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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Abrigo

Seus olhos descobridores a denunciavam - envolver-se-ia por toda a vida com as nomeadas questões eternas. "Até onde vai o infinito? Por que o céu é azul? Deus inventou todas as coisas, tudo bem - mas quem é o pai dele?..." Fazia de seus fortes traços uma continuidade dos próprios sentimentos. "As religiões pregam o amor; ora, mas por que então tanta desconfiança entre elas?" No entanto, aprendera logo a não obter espécie alguma de resposta. Com o tempo - e isso nunca se dava da mesma forma, tratavam-se sempre de um ineditismo inesperado - habituara-se a tecê-las por si mesma, as respostas. Mantendo aceso, é claro, o seu natural olhar inquiridor - e diante daquela recém condição de independência de raciocínio -, crescera assim, como que um encanto e uma surpresa.
A infância. Ela fora a razão e o orgulho de uma família; ao menos deveria ter sido. Sim, pois, suas nuances, por mais suaves e inofensivas, expunham a unicidade de seu comportamento. Uma luz, um sol - ainda que de rumos indefinidos. Para ela não havia poréns e afins... Flexionava todo o rigor do antiquado; transformava o comum em manhãs de feriado. Criança. Seus belos tons de ébano ilustravam a diversidade de ações - expressões. Ela, aos poucos, redefinia os limites do sentir - e do viver.
Vi-a sempre assim, espontânea. Risos, sorrisos - a alma desnuda dentre o dentes. Com uma impressão notável e uma resposta para tudo... Mas, não obstante, eternamente sem ponteiros. Talvez ainda se indagasse pelas beiras do infinito, quiçá possuísse no coração uma bússola (daquelas que não apontam para o Norte) dos desejos. Verdade era que vivia agindo e esperando - mais agindo do que esperando. Um exemplo para quem realmente se dispusesse a manter os olhos abertos. Ainda que jamais, desconfiava-se, assegurasse o próprio valor, a própria grandeza. Melhor assim, quem sabe.
Encontrava-se perdida, solta em suas vontades - a verdadeira liberdade. Despreocupava-se (arte corriqueira ao longo dos anos porvir). Nutria laços de íntima amizade, mas, não obstante, insistia em conceder parte de seu brilho a qualquer um. Sem exceções. Sua vida era sempre brincar - fazia a diversão de suas indistintas condições. Perguntavam-lhe: o que quer ser quando crescer? "Não sei." Hoje, um quadro um pouco diferente: o que deseja dessa vida? "Um abraço." Não obstante, sempre, sempre criança...
Num dia desses quaisquer, ela me aparece, feito quem não quer nada, em ruas e lojas, alheia, de óculos escuros, fingindo ser a mesma pessoa, como que numa cronicidade permanente, a todo momento. Uma pequena dádiva nos lábios, mas era evidente a tristeza em seu coração. (Uma cena dessas não devia, ainda que necessária seja, não devia mesmo existir.) Faz mal não, criança, faz mal não... Se eu pudesse, oferecer-lhe-ia abrigo. Porém, por uma maldade do destino, sou daqueles que mais pensam, negligenciando atos e impulsividades... Faz mal não! Sei que ela, um dia, consertará todos os defeitos do mundo. Um dia, criança, um dia.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Liberdade

Não foi hoje que tamanho pensamento se consolidara em minhas capacidades - trata-se disto algo antanho, de outras épocas um tanto quanto frescas de memória. Mas, não obstante, adrede foi o momento - o insight. E, importante, não sei se por convenção ou falta de rumo, palavras se fizeram por precisão, a fim de registros - ainda que desnecessárias sejam. Explico-me.
Três são os ensejos: a iminente presença do frio, meus últimos preparativos frente à véspera de uma corrida decisiva de cinco quilômetros, a semana da luta antimanicomial. O alvo de discussão - liberdade. Ah!, a liberdade... O que somos nós sem semelhante termo? (Na verdade, viveremos indiferente a quaisquer concretidões, porém uma definição de liberdade é questão vital, cedo ou tarde, para todos.)
