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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

De Repente... 30!

Sabe aqueles dias em que você se encontra como que se estivesse desligado do mundo? Digo, quando todas as pessoas ao redor estão conversando sobre um acontecimento importante do qual você não possui ciência alguma; ou quando houve uma festa há tanto esperada, e que você não foi? Um feriado prolongado, férias coletivas, e você ali, o único ser existente no momento que não está fazendo o que realmente quer fazer! Enfim, é isso. Sinto-me deslocado, desalinhado, assistindo a um grande show - pela TV...
E não é que todo carnaval tem mesmo seu fim? Não obstante, às vezes tal fato não é de todo ruim - às vezes não há nada de ruim nisso. Feito uma grande vitória de seu maior rival, algo que você deseja tanto que termine logo. O melhor seria que sequer tal existisse, não é!... Ainda assim, está tudo lá: as glórias alheias, o sucesso, os risos; todo o aprazimento que teima em se desviar de nosso caminho. Você se sente velho, cansado, sem-graça, de braços atados, sufocado - mas de olhos e ouvidos plenamente atentos. E você pragueja. E logo em seguida, culpa-se de tal ação ou revolta. E se diminui... Sei que você sabe muito bem disso, afinal.
Pois bem, você aí, sentado sobre a própria angústia... A você digo eu, numa palavra, “bem-vindo ao clube”, eh eh eh!
E o fim, tão somente, às vezes não é ruim - desde que não seja o nosso fim! Um pequeno traço vil em nossa personalidade, um quê de frustração, impotência, preterimento. É assim que nos sentimos quando não plenos... E já que da plenitude e da perfeição não podemos exigir mais do que um átimo de suas presenças, tal condição nos torna habitual. Ora, mas que lástima é essa?... É a vida em sua face mais crua, afirmo! Queremos ser grandes, desejamos concluir sonhos e objetivos, clamamos por atenção e aplausos, e por vezes não aceitamos que isso nos seja negado - e concedido a outrem, digamos, de menor valor. Valores? Não, eu confesso - trata-se apenas de vaidade, orgulho. Mas somos o que somos, e essa afirmação não é meu objeto de incômodo. O que torna meu tempo lancinante, o que punge minha existência é o próprio tempo; a condição de instabilidade de tudo aquilo que ainda preciso realizar, viver.
No entanto, passam-se os dias, vai-se a noite, esvaem-se os prazeres, finda-se o feriado, morrem-se os heróis, destitui-se a beleza, vulgarizam-se os desejos, inutiliza-se a vontade - no fim, tudo tem seu fim. Até o carnaval, até o carnaval! E nessa hora, não importa o que você fez ou deixou de fazer, sobrarão apenas lembranças - saudosas ou torturantes. E a isso resumir-se-á nossa história: memórias. E através delas escrevo parágrafos, miro o horizonte, construo a vida. E tudo isso para que, no futuro, obtenha inúmeras outras memórias... E o crucial dilema da morte, o deixar de existir é assim constantemente combatido por essas lembranças - e pela almejada habilidade em deixá-las cravadas nos corações da humanidade.
Ao escrever, sinto-me vitorioso; vem a mim a sensação de vencer o tempo, ou melhor, numa palavra, prolongar o meu prazo de validade. Ao expor em palavras, sei que tais pensamentos não se perderão tão facilmente - tal qual num discurso vazio. Ainda que dure um ínfimo instante, tal raro e por demais procurado momento de plenitude e perfeição. Não importa! Um momento como esse pode representar uma vida... Minha vida por uma memória!
Não obstante, alguém passa perto de mim, e com um tapinha nas costas me diz: “feliz aniversário, meu chapa”!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Brilho De Manhã (segunda parte)

Essa noite ela resolveu sair. Por aí, nada demais, nenhum plano. Apenas se cansara de ver todas as noites se acabarem da mesma forma - cedo, um sentimento permanente de atraso, uma tela de computador ligada - e saíra. Apesar dos inúmeros e insistentes convites de amigas e colegas de trabalho para tal, não possuía alguém em mente, sequer algum lugar. Sentar-se, beber algo, comer algo, ver pessoas - desconhecidas de preferência. O que fazer, ela ainda não o sabia. E por mais casual que fosse, ainda assim, gastara mais de duas horas, distribuídas entre arrumar-se e criar coragem. Seguir em frente, deixar-se levar por impulsos; talvez aquilo fosse bom para ela. Ela não desistiria. Estava pronta. Pegara as chaves do carro, decidida, sozinha... E assim saíra mesmo de casa. E o que era para ser um simples café, para ela transformar-se-ia numa noite de gala.
