a exímia arte do macaqueado equestre - em outras palavras, fingir-se de égua. E foi esta justamente a conduta de meu comportamento agudo, ao longo dos minutos finais daquela tarde; instantes precedentes do soar libertador das dezessete horas, chamadas instigadoras brotavam tal qual chuva de verão em meu aparelho celular...
- Oh, miserável! O que vamos fazer, digo, beber hoje à noite?
- Seu tunante irremediável, antro de defectibilidades, qual é?, o mesmo bar da última semana?
- Mas, pois, sem desculpas dessa vez, pague-me sua dívida ou conto para minha irmã aquele nosso pequeno segredinho... Pague-me em uísque, sem mais nem mais!
Ah, meus amigos... Numa palavra, meus amigos são tão - como se diz? - criativos e imprevisíveis... Ora, mas que diabos se faz numa sexta-feira além de se embriagar? Fiquemos bêbados, eu também lhes afirmo - a comunhão de fato se é concebida tão somente num estado pleno de ebriedade, quá-quá-quá!
Pois bem - antes de me enveredar em mesas de bares noite adentro, uma breve e necessária ida em casa; banho, roupas limpas etc. Antes disso, uma cervejinha, apenas uma cervejinha!... Afinal, tenho nada mais a fazer - a pensar, bem, tal estado completo de ausência de atividades se torna impossível. Contas, futebol, dívidas, mulheres, crises existenciais, mulheres, idade avançada, parcos vencimentos, mulheres, o sentido da vida, aquela senhorinha... Aquela senhorinha de olhar arredio, e narizes empinados! “Está decidido: uma cervejinha tão somente e depois irei para casa.”
Companheiros para tal intuito existem aos montes - se ainda assim, em casos de extrema infelicidade, esses se encontrarem em falta, basta sentar-se em soledade e oferecer uma rodada livre. Abutres e bebedores compulsivos se prontificam com um estalar de dedos - e um abrir de carteiras, eh eh eh! Mas, não obstante, antes mesmo de qualquer percepção de minha parte, ao penetrar no recinto costumeiro das sextas-feiras às dezoito horas e pouco, já fora identificado por alguns destes companheiros...
- Mais uma cadeira, garçom!... Nosso maldito contador de anedotas veio rezar em nosso culto hoje!
- Apenas uma cervejinha, irmãos! - digo eu; ora, pois, ajoelhou-se, há de rezar, quá-quá-quá! - Preciso despir-me de toda a imundície do cotidiano e me purificar nas benditas águas termais da tecnologia da eletricidade, ainda que a obrigatoriedade do pagamento em dinheiro por tais seja notória, é bem verdade...
- Quem é este? Um pastor forasteiro?... - havia pessoas inéditas para mim naquela mesa; para meu infortúnio, nada de interessante. Também pudera, não estava presente, dentre as minhas intenções e expectativas para aquele local, encontrar misses ou artistas; apenas gente comum, miserável, assim como eu. Ótimo, senhores, ótimo!...
Após a minha cerveja planejada - na verdade foram três, mas, no entanto, quem de fato esperava que eu cumprisse ao pé da letra semelhante e única promessa? - fui-me assear em casa. As horas ainda eram poucas; uma noite agradabilíssima era anunciada. Súbito, meu celular começara a funcionar novamente - era uma chamada. Um chamada, senhores!, e adivinhem de quem? A pessoa mais improvável a ostentar tal intenção naquela noite de sexta-feira - nem tanto, admito; não se trata de meu objetivo elevá-la a um pedestal de mármore, tampouco vesti-la sob fios de ouro. Sim, senhores, senhores meus... Aquele número piscando freneticamente diante dos olhos deste inconveniente narrador pertencia àquela senhorinha - à minha senhorinha, digo, mui formosa cliente. Volto a afirmar: por uma horda e meia de diabos mal-cuidados, mas que noite, que noite agradabilíssima!
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Um esclarecimento. Felicidades são momentos; vivemos afirmando que somos felizes, mas não o somos. Juramos felicidades a pessoas que detém nossa admiração, porém sabemos no fundo que tal promessa é injusta. Momentos não passam de momentos - unicidades. Gastamos uma semana inteira! lamentando e praguejando, para finalmente em um dia, uma noite - ou uma ligação, tão somente uma ligação... -, explodirmos em um êxtase inexplicável. Isto, senhores, isto é a felicidade! Algo improvável, imune a quaisquer prescrições. E, nada mais compreensível, em momentos assim agimos feito infantes - precoces. Afinal, dias, meses, semanas - e por que não anos e existências? - presenciando ordinariedades e frustrações nos levam a tal comportamento igualmente inesperado. “É próprio da dor fazer reaparecer o lado criança do homem.” - está aí uma frase justificável. Portanto, não julguem as patacoadas inefáveis que tomarão nota daqui em diante; trata-se de infantilidades, nada mais que isso. Eis, pois, o ocorrido.

sábado, 27 de novembro de 2010

Essa Chuva Que Não Para...