Ilusões, utopias, ausências por completo de sentidos - significado. É inevitável; liberdade se mistura a tudo isso, de uma forma frustrante e obrigatória. Mas seria esta mesma a sua verdade? Possivelmente. Ou melhor, talvez não... Liberdade é não saber, não responder por si - desenraizar-se. É desconhecer caminhos, nutrir vontades e afogar reações (consequências). Ser/ estar livre é, sem mais nem mais, encontrar-se perdido. É, sim, o mundo à revelia...
E o que há de mal nisso? Eu vos digo - a mim é indiferente. Mas, não obstante, conceitos errôneos nos levam tão somente a escolhas equivocadas. Quando gritamos liberdade!, de fato nosso desejo primário é a perdição, a ausência de intenções?... Vejamos bem.
O que desejamos veementemente, os nossos elos intensamente carregados de ardor e pungência, pelo que gritamos de verdade é, numa palavra - e aqui, senhores, absolutamente não há distinções, uma sequer! -, o que realmente buscamos são os propósitos, as idéias (a identidade). E, não há por que protestar, de tais não se tratam a liberdade. Propósito, idéia, identidades, tudo remete a compromisso. Responsabilidades. Melhor dizendo, tratam-se de pequenas prisões aprazivelmente admitidas. Somos o que estamos dispostos a fazer. Felicitamo-nos com as vontades ferrenhamente conquistadas. Isso requer luta, sacrifícios, caminhos traçados e trilhados. Não há um dedo de liberdade nisso; no entanto, em tais condições, encontramo-nos repletos de significados. Plenos de sentido. É inegável, dizei vós, é inegável que ser livre não é o verdadeiro desejo universal (e por que não?).
Poderia ilustrar semelhante razão com inefáveis desenhos, anelos, situações. Porém não executá-lo-ei; exercerei aqui o meu direito ao egoísmo. Digo apenas sobre mim, sobre minhas prisões necessárias. O frio é uma condição, um ciclo - um tempo para reclusões, reflexões. Das loucuras alheias, insisto: saibamos lidar com as nossas; o primeiro passo - a aceitação. Por fim... A corrida? Muito bem. O lugar mais alto do pódio deve ser almejado, embora inesperado. A glória é mais apraz quando real. (Aqui, um pequeno exemplo interessante: correr é sentir-se livre? Jamais! Quando se corre, é preciso saber exatamente para onde ir.)
E assim, mais uma semana - mais uma semana... De liberdades? Não; aos diabos com elas!... Eu quero mais é prender-me a tudo aquilo que sou, que faço, que anseio.

domingo, 24 de abril de 2011

A Ressaca (crônicas de um miserável)

Eis, pois, que o dia se encerrara. A noite, digo - melhor até; que um novo e curioso dia batera em minha janela, transmutado em raios solares despertadores. (Maldita dor de cabeça!...) Sim, porque, para se deparar com incríveis desfechos de sextas-feiras tais, a cachaça!, tão somente a cachaça alenta. Não obstante, talvez a desnecessidade de doses extraordinárias seja pertinente... Aos diabos! Que as minhas imprestáveis entranhas saibam lidar com isso. Afinal sou um sobrevivente. "De quê?", perguntam. Ora, eu afirmo: dos finais de semana, dos finais de semana... Das famílias, dos semi-ofícios, das ausências de sentido, das anedotas indevidas - e das senhorinhas lépidas e fagueiras. (Sem mais nem mais.)
Desconhecia a exatidão das horas. Desconhecia a importância do dia. Não sabia sequer como viera para casa... Ah, mas quem se preocupa com detalhes tantos? De que eu precisava - só indo à cozinha. (Dois analgésicos, por favor; uma xícara de café e uma dose daquela bebida ex-soviética que se usufrui quando parcos se encontram os vencimentos...) Mas, não obstante, pensava inefáveis vezes sobre o assunto. Valia mesmo a pena de me levantar? O diabo, o diabo sabe dessas situações - assim como os miseráveis. "Ah!, mas quanto drama, meu senhor..." - alguns podem indagar. Senhores, replico-lhes, não julguem uma autêntica falta de afazeres. Valores são belos em teoria, e quando se morre de amores (na verdade isso é uma inverdade, mas não quero discuti-la no momento). Não quando a ressaca é maior que o próprio estômago - e a dignidade. Jamais!... Experimentem atingir o fundo do poço sem ao menos conhecê-lo! Pois bem, decidi por me levantar. Não havia nada melhor ou pior a se executar.
