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terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Todos Aqueles Que Prezo (sabeis vós quem são...)


Uma manhã fria em outubro. Incoerências, imprevisibilidades. Contrariedades. Por mais que julguemos tendências e analisemos prudências, comportamentos tais jamais deixarão de existir. Somos espelhos do nosso ambiente. Nascemos e morremos em períodos menores que um dia. Vagamos entre razões e insanidades, vontades e resignações, lutas e entregas - isto se mostra numa freqüência avassaladora. Sentimos o peso dos sentidos, imposições e significados. Perdemo-nos na completa ausência das moralidades. Necessitamos de equilíbrio. (Mas, não obstante, nossas almas insistem nas extremidades...)
Meus atos recentes questionam a própria racionalidade. Riscos e mágoas, isso é tão somente a oferta que recebo. Fecho os olhos, vem-me o medo. Inseguranças. Miro o horizonte e desafio minhas fronteiras. Permanecerei na incompreensão alheia, alvo das condenações... Faz mal não!, faz mal não... Meus amores, admirações e meu respeito demonstrar-se-ão maiores que quaisquer desentendimentos. Se hoje busco a solitude, é porque me vejo incapaz perante os compromissos. Injustiças tamanhas de minha parte - exatamente por isso é que me ausento de exigências e expectativas. Àqueles que amo, resta-me apenas um pedido de perdão. Nada aqui dentro, com relação a todos vós, nada aqui dentro há de se apagar. No entanto, neste momento, abandonam-me as forças da beleza e da sublimidade. Serenidades, não consigo mais atuá-las. É preciso a revolta. As insubordinações... E, queridos senhores, haveis de admitir, não é mesmo justo que eu trilhe tais caminhos de mãos dadas. Trata-se de uma tarefa minha, tão somente minha.
Atuo agora com estranhezas, é bem verdade. (Feito manhãs frias em outubro.) Desprendo-me das considerações. Mas, não obstante, carrego comigo todas as lembranças, todos os semblantes. Gratidões, eternas gratidões. Sorrisos nos bolsos. O melhor de vós, apenas o melhor de vós...

sábado, 17 de setembro de 2011

Incondicional II

O conceito humano de felicidade consiste numa linha reta - ilimitada. Um trem bala rumo a infinitas, singulares ocasiões e graciosidades. Realizações ímpares, inefáveis impressões. Um quê de inesgotabilidades. Somos incapazes de desenhar perfeições sob estática. Precisamos nos encontrar sempre adiante - desbravadores. Do desconhecido, do prazer, da vitória. E justamente aí é que reside e se inicia a nossa própria ruína.
Trata-se de algo incondicional: o fado das frustrações. A insatisfação eterna. A indizível linha reta, jamais preenchida. O máximo que se pode alcançar são estados temporários - ilusões elegíveis. Volubilidades. Posses, amores, paixões - a lascívia... Conhecimentos, capacidades; descoberta. Verdades corruptíveis. Tão somente falsos traços desse caminho de utopias. Sonhos. Névoa. Cegueira - nada mais.
Descontentamos de imediato com as conquistas corriqueiras, caídas no esquecimento. Construímos pedestais às novidades. Sonhos sempre tão maiores que a necessidade. Afinal, e disso se trata a nossa condição, precisões e obrigatoriedades não compõem prazeres. Requeremos mais, um pouco mais. Na verdade, uma imensidão desconhecida de beatitudes é o que se opõe entre o eterno presente e o ímpeto das insaciabilidades.
Contrária a semelhantes expectativas, a ideia do Paraíso se fundamenta em pequenos círculos de hábitos e paladares. Serenidades. Trata-se do pensamento religioso - cordeiros e pastores. No entanto, tal quadro tão somente é imaginado em futuras e dúbias realidades. A prorrogação da alma. Não é exatamente do que se precisa nesse instante: continuaremos a devanear com uma linha reta. E, confesso, sinceramente não creio ser possível negar tamanha natureza - não somos domesticáveis. Sempre haverá, não importam crenças ou lutas - ainda que seja unicamente uma fagulha, um lapso de memória, centésimos de segundo de reações inesperadas -, haverá sempre uma inacabável melancolia no imo da identidade humana; algo que possa até morrer de forma latente, mas que inexplicavelmente servir-nos-á sensações incompletas. Metades, sempiternas metades.