Apesar da ocasião - era uma sexta-feira - a cidade não se aparentava tão cheia assim, sufocante, angustiante. “Ótimo!”, ela pensava. Detestava tumultos, badalações, multidões. Um Café Bar era o que veio primeiramente em seus pensamentos. “Parar o carro, pedir algo, sentar-se... Ir para casa.”, na verdade ela ainda estava com medo; talvez não medo, mas tão somente uma incerteza. Não era habitual de sua parte semelhante comportamento, portanto era de se esperar aquela sensação, tal estranheza, insegurança. A noite parecia tão grande e desconhecida para ela... “Tudo bem, tudo bem, eu consigo...”, ela reunia forças. Encontrara uma vaga para estacionar. Respirou fundo, dois leves últimos olhares no espelho retrovisor interno, e logo depois todos que porventura passassem por ali puderam ouvir o som costumeiro do alarme automotivo. Ela estava lá, na rua, noturna, luzidia, inebriante, enigmática.
Ela se sentou frente a uma mesinha primeiro, depois pediu algo. O atendente a olhava timidamente, dizendo o mínimo necessário. Nem cinco minutos e pronto, a bebida já estava lá. “E agora, o que fazer?”, ela aparentava desdém, mas havia apenas inquietação. A maioria dos olhares se voltava para ela, e os seus donos se mordiam por improvisarem uma aproximação. Porém, não seria um mero ser ordinário capaz de tal feito - ela exalava altivez, ainda que de forma reflexa -, sua beleza espantava qualquer espécie de figurante. Tão somente um príncipe encantado - o seu príncipe encantado! - seria audacioso o suficiente para lhe dirigir a palavra (de preferência que o fizesse com um sapatinho de cristal em mãos, eh eh eh!)... Não obstante, logo, logo algo aconteceria.
Quando ela estava com fome e impaciência suficientes para ficar ali, sentada e parada, acenou para o mesmo atendente. Decidiu pedir uma torta de frango, mas na verdade ela desejava dizer e ouvir palavras, ainda que estas fossem oriundas de um simples pedido num Café Bar.
- Pois não, senhora, pois não...
- Eu não estou vendo algum acompanhante em minha mesa, você está? - deus, como ela sabia ser irônica!
- Perdão, senhorita, perdão! - o simples funcionário transpirava, tremia, mas no fundo se sentiu um pouco aliviado com a resposta dela; afinal, por mais improvável que fosse, ainda assim, ela, sozinha... Poderia haver alguma possibilidade.
Ah, mas o pobre e reles atendente ainda não aprendera que, em vidas desinteressantes como as nossas, nunca, nunca tal possibilidade haveria de existir, sob nenhuma hipótese ou circunstância!
- Tudo bem! Eu só quis descontraí-lo, nada mais... - e isso era uma verdade. O seu sarcasmo não passava de outro ato reflexo.
- Como queira. Com licença. - ah, mas a labuta realmente não é uma coisa sagrada e primordial? Pronto, aquele rapazinho já era...
Ela não conseguiu ficar lá dentro por mais tempo. Assim que voltaram com seu pedido, não demorara mais do que outros cinco minutos para se levantar já com a conta paga. Saiu de lá, menos insegura e mais esmorecida, deixando aos demais a idêntica impressão com que entrara, de sua superioridade física e emocional. “Soberba!”, pensavam todos - mas isso se tratava unicamente de autodefesa, de um sentimento de impotência, de apatia de sua parte. E assim, ela retornou decidida ao seu carro.
A poucos passos de seu destino próximo, já em mente com a escolha de voltar para casa, para seu refúgio, ela, quando menos esperava, feito chuva repentina, folga de última hora, provara do sabor do acaso. Desajeitada como sempre fora, ela havia deixado as chaves escaparem de sua bolsa entreaberta. E antes de se abaixar para pegá-las de volta, ela se esbarrou em um corpo estranho. Alguém se prontificara com cavalheirismo - algo tão raro hoje em dia! - e, em segundos, com as chaves em mãos, antecipara-se a apresentação.