Mas, não obstante, aquela não se mostrara uma simples tarefa. Logo após à saída de meu quarto, questionamentos perturbadoramente indelicados e inconvenientes foram dirigidos à minha pessoa... A verdade se revela a todo momento, basta atuar a paciência: nem uma nem duas, parentes sabem perfeitamente potencializar uma ressaca - de forma considerável. (O difícil mesmo é atuar tamanha paciência...)
- O que houve noite passada? Sabe que horas são? E que olhos são esses?... Sangue de Cristo!
(Essa é minha mãe adorável - às vezes.) Sem resposta.
- Ele estava de promiscuidade, mamãe, eu tenho certeza! Olha só essa cara de libertino...
(Apresentações são irrelevantes, não são? Pois bem.) Ah, mas o que exatamente esse moleque anda vendo na TV? Novamente sem resposta.
- Não é possível! Nessa idade, filho, e você ainda agindo feito adolescente?
(E você, querida progenitora, bancando a mãe-que-não-quer-que-seus-filhos-cresçam... Sei, sei.)
- Pois é, mamãe... Por que você não o manda embora? Ele já está grandinho...
(Embora? Para onde? Eu não acreditava que ouvira isso de meu irmão mais novo!)
- O quê? O que você disse? - pronto, essa era a deixa para me desvencilhar de tais abordagens e dirigir-me finalmente à cozinha. (Obrigado, "mamãe"!)
A enxaqueca aumentava na medida em que as memórias da noite anterior vinham à tona - náuseas, vômitos e perturbações oculares. Não, senhores, eu não sou hipocondríaco; apenas estava tomando nota da bula de remédio mais próxima.
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Naquele momento nada me satisfazia. Um completo vazio, apesar da indigesta situação. Jornal, televisão, a rua lá fora - não dispunha vontade alguma. Ainda que manter os demais habitantes da casa afastados de mim - a uma distância segura para meus ouvidos - fosse interessante, a indiferença já havia me tomado posse. Desejava nada não: talvez mais sono para poder dormir (e ganhar na loteria)...
Loteria - minha vida estava mais para roleta russa. Súbito, as dores iam se esgotando. (Não é que a medicina costuma funcionar quando se tem fé? Sem teorias conspiratórias dessa vez...) Mas, não obstante, as memórias - sim, aquelas mesmas de outrora - faziam-se por presentes. E estas se desviravam em intrigas. E estas, cismas - e estas, iniquidades. (Pronto. Num átimo, voltara ao meu estado habitual de funcionalidade.)
Ah!, mas esta condição mais ou menos de ser - e de sentir - não é mesmo adorável? Em tempo, a hora do almoço ainda havia de chegar...
Bem, esses momentos de depressão pós-ebriedade não são lá os melhores para se fazer quaisquer espécies de julgamento; mas, não obstante, algumas considerações - e condenações - eram de fato inevitáveis. Mudanças se faziam por necessárias. Mudanças significativas, mudanças em âmbitos diversos. Deveria parar com as irracionalidades - com os excessos e os quiproquós. Haveria de criar um modo para tal árduo traçado. (Mas como, exatamente como, diabos!, iria fazer isso? Em todo o caso, envolto em divagações é que não consegui-lo-ia...) Ora!, eu possuía um nome a zelar - qual mesmo, não importa. Pois bem, estava definido - de novas e sagazes atitudes se ordenariam os meus dias. "O pensamento é o labor da inteligência, a imaginação é a voluptuosidade. Substituir o pensamento pela fantasia é confundir veneno com alimento." Portanto, sem paixões arlequinescas de minha parte!...
Ah!, mas como um venenozinho é vital para nossas vontades - as volúpias. O que fazer quando quer-se o que não se tem, e principalmente quando o que se quer não se justifica? Desvirtuamo-nos até não mais poder - porque da razão se é inútil dizer em condições tais. Mas, não obstante, que eu não perca o foco: mudanças, rumos, sentido! (Não necessariamente sob esta ordem.) Porém, antes disso tudo, outro par de comprimidos só para cobrir as necessárias garantias, mais um sábado à-toa - e um suspirozinho de nada, o último que seja!, por aquela danadinha miserável... Por todas elas, por todas elas!, digo e não digo mais nada.