Que fôssemos ovelhas de fato! Mas não... Desejamos o futuro - é mesmo incondicional. Restam-nos apenas as incertezas. Ensaios de felicidade. Mas, não obstante, é impossível viver sob tais esboços; uma chance é o que temos. Uma única chance. (Ah!, como eu queria saber alegrar-me de verdade, feito meu cachorro...)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Fusca (crônicas de um miseravel)

Penso, logo desisto. Uma lástima, senhores, embora saiba muito bem desse lugar comum. É-me tão árdua a continuidade das intenções: ânimos e boas vontades esvoaçantes. Um dia é o período máximo de minha tolerância. (Coisa curiosa, há muito em minha vida nada acontece; ainda assim, a impaciência... ) No seguinte, já não quero mais. Deixa tudo como está - não fará muita diferença. Outras sextas-feiras virão!...
Certo dia me ocupara do equívoco de atuar o cavalheirismo - um pneu furado. "Um pneu furado!"; julgara semelhante tarefa um simples e louvável ato. Uma senhora de longas primaveras acumuladas - parecia mais uma beata oriunda da Ordem das Carmelitas Descalças -, um infante de aparência não tão amistosa; um fusca branco. Óbvio, faltava apenas o hábito - teríamos então a cena completa. Sentira-me observado por santidades inquisidoras... Como não ajudar? Pois bem, cinco minutos - não mais que isso. Cinco minutos... Para cada maldito parafuso literalmente talhado, isso sim!
(Deus!, seu ser vingativo, você há de me pagar uma suntuosa recompensa por isso!...) Aquela inoportuna velhinha não possuía as ferramentas necessárias sequer em um mínimo estado apresentável de uso - o pior nem fora todos os meus dedos esfolados... Tratava-se de uma semissurda, a infeliz. "O quê, meu filho, um macaco? Ah!, sim, sim! O macaco. Que macaco?..." E a criança então, senhores? Tamanha agra impressão a seu respeito logo me habitara como que um preconceito. No primeiro dizer, um fato.
- Meu pai faz isso muito melhor que você.
- Perdão, pequeno gafanhoto, mas ele não teve muito sucesso no ato da consumação, é verdade?
- Como? Você é canhoto? Mas isso é lá mesmo um problema? O que tem a ver com a ação? - a pobre santinha insistia em decifrar minhas palavras...
E o pior: o sol declarava a sua inimizade perante minha pessoa. Malquistas camisas sociais!... Ainda havia uma tarde inteira de horas de labuta - poderia jurar que o famigerado macaco não aguentaria a pressão. Tudo bem. Até então...
- Por obséquio, não dá para ir mais rápido, meu senhor? É que eu tenho compromisso... - agora era a vez da velha resmungar; tudo isso por querer mesmo ajudar.
- Senhora, minha senhora, banco o mais presto possível. Se ainda não acabei semelhante encargo, saiba por que: doem-me os botões.
- Como?
- Pois não.
- Os botões?
- Da camisa, minha senhora.
- Ah. Entendo...
- Ele não diz coisas, mamãe... Que disparatado! - sim, eu sei, sou merecedor de meu próprio fado...
O silêncio. Por vezes, provavelmente por várias delas tais, o silêncio é o melhor dos instrumentos, sejam lá quais forem os ensejos. Mas, não obstante, sempre considerei mais justo operar com mãos vazias.
- Seu nome, criança?... Pois bem, quer um doce? Segure esta roda para mim. Mas não suje os dedos - ah!, que maçada!... Então. Fica para a próxima!
E o pior? Os botões. O bojo. Aos diabos! Como estas rotinas nutricionais ousaram me deixar assim?... Algo deveria ser feito - imediatamente. Com um quê de prioridades. Exercícios! Emagrecimento! Aparência! (Mulheres...) Ora, quem um dia irá afirmar que um miserável não credita valores a tais caprichos? Experimentem sobreviver sem essas danadinhas... (Depois, depois; vejamos...)
Pois bem. Tratava-se de minha hora de almoço. A Hora do Almoço! As escrituras sagradas... E o imbróglio dos pneus furados - e a recompensa, senhores? A ingratidão. "Ah!, agora não precisa mais de apreços; meu compromisso já está desonrado. Que inutilidade!" Inútil. Misérias... Não se fazem mais damas de cristo como em tempos idos. Infortúnio! Oficialmente fora um terço de hora em combate - mas, não obstante, o cenário gravar-se-ia ao longo de minhas memórias naquele dia. Outro dia... N'outro dia me comportara de forma semelhante - e em outro. E mais outro... E para quê? Simples. Iniciativas serão sempre iniciativas. E o depois - o diabo no meio da rua! - que fique para depois. Tenho dito. Destrato com facilidades tamanhas o extraordinarismo. (Mas, vejam bem, não é por maldade - apenas por falta de tom.) Heróis que não transpiram, atores que não envelhecem, escritores que não perdem a razão - pais que trocam pneus em tempos hábeis... Condenada seja essa corja intocável! (Não obstante, desejável, insuportavelmente desejável...)