- Aqui estão, suas chaves!... Espera, pois, acho que lhe vejo em alguma marcante memória minha... - suas palavras não condiziam com a própria imagem: cabelos desgrenhados, magro, estatura mediana; um qualquer de traços tímidos que, antes de mais nada, sabia muito bem de sua eloqüência.
- Obrigada, muito obrigada, mas eu não sei de quem se trata, senhor...
Nomes para cá, ofícios para lá - ela reconhecera naquele homem a imagem de um antigo conhecido em épocas colegiais. Surpresas, sorrisos, leves exaltações...
- Mas por que você está por aí, assim, sozinha? E já tão cedo, para casa? Posso oferecer-lhe um simples passeio? A pracinha, as vitrines, lembro-me de que gostava disso... - de fato, a sua memória não lhe era faltosa.
E então ela mudara seus planos, permitira-se ao tal acaso. Afinal, não era isso mesmo que ela queria? Um imprevisto, uma novidade, algo que escapasse de suas condições - mesmo ela sabendo que nada, nada contentá-la-ia plenamente. Porém naquela noite ela prometera a si mesma portar-se diferente, desigual a tudo aquilo que costumara ser durante meses, anos. E aquele tempo todo havia a consumido tanto... Toda aquela espera, intrínseca sensação de que o mundo estivesse à espreita do fim de sua existência.
Ela não se lembrara de como nem por que, mas quando se deparou consigo, naquele momento, após dobrar a primeira esquina, já andava de mãos entrelaçadas. Não queria saber mais de prestar atenção nas palavras que saíam da boca de sua súbita companhia; ela olhava apenas para o formato duplo da sombra que se exibia perante as luzes ao redor - postes, vitrines, faróis, alentos... E num átimo, tão somente num ínfimo instante, ela obtivera o que desejara. E antes que o rapaz ao lado pudesse usufruir o que ansiava desde o seu primeiro passo, ela, zombeteira, recuara - ela sempre fizera isso... Simplesmente virara o rosto e, esquivando-se, retomara o seu plano inicial de regresso.
- Já é tarde. Amanhã acordarei cedo. Fique por aqui, não há motivos para me acompanhar de volta. E obrigada pela diligência... - e assim, ela se desfez daquele outro. - Até mais!
Aquilo era uma fantasia e ele sabia disso. No entanto, sabia também do seu lugar, da sua falta de direitos em a reclamar para si. Pois ela era um deslumbre, e ele compreendia a necessidade dela de continuar sendo tal. “Afinal”, ele pensava, “se ela se entregasse assim, trivialmente, para onde iria todo o seu nobre orgulho?” - uma verdade, ainda que indesejável. Não obstante, o simples ato de alcançar os seus passos, por menor que se mostrasse o tempo concedido, valera já por uma noite toda - aquilo possuía o poder de significar uma vida toda! Portanto não havia como queixar-se de tal ensejo. Era ela quem escolhia... E ele não passava da suposição de um possível acontecimento. E aí, aí havia algo de espetacular, nobreza de sua parte em não se agarrar a um lance - que vem e vai, feito brisa do mar, último dia de férias.
“Faz mal não, moça, faz mal não! Eu sou obscuridade, tu és manhã!...”
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Em instantes ela chega a sua casa. Abre o portão, tira os saltos, vai até a geladeira, olha-se no espelho. Dessa vez uma pequena insolência define os seus pensamentos - e não a habitual melancolia. Por um momento ela se sente soberba, elevada - acima de toda a sua insegurança e queixumes. Ela se vê límpida, evidente, inteira. O negrume advindo da debutante madrugada, que impregna os sentimentos de todos os solitários e necessariamente amantes, é tolhido por sua altivez. Ainda que por um momento apenas. Ela se encontra próspera.
Mas, não obstante, falta-lhe a coragem. Talvez não em agir, ao menos não nessa noite, mas tão somente em consentir - na admissão da superioridade de sua busca e da complexidade de seus anseios. Ela vê as possibilidades e as refuta, como um infante que atira a sua comida ao chão. E sorri para si. Ainda que no dia seguinte ela saiba que irá prantear-se... No fundo, ela ostenta dúvidas perante o seu querer - e não dá o braço a torcer! Ela ergue o queixo e se dirige ao seu quarto. Ela dorme segura, indiferente aos sonhos alheios.