sábado, 19 de março de 2011

Vontade

Digo-lhes, pois, que possuo vontades por demais. Não obstante a obviedade de parte delas - ou da maioria, o que igualmente não deixa de ser verdade -, descreio na facilidade de compreensão a respeito de tais. Prazeres, satisfações - isso deveria ser tudo. (Não é bem assim.) Afirmações... De rodeios, basta!
Uma casa, um carro, um cachorro. Alguém que me ama o suficiente para se alcançar o sofrimento - lágrimas e risos. Que divide comigo dias e fatos (de forma inconveniente, por vezes). E que me desperta motivos para fixar raízes e seguir em frente - ao mesmo tempo, ao mesmo tempo... Um ofício; um ofício que não me cansa ao ponto de praguejar as segundas-feiras. Uma família e (certos) valores, (certa) dignidade. Claro, falta-me o dinheiro. Mas, não obstante, trata-se de algo impreenchível, comum e irremediável. O tempo se faz por razão - não me preocupo. Ora, pois, de que mais se veste esse meu querer?
Uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Eis aí algo do qual não me escapo. Vejo-me sempre inclinado a negar a resignação do pasto - mas, não obstante, por vezes chego a admitir a escassez de minha jovialidade para me deparar com a selvageria do desconhecido. A tendência de minha alma é vagar por entre semelhantes opostos... Os seguros ciclos de minha ordinariedade construída e a linha reta, desbravadora e intempestiva, de meu intrépido egoísmo. Encontro-me aí, como um pêndulo - o cabo-de-guerra.
No entanto, em meio a tantos desencontros, desequilíbrios, uma certeza se me faz - há tempos uma utopia; minha utopia. (Porque todos devem ostentar uma utopia - afinal de que servem todos esses malditos sonhos?) Trata-se do passado; melhor dizendo, do fim deste. De seu esquecimento - de sua irrelevância, esta é a melhor forma de minha explicação. Desejo mesmo, de fato, ser definido pela minha capacidade - pelo momento, por aquilo que posso fazer -; jamais pelo que já foi feito. Morto, acabado. Impossível tamanha condição. Como lhes disse, senhores, minha utopia.
Já estou divagando - trata-se disso um problema. Pois bem, meus desejos vão de encontro a pessoas, atos e condições. Mais além, digo, a uma identidade. E acima de tudo, ao reconhecimento. Anseio por manter-me em equilíbrio; mas, não obstante, descontroles e desesperos não me fazem mal. A grande dor é a mágoa causada - mas desse assunto, desse assunto falarei tão somente quando a chuva passar.
"Viver é negócio muito perigoso" - talvez não bem o viver, mas a vontade...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Uma Folha De Diário

Assim como minhas impressões noturnas, ela se fazia notar por uma aparente simplicidade. Digo aparente, pois poderia ela facilmente ser identificada por seus sorrisos e belos traços - como se a vida fosse assim, resumida em sins e nãos. Sim, ela era sorrisos (e belos traços...). E, não, jamais tratar-se-ia de sua individualidade tão somente semelhantes imagens. Não desejava um mundo rendido sob seus pés. Mas, não obstante, talvez apenas por se sentir do tamanho de uma formiga - que só conhece o direito ao ofício. Tolhia a si mesma glórias e reconhecimento.
Era de uma sensibilidade aguçada e notável. Desprovia-se de julgamentos, mas era incapaz de desperceber o menor dos movimentos. Respirava com sinceridade, trabalhava com leveza, sonhava com dedos de criança. Vivia os seus dias presentes. Ainda que se atormentasse com as incertezas do amanhã, por mais que temesse comportamentos inexplicáveis, deixava transparecer unicamente atos de desenvoltura. Um exemplo; buscava um exemplo para se enxergar diante do espelho.
Sofria com as manhãs roubadas - seu sono precocemente encerrado. Males advindos de escolhas e necessidades... Dias duravam imensidões, perante tamanha entrega em sua carreira - seus planos sendo ferrenhamente, ainda que imbuídos de adversidades excessivas, postos em prática. Parecia tudo tão improvável... E qual era sua resposta? Óbvio, os sorrisos. Sorrisos, crenças, sublimidades. Cobranças eram naturais e esperadas; mas, não obstante, creditava valores no destino, no acaso, na bondade e na força do desconhecido.