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E quanto aos dizeres de meu amigo francês, cujo nome de forma lamentável se é confundido com bolsas e sapatos? Atuarei com sinceridades outra singular vez: não me faz a menor estima no momento. Mas, não obstante, manter-me-ei o propósito, quebrando assim minha infindável sequência de lacunas por preencher. Deem-me, senhores, um tempo - e tudo estará resolvido. A preguiça, o sobrepeso, a coceira nos olhos; todos se lembram de cor, não?
"Não sei que filósofo disse: - Nunca faltarão mulheres velhas." Com efeito, poderia muito bem essa afirmativa haver contraído origens nas reflexões de meus intestinos - pois é verdade, semelhantes obsoletas senhoras repletas de fastio é que existem soberbamente. Coitados daqueles que, assim como eu, insistem, ainda que de forma imune a resultados, nas agradabilidades!... (Sim, eu confesso, seria mais digno de minha parte esclarecer a raridade de tais insistências; não cabe a mim, convenhamos.)
Portanto é isso, meus senhores. A vida imita a arte - ou seria exatamente o inverso? Já não sei mais dos projetos, das ideias; grito apenas por meu direito às desistências - de consciência livre. O que é um problema. Um intrínseco e verdadeiro problema, digo eu. Cedo ou tarde, tenham a plena ciência disso, cobraremos de nós mesmos todas as ausências que representamos. Que seja tardio... Ora!, o diabo que cuide dos imediatismos - viver me exausta de fato. Uma lástima, é sim - uma lástima. (No entanto, um ou outro prazer pusilânime e indecoroso sou capaz de encontrar pelo caminho, eh eh eh!...)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desculpas

Durante um longo tempo, e isso já faz alguns anos, fazia de minhas impressões inocentes e doces palavras. Tentava, munido delas, em vão, conquistar mundos e atenções. Ousava ser alguém belo, casto, correto - um coração juvenil. Sim, isso já faz alguns anos...
Além de não haver tocado superiores intenções, infame, eu fui ao chão. Distúrbios, discórdias, dores - amores. Não obstante, amores... Assumi a culpa de toda a humanidade. Uma alma vazia, uma vida vazia - e o início de uma épica busca. Nascia aqui toda a minha vontade. Com ela, minha força. Foi inevitável; invadia-me, após, por completo, a revolta.
E, no auge de minha irascibilidade, cerrei os punhos - reclamando por minha parte das maravilhas. Jamais as encontrei; sequer foram vistas. Assumi a solidão. Despi-me da moral. Reneguei todas as promessas, desdenhei das esperanças. Imbui-me em ações. E assim, como quem já não quer mais rezar, feito improbabilidades imprevistas, redescobri os sorrisos.
Tornara amor - verdadeiro, absoluto. Aceitara os equívocos; do humano jamais havia me desfeito. Atingira a sinceridade. Novos ares, novos olhares. A arte. A compreensão - ainda que incompreensíveis sejam estas minhas novas vestes. O cerne, o imo - a razão. Sentimental.
Mas, não obstante, era mesmo inevitável. A inconveniência insistia como minha companhia. Mudanças desprovidas de rumo, giros inúteis sobre si. Eu amo. Sempre amara desde os primórdios. No entanto, maldoso, continuo desconhecendo a capacidade das demonstrações. (Um dia, quem sabe, um dia...)

Monólogos Binários

Ele se mostrava ansioso antes mesmo do primeiro ato. Desconfiava, faltava-lhe a crença. Não por má conduta, mas por desacreditar no êxito. Fugiam-lhe motivos para tal - a distância, as diferenças, a ausência de predicados. Era um rapaz comum, ainda que obstinado por complexidades. Um dia inteiro pensando no momento prestes a ocorrer... Era impossível deixar de prever mais um fracasso.
(A tela já acesa; um pouco tarde... Todas as suas inúteis tarefas encerradas.)
- Olá! Então você veio... Como está? Ocupada?