E o que ela não sabe consiste no dilema emergente de sua própria condição: ela nascera para a exuberância, não para a simplicidade. Ela é o centro, as redondezas somos nós, homens infelizes. A noite se esvai e ela continua sem alguém por perto - alguém à altura. Ela dorme sem um pingo sequer de lágrimas dessa vez; tais se restringem a verter em nossas faces. Ela dorme consciente apenas de sua harmonia. Imperiosa, intangível, lume de nossos alentos. Longínqua, copiosa - benquista figura, mesto destino, tal qual vã esperança -, a nós laboriosa. Desconhecedora de seu tempo, ação e lugar. Predestinada, salvadora, etérea. De ponteiros contados... Feito brilho de manhã.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Brilho De Manhã (primeira parte)

Ela acorda todo dia com a sensação de que ainda lhe faltam algumas horas de sono. Na maioria deles, acorda cedo. Muito cedo. Vaidosa antes de qualquer coisa, precisa de uma hora ou mais para se arrumar: cabelo, roupas, adereços - tudo muito bem escolhido, de uma forma que só ela sabe fazer. Olha-se no espelho duas ou dez vezes. Atrasa-se. Engana o estômago com algumas migalhas e sai de casa.
Ela diz que não é bonita ou atraente, mas assim que põe o salto para fora de casa é notada de imediato. Ela possui uma beleza que, mais do que simplesmente atração, desperta um sentimento de zelo, proteção. Quem a vê, deseja-a - e não só para uma noite, ainda que isso pudesse ser considerado um grande deleite; mais do que isso, a vontade despertada é de querer mais, de tomar parte -, assim, diga-se de passagem, num arrebatamento inconsciente. Ela possui todo aquele charme que tão somente é possível de ser percebido pelo sexo oposto e, de forma apraz, sempre a prima impressão que se estabelece é fitada continuamente ao longo de quem cruza o seu caminho. Basta ela ceder um olhar e, é bem verdade, corpos inclinar-se-ão. Mas, não obstante, como toda boa dose de insegurança, ela não crê em seu próprio poder, e feito num autêntico conto de fadas ela vive a esperar certa fantasia principiar-se - do nada, que seja!... Isso não lhe importava muito.
Situada nos dias de hoje, não em tempos remotos nos quais uma mulher como tal jamais portar-se-ia dessa maneira, ela trabalha - e muito até! Dois ofícios, duas cidades, horas e horas de condução, visitas e escritório. Alguém importante, de responsabilidades e competências, alguém que se tolhe do direito de cultivar ociosidades - conquanto cultivadas!... Em conseqüência, durante todo o dia ela só possui tempo para suas obrigações. E as fantasias, os anseios, “ah, estes que esperem o seu devido momento!”...
Chega o fim do dia e ela se sente mais cansada do que todos os demais seres do mundo, como jamais esteve antes. Abre o portão de casa, deixa todos os seus pertences espalhados pelos cômodos, liga a televisão, o computador, livra-se dos saltos e prepara sua refeição - nada saudável, apenas algo que lhe satisfaça os sentidos. À medida que o dia se finda, ela vai se tornando melancólica e comum. Pensa o quanto ela deseja trocar tudo que possui por alguém - um alguém para se entregar. Alguém que a elogie, que nunca levante a voz em sua presença, e principalmente que sempre diga as palavras que ela queira ouvir a cada hora, a cada instante. E isso, claro, sem que ela dê qualquer tipo de vestígio ou sinal. “Ainda assim tão simples...”, ela pensa, “Por que é realmente tão difícil?”. E mais uma vez ela diz para si mesma: “Vai ver é a minha falta de atrativos, de coisas interessantes para se mostrar...”.
Não obstante, as horas passam. Duas, quatro, e já é bem noite. E o desespero volta à tona - logo o amanhã baterá à porta! Ela corre para se arrumar, faz de tudo para dormir um pouco mais, com a mesma sensação de sempre: o atraso. E sua mente se livra num átimo de todas as demais angústias - suas três décadas não parecem ser tanto tempo assim...