Um ano. Um ano se desfez - exatamente não sei; mas um ano se trata de muito tempo. Talvez não (afinal, já supostamente vivi trinta deles). Não obstante, os dias se vão e não voltam mais. As mudanças, se há de verdade, as transmutações, as convicções constantemente vencidas ou defasadas registram tão somente lembranças esvaídas - lembranças que, ainda assim, servem como provas de uma vida fortalecida em equívocos. Uma pequena sala branca, igualmente um ventilador - com alguns toques em azul, é verdade -, papel e caneta, e uma mente já não tão perturbadora assim; lá fora, ela, a chuva.
Duas horas. Este é o tempo imprevisto que o acaso me presenteou - agora. Não estou com pressa, não estou com sono (é manhã, por mais incrível que pareça); não há tarefas, tampouco vontades, anelos. Só o tempo, a chuva... Faz mal não, faz mal não! Creio que aprendi a esperar; ao menos ando lidando de forma surpreendente com tal fenômeno. As águas desabando seus infortúnios em terras de homens me dizem o que fazer. “Espere!” - Para quê? Eu pergunto. Costumava perguntar... Para quê, perguntas? Agir eu já sei; aguardar se faz necessário. Um dia, um dia a chuva encerrar-se-á - um dia, um mês, uma hora... Que diferença faz?
Pessoas. Presenças, ausências. Inconstâncias - de quê se trata o eterno? Não quero mais eternidades, não sou uma divindade - não acredito mais nelas. Admito valores, confortos, e nada mais; quiçá um dia, um dia possa eu vir a desejar semelhanças tais. Mas, não obstante, não neste momento. Quero viver, esperar se de fato for preciso. Onde estão aqueles de meu interesse? Afastei-os de mim. E o que restou além dos pensamentos? Alternâncias, transformações. Mudanças e pensamentos. É bem verdade, parece, as convicções e o homem são coisas muito diferentes (devo-lhe essa, meu amigo Chátov!). E a chuva, a chuva lá fora já não mais me assusta - ela me faz rir, galhofeira que é.
No entanto, uma idéia, uma idéia fixa se mostra intrínseca em minha atual condição. Algo que me impele a mais alta compreensão e o sentido de toda a existência, de toda e qualquer justificativa do amor pela humanidade que se manifesta em mim. O ódio, para quê o ódio, se todas as vontades comungam? Felicidades são dádivas, raridades valorizam décadas de atos e sensações; não obstante, as pessoas continuam sendo as mesmas - inseguras, eufóricas, apáticas, altivas. Continuamos vivendo, continuamos vivendo... (Com chuva ou sem chuva, continuamos vivendo; seguimos em frente!)

domingo, 14 de novembro de 2010

Crônicas De Um Miserável (uma sexta-feira agradabilíssima - parte um)