- Não... Apenas lhe esperando. Sono.
- Esperava-me de fato? Fico feliz por saber...
- Mas não era o combinado? Não entendo.
- Ora, você me conhece há tempos. Como foi o seu dia afinal?
- Nada demais.
- Veja, eu... Já faz tanto tempo que... Espero que esteja bem.
- Conte-me. Conte-me o que tem para contar.
- Ah! Verdade. Eu tive um sonho, um dia desses. Eu...
- Um sonho? O que tem ele?
- Você.
- Como?
- Você estava no sonho.
- Eu?
- Sim. Sei que não é novidade alguma, mas ainda assim - um sonho.
- Quero sabê-lo. Espere só um minuto.
Era inevitável. Em todas essas esperas, ao longo de noites incontáveis, subitamente seu corpo abria mão da autonomia. Passava a viver em função delas. Tudo esvaecia. Opiniões, vontades, impressões - tornava-se escravo. Uma condição irracional.
(Ele se levanta. Vai à cozinha - café e algumas torradas. Já se passaram mais de cinco minutos.)
- Vamos, conte-me.
- Oi? Ah! Sim. O conto - digo, o sonho...
- Claro.
- Sonhei com você num dia desses.
- Isso eu já sei.
- Foi nada, mas é que ficou guardado comigo...
- O quê?
- Você olhando para mim...
- Ora, diga logo!
- Você estava... Olhando...
- Isso você já disse.
- Não apenas olhando, mas observando.
- Como assim?
- Tentava capturar-me. Li isso num livro.
- Mas que ridículo!
- Sim, eu lhe disse que era nada demais...
- Está longe de ser nada - é absurdo.
- Perdão. Eu... Não acontecerá novamente.
- Quá-quá-quá! Gostaria de saber como será capaz de controlá-los, esses seus sonhos... Quá-quá-quá!
- É verdade. Eu não sei como.
- E aí?
- O quê?...
- O que mais?
- Nada.
- Só isso? Continuo com sono. Acho que vou indo.
- Sim... Não! Espere. Você não me disse ainda direito como foi o seu dia...
As perguntas que ele fazia, a angústia envolvida, a importância das respostas - quer elas quais fossem -, tudo isso sempre fora vital para sua sobrevivência. Ele transformava toda e qualquer trivialidade, dela, em verdadeiras buscas espirituais. Sem querer - aquilo passara a ser a nutrição de suas veias...
(Ele liga o player de sua máquina - uma música sombria. Versos subliminares. Arte para se ganhar dinheiro - que suas entranhas a interpretavam tão equivocadamente... Inspira o ar feito um condenado.) She seemed dressed in all of me/ Stretched across my shame/ All the torment and the pain/ Leaked through and covered me
- Cansativo, estressante, frio e monótono.
- O que houve?
- Nada.
- Se eu pudesse fazer algo...
- Não pode.
- Como vão os estudos?
- Normais. Escute, eu preciso mesmo ir.
- Está bem. É que eu só queria dizer que...
As palavras, as palavras nesse exato momento lhe pareciam traiçoeiras - silêncio ou confissão? Hesitava, oscilava entre a culpa e a salvação. Rasgava, minuto a minuto, a noite. Ainda assim, ainda assim congelado na reincidência de suas fraquezas.
(A mesma música toca outra vez... Uma única luz brilhando no quarto escuro.) I'd do anything to have her to myself/ Just to have her for myself/ Now I don't know what to do/ I don't know what to do/ when she makes me sad
- Bem... É que, saiba, eu gosto de você...
- Eu também.
- Não, digo, é que eu penso muito em você...
- Sim.
- Estava com saudades. E preocupado.
- Com o quê?
- Com você.
- Eu não tenho nada, homem!
- Mas é que... Eu me preocupo. Está com sono?
- Estou.
- Espero que durma bem. Vou rezar para que isso aconteça.
- Eh eh eh - e desde quando você sabe rezar, hem?
- Eu não sei. Mas irei pensar em você.
- Não diga mais isso.
- Tudo bem. Eu...
- Boa noite.
Ele fingia serenidades. Mas, não obstante, desejava ardentemente por fugas e destruições. Das obrigações. De si mesmo. Do que fosse preciso. A escuridão não era tão simples assim quanto imaginava...