Dos dias de descanso fazia sua festa pessoal - aguardava-os com uma calma inquietante. Noite, luzes, cores... Ebriedade, dinamismo. Celebrava suas mínimas dádivas com a maior das intensidades. Compensava mágoas e pedras com extasiantes imprevisibilidades. Ansiava encontrar um amor para a vida toda - e morria de medo e de tédio pelos laços e grilhões eternos. Conhecia um universo de pessoas; não preenchia os dedos das mãos ao contabilizar seus íntimos e constantes amigos.
Dizia-se por feliz, embora não soubesse defini-la - a felicidade. Amava a família, atropelando todas e quaisquer desavenças. Culpava-se mais do que se admirava. Mas, não obstante, confiava nas voltas que o mundo supostamente dá. E se pudesse escolher entre o dinheiro e uma tarde praiana ensolarada, saberia de cor e antemão qual biquíni usar...
Um dia desses, daqueles em que deus parece esquecer-se de nós, vi-a por aí, de cabelos presos. Deixara cair uma folha de papel. Ao dar conta de mim, ela já havia se retirado - o dia far-se-ia longo, por sinal. Decidi lhe entregar, aquela folha de papel colorida por escrever, de forma discreta, impessoal talvez. Mas ao ler a primeira frase, toda a minha intenção inicial se deu por vencida.
“Hoje chorei...”
É, a vida se faz mesmo por inconstante. E, de fato, as nuances mais pungentes são as intangíveis. Os detalhes verdadeiramente decisivos, as definições de humor, as sensações mais francas, tudo isso tão somente se é compreendido através da subjetividade de nossas vontades. (Estaria eu sendo injusto e cruel ao guardar comigo todas aquelas doces confissões? Mas, não obstante, algo irreversível acontecera em tal momento que a perdera de vista. Com sua alma revelada em simples e intensas palavras sob minhas mãos, diante de meus olhos, acabei-me num pranto mudo, silencioso. Talvez fosse felicidade, sabe-se lá; quiçá me deixara tocar por tamanha inocência de espírito - e tantos desejos, tantos sonhos, tanta vivacidade... Creio ter sido a certeza de não mais estar sozinho - de não tecer pensamentos únicos, fadados a uma morte prematura - o motivo de minha súbita satisfação. Sim, eu me encontrava pleno. Suas lágrimas me salvaram.)
Naquela tarde, os sorrisos ficaram por minha conta. Sua mágica havia sido concebida. Uma flor, lá do outro lado do planeta, desabrochara. E num átimo a harmonia negligenciada dos sentidos se fez presente.
- Quem disse que a beleza se vê isenta de infelicidades? Tudo bem, tudo bem, eu entendo você... Faz mal não! Um dia, moça, um dia tudo estará resolvido...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Antes Que A Noite Chegue

E assim, como um quê de inexplicabilidades, transformaram-se minhas noites em estágios de um sono profundo. Tal nova e súbita condição haveria de verter consequências, além de se justificar em motivos - ambos desconhecidos até o momento. Trata-se do calor e da retomada de velhas rotinas? Não, não tão somente isso; descreio em simplicidades para mim. No entanto, reservarei a dúvida das causas para outra ocasião - por ora escolho lidar apenas com as reações, impulsivas ou não.
Não que a minha vontade se encontre prejudicada nesses dias, porém a dificuldade atual em me desvencilhar de semelhante latência, assim como de sustentar a vigília requerida pelas obrigações corriqueiras, parece amenizar as minhas capacidades. O ímpeto talvez, quiçá o temor pela ausência de atividades que tanto me é regular. Sabe-se lá... O que acontece, de uns tempos para cá, é que a minha sobrevivência a custo de produtividades e explicações meio que atingiu uma fase de inanição. (Um platô? Não, não - longe disso, senhores, longe disso...) E, coisa estranha, o que mais me sustém inquietações em tais horas é o fato de desconhecer a benevolência - e a travessura - de tamanha impressão.
Impressão esta que perdura por mais de uma semana. Incrível e atípica condição de minha parte, atravesso dias de uma serenidade imprevisível. Dias quentes. Dias leves. Despreocupações, descuidos até - desleixo ou negligência, quem sabe... Não obstante, impressões agradáveis e inéditas. Algumas resoluções não saíram como o esperado? Não importa; os meus atos continuam dizendo por mim. Não foi despertado - até então, por que não? - todo o potencial que acredito fulgir em minha essência? Faz mal não, faz mal não!... De tais momentos brandos faço minha condescendência. Ainda que se prolongue tão somente por mais este instante, esta linha que escrevo, comprazo-me com semelhante harmonia ordinária que curiosamente decide por abraçar as sombras de meus traços.