Mas os dias caem feito folhinhas de um calendário, e ela somente percebe tal movimento quando não consegue mais encontrar certos objetos ou documentos dentre as coisas que deixa acumular nos lugares incorretos. “E a casa já precisa de uma organização urgente!”, pensa consigo mesma. Porém tudo é adiado como sempre... Na verdade, o que ela precisa, o que ela busca não se trata disso. E assim ela sente o próprio vazio. Justo ela, tão bela, tão desperdiçada! Contudo a única coisa de que ela realmente necessita, o primeiro passo, ela resiste em efetuar. E mesmo sorrindo, ela verte lágrimas por dentro.
Outro dia, os mesmos sono e compromisso atrasados. Outra vez ela se levanta sem tempo e coragem para pensar em seus principais problemas - amor, solidão; alguém que valha mesmo a pena e que insiste tanto em não aparecer! -, adiando como sempre aquilo que ela não suporta mais esperar. Ela se permite apenas ao trabalho, estudos, compras, guloseimas, algumas futilidades. E o porquê disso tudo ela não consegue compreender; ou talvez ela simplesmente não queira admitir tal coisa. Vai ver a família, os bons costumes e a moral andam estorvando todas as suas forças - e assim, as suas vontades vão ao encontro da negligência. Outra noite, outro adiar... E sentada, sozinha em frente à tela, ela chora, chora e dorme.
Mas o que ela não sabe é que o motivo de sua procura e anseios serem intangíveis reside em sua própria descrença. Ela sonha tanto, e tanto espera - e ao mesmo tempo diz desejar apenas o simples; e ela acredita em tal dizer, eh eh eh! -, que nada ao redor se torna casto o suficiente para lhe despertar a atenção. Ela se ilude tão facilmente, e no fim é capaz apenas de transformar em lamentos as suas frustrações. Ela escreve tudo aquilo que sente, que almeja - para no momento seguinte jogar tudo fora. Ela abre os olhos para os seus filmes e atores prediletos, e abandona aqueles tantos que lhe pedem tão somente um ensejo, um acaso para lhe mostrar o quanto da diversão ela teima em perder. Mas ela quer apenas isto: um filme, um amor que lhe faça chorar!...
... E eu padeço em lhe perguntar: ora, mas para quê tanto choro?!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Experiência

Mais um fim de semana ligeiramente vazio, e como a minha proposta é sorver tudo aquilo que me é concedido, pois bem, assim me vejo em situação tal que exija de mim um quê de produtividade. E agora à noite, surgiu-me o momento ideal para iniciar uma experiência: um conto, uma narração em terceira pessoa, uma alma feminina. Uma linguagem tênue, um ambiente suave - ou seja, precisamente o inverso de minha essência. Mas, não obstante, um propósito e uma tendência. Até onde vai a minha aptidão para com as palavras e as reflexões, é o que me questiono - e esta faria as vezes de tal propósito - neste momento e em todo o sempre, provavelmente daqui em diante. E em segundo, conquanto não menos considerável, a eterna condição própria da dualidade - que por vezes inúmeras permite o confundir-se com a incoerência, a estranheza e a excentricidade. Pois bem, aos poucos a intenção de me revelar - ocultada na concepção fantástica de tais parágrafos, textos e idéias - perante a quem eu for hábil o suficiente em despertar intriga vai tomando importância maior... Perdão, senhores, perdão!, o meu orgulho e a minha vaidade me tolhe o acanhamento, eh eh eh! Todavia o meu respeito por vós me remete a tais explicações...
Portanto, ao trabalho... Ao trabalho, senhores!

P.S. Provavelmente tal conto será postado em partes, com o intuito de não vos gastar por completo a generosa atenção que é, porventura, por vós a mim atribuída. É isso.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um Novo Começo

  Sim. Trata-se disto. É bem verdade que se faz por irrealizável o completo apagar de nossos atos, indiferentes sejam suas origens e razões. As consequências produzidas são igualmente do mesmo modo - inadiáveis e inevitáveis. Pois bem, senhores, pois bem! Não somos feito máquinas, aptas a reparos e formatações - e aí, havei de concordar todos vós, aí reside algo crucial e incomparável, algo que define a existência humana: a nossa memória. Ora!, vede bem, senhores, como se comportariam todas as evoluções sem essa capacidade das recordações? Mas, não obstante, a ideia não é essa... Tal vai além.