(A goteira na pia da cozinha o chama de volta à realidade. Os últimos minutos - quiçá, os primeiros...) She is everything to me/ The unrequited dream/ A song that no one sings/ The unattainable/ She's a myth that I have to believe in/ All I need to make it real is one more reason/ I don't know what to do/ I don't know what to do/ When she makes me sad
- Eu... Boa noite, moça. Fique bem. Até amanhã...
- Amanhã já é sexta-feira.
- Ah! Sim. Entendo. Então até mais...
- ...
Nada poderia ser pior - até, horas depois, ele perceber a insônia invasora de seu cansaço. Não haveria amanhã. Apenas outras vinte e quatro horas.
(Ele vai ao banheiro. Olha-se no espelho. Já não se lembra mais das promessas vazias que havia feito há tão pouco tempo.) But I won't let this build up inside of me/ I catch in my throat/ Choke/ Torn into pieces/ I won't - no/ I don't want to be this/ But I won't let this build up inside of me
- Eu sei que você já se foi, desculpe, mas não conseguiria ir embora sem lhe dizer tais palavras: eu preciso de você. Muito. Sei também que estou errado, e que logo irei arrepender-me de tudo isso - porém é maior do que minhas forças. Tem-me em mãos. (Tenho medo do que possa fazer comigo.) Tudo o que me importa é que seja feliz. Eu... Eu não sei mais o que dizer. Desculpe. Uma boa noite.
- ...
Depois de sua última mensagem - penitência, auto-humilhação -, uma certeza lhe é desenhada de forma permanente; ele jamais estaria livre. Mas, não obstante, era de conhecimento próprio que tamanha condição fora escolhida por ele mesmo. Para sempre.
(Nenhuma luz presente... Um barulho sequer. Tão somente dois olhos funcionando freneticamente.) She isn't real/ I can't make her real
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Em um lugar remoto, num quarto inimaginável, ela se levanta - insone, apesar de ter se deitado há pouco. Algo lhe faz voltar atrás. Lê, antes mesmo do dia nascer, aquela última mensagem. Não sabe explicar por que, mas a responde para si. Chega a escrever, apenas para ver como ficariam as letras coloridas - e as apaga em seguida. Mas a resposta lhe reveste a identidade, manchando-lhe, confundindo-lhe. Volta a se deitar, mas o sono não mais existe. (Perturbações, torpezas, desejos, necessidades.) Ela sabe que nunca mais será a mesma.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Abrigo

Seus olhos descobridores a denunciavam - envolver-se-ia por toda a vida com as nomeadas questões eternas. "Até onde vai o infinito? Por que o céu é azul? Deus inventou todas as coisas, tudo bem - mas quem é o pai dele?..." Fazia de seus fortes traços uma continuidade dos próprios sentimentos. "As religiões pregam o amor; ora, mas por que então tanta desconfiança entre elas?" No entanto, aprendera logo a não obter espécie alguma de resposta. Com o tempo - e isso nunca se dava da mesma forma, tratavam-se sempre de um ineditismo inesperado - habituara-se a tecê-las por si mesma, as respostas. Mantendo aceso, é claro, o seu natural olhar inquiridor - e diante daquela recém condição de independência de raciocínio -, crescera assim, como que um encanto e uma surpresa.
A infância. Ela fora a razão e o orgulho de uma família; ao menos deveria ter sido. Sim, pois, suas nuances, por mais suaves e inofensivas, expunham a unicidade de seu comportamento. Uma luz, um sol - ainda que de rumos indefinidos. Para ela não havia poréns e afins... Flexionava todo o rigor do antiquado; transformava o comum em manhãs de feriado. Criança. Seus belos tons de ébano ilustravam a diversidade de ações - expressões. Ela, aos poucos, redefinia os limites do sentir - e do viver.
Vi-a sempre assim, espontânea. Risos, sorrisos - a alma desnuda dentre o dentes. Com uma impressão notável e uma resposta para tudo... Mas, não obstante, eternamente sem ponteiros. Talvez ainda se indagasse pelas beiras do infinito, quiçá possuísse no coração uma bússola (daquelas que não apontam para o Norte) dos desejos. Verdade era que vivia agindo e esperando - mais agindo do que esperando. Um exemplo para quem realmente se dispusesse a manter os olhos abertos. Ainda que jamais, desconfiava-se, assegurasse o próprio valor, a própria grandeza. Melhor assim, quem sabe.