Pois bem, uma sexta-feira. Finalmente; uma sexta-feira. Havia acordado dormindo, como de hábito - passara a noite anterior fazendo sei lá o quê, até não sei quais adiantadas horas da madrugada. Quanto tempo perdido, senhores! Mas, não obstante, certo alguém já afirmara que perder-se é ver-se livre - ora, não é mesmo? Ademais, uma sexta-feira justifica quaisquer inépcias - ah!, e eu produzo tantas, tantas! -, não só de meu feitio, mas de toda a desmesurada humanidade. Afinal, sexta-feira só existe uma, ao longo de uma semana inteira... Aos diabos com esse mundo atroz!
- Ao trabalho, ao trabalho, ignóbil ser imprestável!
E assim começara aquele dia insone - não por vontade própria, mas tão somente por necessidade plena. Um desastre, a pobreza é mesmo um desastre...
De fato, eu nunca havia morrido de amores e orgulhos por meu ofício (e por todos os meus estimados colegas, digo, antes de qualquer coisa), porém - igualmente verdade - algo eu deveria realizar. Afinal, um homem sem trabalho não é um homem; e quanto a isso, bem, numa palavra, senhores, eu sou inflexível, irredutivelmente inflexível! Não obstante, uma alegriazinha sempre se é presenciada - até mesmo na iminência da (auto) desgraça, senhores! E, nada mais que um belo e furtivo sinal do que tamanho e aguardado dia estaria reservando para este humilde narrador, eis, pois, que ela resolveu dar o milagre de sua presença. Ai, ai (suspiro)...
Uma adenda: ela significa a fulaninha que, numa palavra, vale por um dia exaustivo de trabalho - tudo bem, eu confesso, um dia não tão exaustivo assim, eh eh eh! Descrições? Bem, pois, ela não é tão bonita como deveria ser, mas, não obstante, perfila-se tal qual boneca de vitrine. Uma maravilha, senhores!... Só vendo. Voltemos ao quiproquó.
Estava eu na mais azafamada expectativa pela minha libertação, ainda que cíclica, lutando contra os ponteiros do vil relógio de parede situado defronte às minhas lastimosas e torpes querelas que teimavam em remar contra a maré, quando aquela delgada e esguia senhorinha resolveu aparecer. Ela havia solicitado os nossos serviços de despacho faz poucos dias - talvez uma semana ou mais, bem, não somos ávidos assim por solucionar encargos tão celeremente -, e estava um tanto quanto que reclamando urgência por um fim em seus suplícios. No entanto, ela se mantinha, sempre que me visitava - pois, tal trabalhinho coube a mim, tão somente a mim -, com um sorriso e uma curiosidade; isso me fazia pensar tolices, tecer planos, aproximações etc., numa palavra, coisas do gênero. Qual gênero? O de palhaço, oportuno, prazenteiro... Ah, eu já lhes contei que sou um incorrigível? Nesse caso, eximo-me de toda a culpa. Quá-quá-quá!
Ela tecia palavras, mas eu mal prestava atenção em outra coisa senão em seus detalhes: roupas, cabelos, gestos - tudo no lugar. Aos diabos com o que ela queria, no fim tudo daria certo; bastava ter fé, tão somente uma pequena fé em mim... Óbvio, eu resolveria tudo a tempo, ou no máximo em cima da hora. Afinal de contas, somos todos brasileiros - e faço questão de exercer o meu papel, eh eh eh! E tudo estava caminhando tranquilamente - alguns gracejos de aparência despretensiosa de minha parte, sorrisinhos, ainda que simplesmente por obrigação, da parte dela -, numa palavra, uma manhã de sexta-feira tranquila. Até que ela disse, sem mais nem mais, “adorei o seu corte novo... Sério!” - sério? “Sim, sério.” Obrigado, senhorita não sei de quê, obrigado pela preferência, digo, diligência! E agora, senhores? Poderia eu, por mais miserável que fosse, ficar simplesmente de mãos atadas - melhor dizendo, com os lábios enclausurados? Óbvio, óbvio, senhores, recuso-me a lhes dar semelhante resposta!...
Num átimo, ainda que internamente aquilo durasse para mim horas e eternidades extasiantes e inesperadas, tudo se deu da súbita e seguinte forma: havia prometido para a segunda-feira próxima a solução para todos os problemas dela, e, bem, arrisquei um pouco a minha sorte tentando solucionar também os meus. Problemas, problemas! Ela não disse vírgula a respeito de minha trôpega e confusa, porém incisiva investida; mas também não disse um não! Ah, maldito silêncio inefável de palavras - essas coquetezinhas provocadoras são mesmo danadas! (Mil perdões pela redundância, senhores, mil e um perdões por tamanha deselegância...)
Portanto, aquela manhã terminar-se-ia assim, ostentando expectativas, ainda que de certa forma a um passo da frustração; nada mais interessante ocorreria até o meio-dia. Ela se despedira sem palavras - mas os sorrisinhos a acompanharam até a porta de saída. Ponto para mim - ou não? Não obstante, vale-se notar que, àquela altura das horas presenciadas, o vazio supremo e dominante em meu estômago me tolhia quaisquer capacidades de raciocínio, percepção e impressões. Tal maneira que até do nome de minha ilustríssima visita seria capaz de me esquecer... (Vá lá, vá lá, eu estou mentindo, senhores, isso estava longe de ocorrer. No entanto continuarei omitindo-lhes esta irrelevante informação; afinal de contas, um nome é tão só um nome - um mero detalhe.)
Ah, mas se ainda se perdura algo de sagrado neste crudelíssimo, descortês, ameaçador e precoce mundo da produtividade financeira, um quê intransponível e inviolável; se a sublimidade do humanismo teima em insistir com a sua resistência perante tamanha desconsideração e desigualdade dos direitos universais, este simbólico, necessário e adorado - justificadamente, justificadamente por sinal - ensejo, hábito e ato milenar unicamente é nomeado e conhecido por A Hora do Almoço. Sim, a hora do almoço! - ou os senhores estavam esperando por algo mais vital que isso, advindo de um reles funcionário, digamos, morto de fome, hem? Mantenham-me tal regalia, e unicamente a partir disto sustentarei minha dignidade por toda a minha vida - e tenho dito!
Pronto. Fartar-me-ei de delícias e guloseimas - um chazinho igualmente cairá muito bem. De quem mesmo estávamos falando? Ah, com os diabos, por uma hora inteira não quero saber mais de nada, quá-quá-quá!

domingo, 31 de outubro de 2010

Condição

As relações definem o rumo da humanidade. O amor é a razão maior dos sentimentos - a afirmação de identidades, o sentido de realizações, a justificativa de atos e essências. A luta contra a eterna condição de solidão é constante, ininterrupta, voraz. Portanto, e não há nada mais belo que isso, senhores!, toda história só é verdadeiramente escrita a dois... Tão somente a dois!