Ando aceitando antigos medos (ou seria resignação?)... Admirando pequenas linhas, nuances (uma recusa ao sublime, pode isso ser possível?)... Evitando heroísmos (uma inovadora desnecessidade?) ... Reservando-me o estado comum de viver - sei de que se trata de uma ignorância de minha parte; talvez aqui esteja ocorrendo certa mudança de opinião (afinal de contas, o que será de fato melhor, uma ventura mesquinha ou um tormento magnificente?)... Mas, não obstante, sigo sem querer saber de amanhã.
Outra semana está para se iniciar, e a única impressão que me vem é justamente a mesma. De antes, dos dias recentes. Ainda que sejam tão somente para dormir, as horas que se dão, quero-as assim. Suaves. Ainda que soe como ingenuidade ou velhice, que fique como está. Os sentimentos de agora. E nada, mais nada...
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(E isto é o que sinto agora, senhores, uma vontade incontida de confortar os corações do mundo. Mas, não obstante, cultivai a distância entre nós. Para que se mantenha a conveniência idealizada, ela se faz necessária - perturbadoramente necessária.)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Crônicas De Um Miserável (uma sexta-feira agradabilíssima - parte final)

Ah!, mas, no entanto, sou eu mesmo merecedor de tamanha delícia, e amorosa e curiosa felicidade? (Presença inexplicável e indiferente da beleza.) Numa palavra, não - claro que não... Ainda assim, ainda assim, que noite agradabilíssima. Ao final de tudo, ao final de tudo!... (Quanto tolhimento da ação - não obstante, é preciso, é preciso!...)
Numa palavra - pois naquele momento, sob mãos irrequietas, o aparelho celular enfrentava sérios riscos quanto a sua integridade física; este oscilava entre tais mãos e a iminência de uma queda inesperada -, numa palavra, encontrava-me incapaz de assimilar tudo o que ela, a lesta senhorinha, dizia-me. Ao fim, um convite - à casa dela, senhores, à casa dela!... O motivo? Bem, isso já não importava mais - aos diabos se eu não ouvira direito! Minha condição emocional insuflada me permitira tão somente - o que já se tratava de um esforço imensurável - memorizar o endereço. Rua tal, praça etc., uma escola, uma padaria, três quadras... Quatro quadras... (Pelo amor!, não há modos para tamanho armazenamento!...)
Pois bem, por mais incrível que parecesse, sobrou-me tempo até para um perfuminho barato - ah!, que coisa deplorável!... Um completo bufão. Lá estava eu, feito um juvenil, décadas sob as costas; ainda assim, um juvenil. Identifiquei uma luz acesa em um dos apartamentos do pequeno e único prédio do local - logo após a praça, a escola etc. Era ela; a luz era ela, digo, melhor, a luz era dela - ou do apartamento, ou de ambos, ou... Enfim, era ela. Decidi por anunciar minha presença através de um telefonema - uma segurançazinha de nada (que mal me faria?)...
Em instantes, ela surgira. Se houvesse dirigido meus olhares para cima, seria possível que me perdesse os sentidos. Não era a mesma senhorinha com que me acostumara tão brevemente a lidar na repartição - ela era outra pessoa, digo, outra imagem. (Relato um parágrafo sobre tal imagem? Não, não relatarei parágrafo algum - manter-me-ei egoísta até o fim dessa crônica!) Maravilha, senhores, maravilha! Vestido, cabelo, perninha - de fato uma coisinha admirável!...
E o que acontecera dali em diante, digo, após eu recobrar-me de meu semi-estado de catatonia? Bem, senhores, é de se imaginar, é perfeitamente previsível; mas, não obstante, trata-se de minha função contar o que houve - afinal, ela não vos diria absolutamente palavra a respeito. (Portanto, agradecei-me, ainda que tardio...)