Encontrava-se perdida, solta em suas vontades - a verdadeira liberdade. Despreocupava-se (arte corriqueira ao longo dos anos porvir). Nutria laços de íntima amizade, mas, não obstante, insistia em conceder parte de seu brilho a qualquer um. Sem exceções. Sua vida era sempre brincar - fazia a diversão de suas indistintas condições. Perguntavam-lhe: o que quer ser quando crescer? "Não sei." Hoje, um quadro um pouco diferente: o que deseja dessa vida? "Um abraço." Não obstante, sempre, sempre criança...
Num dia desses quaisquer, ela me aparece, feito quem não quer nada, em ruas e lojas, alheia, de óculos escuros, fingindo ser a mesma pessoa, como que numa cronicidade permanente, a todo momento. Uma pequena dádiva nos lábios, mas era evidente a tristeza em seu coração. (Uma cena dessas não devia, ainda que necessária seja, não devia mesmo existir.) Faz mal não, criança, faz mal não... Se eu pudesse, oferecer-lhe-ia abrigo. Porém, por uma maldade do destino, sou daqueles que mais pensam, negligenciando atos e impulsividades... Faz mal não! Sei que ela, um dia, consertará todos os defeitos do mundo. Um dia, criança, um dia.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Liberdade

Não foi hoje que tamanho pensamento se consolidara em minhas capacidades - trata-se disto algo antanho, de outras épocas um tanto quanto frescas de memória. Mas, não obstante, adrede foi o momento - o insight. E, importante, não sei se por convenção ou falta de rumo, palavras se fizeram por precisão, a fim de registros - ainda que desnecessárias sejam. Explico-me.
Três são os ensejos: a iminente presença do frio, meus últimos preparativos frente à véspera de uma corrida decisiva de cinco quilômetros, a semana da luta antimanicomial. O alvo de discussão - liberdade. Ah!, a liberdade... O que somos nós sem semelhante termo? (Na verdade, viveremos indiferente a quaisquer concretidões, porém uma definição de liberdade é questão vital, cedo ou tarde, para todos.)
Ilusões, utopias, ausências por completo de sentidos - significado. É inevitável; liberdade se mistura a tudo isso, de uma forma frustrante e obrigatória. Mas seria esta mesma a sua verdade? Possivelmente. Ou melhor, talvez não... Liberdade é não saber, não responder por si - desenraizar-se. É desconhecer caminhos, nutrir vontades e afogar reações (consequências). Ser/ estar livre é, sem mais nem mais, encontrar-se perdido. É, sim, o mundo à revelia...
E o que há de mal nisso? Eu vos digo - a mim é indiferente. Mas, não obstante, conceitos errôneos nos levam tão somente a escolhas equivocadas. Quando gritamos liberdade!, de fato nosso desejo primário é a perdição, a ausência de intenções?... Vejamos bem.
O que desejamos veementemente, os nossos elos intensamente carregados de ardor e pungência, pelo que gritamos de verdade é, numa palavra - e aqui, senhores, absolutamente não há distinções, uma sequer! -, o que realmente buscamos são os propósitos, as idéias (a identidade). E, não há por que protestar, de tais não se tratam a liberdade. Propósito, idéia, identidades, tudo remete a compromisso. Responsabilidades. Melhor dizendo, tratam-se de pequenas prisões aprazivelmente admitidas. Somos o que estamos dispostos a fazer. Felicitamo-nos com as vontades ferrenhamente conquistadas. Isso requer luta, sacrifícios, caminhos traçados e trilhados. Não há um dedo de liberdade nisso; no entanto, em tais condições, encontramo-nos repletos de significados. Plenos de sentido. É inegável, dizei vós, é inegável que ser livre não é o verdadeiro desejo universal (e por que não?).
Poderia ilustrar semelhante razão com inefáveis desenhos, anelos, situações. Porém não executá-lo-ei; exercerei aqui o meu direito ao egoísmo. Digo apenas sobre mim, sobre minhas prisões necessárias. O frio é uma condição, um ciclo - um tempo para reclusões, reflexões. Das loucuras alheias, insisto: saibamos lidar com as nossas; o primeiro passo - a aceitação. Por fim... A corrida? Muito bem. O lugar mais alto do pódio deve ser almejado, embora inesperado. A glória é mais apraz quando real. (Aqui, um pequeno exemplo interessante: correr é sentir-se livre? Jamais! Quando se corre, é preciso saber exatamente para onde ir.)
E assim, mais uma semana - mais uma semana... De liberdades? Não; aos diabos com elas!... Eu quero mais é prender-me a tudo aquilo que sou, que faço, que anseio.