A cena se deu assim: quinze minutos. Pouco menos de quinze minutos. Ela entrara no carro. Estava um pouco trêmula, embora agisse decidida. Um leve beijo como cumprimento. Aquilo tudo me deixou inebriante; ela alternava a direção dos olhares entre os meus e o porta-luvas. Eu cá não conseguia desviar-me de seus traços. E, logo de imediato à minha iniciativa de lhe dizer algo, como que me atropelando, ela me confessou a sua brilhante idéia.
- Perdão, pois sei de que se trata de sua hora de descanso, ainda mais em uma sexta-feira como essa - ela disse tais palavras prenunciando o pior para mim. (Ora o que tem de mais em uma sexta-feira como essa?) Não obstante, ela continuou. - Porém, é com a melhor das intenções que o chamei aqui. Tenho em mãos alguns documentos que, creio eu, irão facilitar e acelerar o seu trabalho. Eu, bem, eles estão aqui. Tome-os. É isso...
Não havia notado a pasta que ela carregava consigo. Não me importavam os detalhes irrelevantes; ela estava ali, em meu carro insignificante, diante de todas as minhas vontades e necessidades, para me entregar uma pasta que, segundo ela, continha elementos o suficiente para me auxiliar no ofício de minhas responsabilidades? Era isso então? Ela queria mesmo tornar-me um inútil por completo, incapacitando-me de meus próprios afazeres? Como se eu não estivesse à altura de...
(“Espera um minuto, deixe-me refletir sobre o sucedido. Quer oferecer-me hora extra? Do meu trabalho cuido eu, mocinha... Já de você, já de você cuido eu também!”)
Óbvio. Eu não disse palavra. Recebi a pasta, derrotado. Não obstante, toquei-lhe a mão - e senti toda a sua insegurança. Mas do que se tratava esse ato impulsivo da parte dela? Inocências?, uma galhofa?, indecisões?... O diabo, o diabo sabia o que ela possuía verdadeiramente em mente!
- Ah, é isso - após o meu toque ela demorara exatos três segundos para afastar sua mão, assustada, de minha. - Bem, obrigado. Muito obrigado. Não precisava de tanto esforço (ou pressa) afinal - mas, não obstante, era perceptível a sua fragilidade. - Prometo-lhe resolver tudo (mesmo!) já nesta segunda...
- Eu preciso ir. Eu, bem, trabalho amanhã cedo... Estou de plantão, e... Bem, é isso. Digo, eu preciso dormir cedo. Eu, bem, é isto. Pois, boa noite. Eu...
Ah!, mas só podia se tratar de uma troça - uma mofa! Ela, a senhorinha que respira altivez, que desfila trejeitos e gracejos, maliciosa, aquela que adora ostentar seu narizinho acima de nossos olhares, ela mesma, atuando desesperadamente? Ela exibia angústias, tão somente angústias e inquietações - dava para ouvir o coraçãozinho de beija-flor dela pungindo centenas de batimentos incontroláveis. Ah!, mas aquilo se tratava mesmo de uma piada... Um chiste, uma pilhéria - e nada mais, nada mais!
- Tem certeza? Não há nada que possa oferecer? Nós podemos, digo, se não for uma inconveniência, nós poderíamos conversar sobre assuntos mais agradáveis. Nem é tarde assim (ainda)...
Não obstante, ela foi irredutível. Dispensara-me. Uma bela - e precoce - suposta noite de sono fora a sua opção mais apraz. Ela saíra de meu carro, deixara-me com a sua pastinha. Trôpega, confusa, receosa; chegara por fim a sua residência. Ponto final. “Até logo. Até segunda...”
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“As mulheres brincam com a própria beleza como as crianças brincam com seus canivetes. Sempre saem feridos.” - pois bem, mas no ato de fato, o que fazer? Eu não iria atrás dela, amarrar-lhe os pulsos e reclamar-lhe os tremores e suores... Uma cena miserável, ainda que agradabilíssima. Após ligar o carro, com o verdadeiro intuito de assassinar o pusilânime silêncio, unicamente me restara um destino: a ebriedade! Doses, estupefacientes, toxicidades; o que mais aliviar-me-ia tal estúpida condição? E numa sexta-feira como aquela... Eu sabia que havia algo de inusitado, mas aos diabos!, que pessoas morram em seus plantões! (Nem que seja tão somente de tédio, senhores, de tédio - mas morram...) Revoltara-me com o belo e o sublime. Pronto, falei!...