  Ainda que a história ostente o ofício de nos colocar em nossos devidos lugares, novos rumos são necessários. Os erros, os fracassos, as frustrações, tudo leva a um recomeço. Não haveríamos de suportar nossa própria condição se tal ensejo nos fosse vetado, se não houvesse uma alternativa ou uma saída qualquer. Tratar-se-ia de um imenso pesar a total ausência de uma segunda chance - um amanhecer e um novo dia -, uma nova luz em nossas vidas.
  Uma segunda chance... (Todos merecem uma segunda chance. Pensai bem nisso, senhores, pensai muito bem nisso!)
  Portanto, senhores, e um certo alguém em particular - alguém que, ainda que não confie na própria arte de mediar meus passos, meus fins e propósitos, determina, mesmo que de forma casual, minhas escolhas, meus pensamentos e minhas ilusões - cuja intenção desconheço neste momento, e que muito provavelmente também não a saiba, o que peço, melhor dizendo, o que imploro é justamente por essa outra via. Ainda que seja, quiçá, a terceira ou a quarta... Mas, não obstante, a minha redenção! E um novo começo, um novo começo é de que necessito agora.
  Pois bem. Este é o meu pensamento essencial: o direito de errar, o direito de aprender e viver. Isto, senhores, as falhas, as quedas e os temores, isto nunca será maior que nossa natureza - maior que tudo aquilo que buscamos, senhores, maior que o caminho que compomos, senhores... Jamais, jamais! E isso, apenas isso, basta, basta!... Desse direito que reclamo se faz o amor pela humanidade, pela singular existência e por toda e qualquer espécie de vida. E é aqui que assento os pilares de meu reinício, de minha salvação, meus senhores... (Sim, minha senhora, sim...) Ah!, como é tudo tão belo!...
  Doravante, novos atos, novos dias - ainda que o resquício de minha estultícia continue a me condenar perante tais olhares alheios.
  Senhores, meus caríssimos senhores - senhora minha, oh!, tu também... -, permiti este meu novo começo!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

(3) Fim De Ano

  Minha grande luta é saber domar os voos do pensamento, reduzi-los ao limite das ações. Assim e tão somente assim abandonaria de vez toda a aspiração àquilo que não sou - e que jamais serei. Mas, não obstante, confesso: meu egoísmo não admite a resignação, senhores, a conformidade. E, é bem verdade, caso não aconteça algo de extraordinário e fantasioso neste momento que urge, sinto que encontrar-me-ei fadado à eterna vulgaridade - e à revolta eterna...
  Fim de ano. Trata-se de uma época que, por natureza, remete-me às reflexões - a uma conclusão, ainda que mal executada. Em sua maioria, para mim, isso não significa aprazimentos. Por vezes, sobra-me tempo... Desnecessidades. E esse tempo, digamos assim, esse tempo obrigatório de sobra - e o acúmulo de pensares, ah!, todos esses pensares perturbadoramente incontroláveis... -, bem, eu o ocupo com atividades físicas. O esgotamento, senhores, o benquisto esgotamento corporal. Se não vejo com bons olhos atingir meus extremos emocionais, por ora, que eu alcance tais do lado de fora! Pois bem. Dieta, exercícios - e mais exercícios!, mais exercícios físicos... -, privações: ah!, os prazeres da gula e da preguiça... Faço destes os meus mais iminentes inimigos nesta hora íntima de fraqueza espiritual - dessa maneira, senhores, permito-me continuar a viver um pouco mais.
  Felizes são os que se contentam!... Com suas posses, suas capacidades (com elas e tão somente com elas); com as próprias limitações, afinal - felizes e satisfeitos com a mediocridade de simplesmente existirem e nada, nada mais que isso. Pois raros são os belos e os criativos, bastos de deleites; irritantemente raros e castos e odiados, todos aqueles agraciados por sabe quem ou o quê - divindades, mistérios etc. Possuem tais, meus, queridos senhores, possuem tais alguma espécie de tormento ou desassossego? Aos diabos todos eles!... Muito bem. Sim, é bem verdade, é possível que exista uma atribulaçãozinha aqui ou ali; mas, não obstante, jamais uma verdadeira mazela, algo digno de piedade e desgosto, algo assim de forma alguma ser-lhes-á infligido. Quando falecerem, farão parte da História - a eterna solidão não lhes está reservada. Apenas, assim como eu, apenas aos comuns, aos esquecidos, aos maltrapilhos - esmagados pelo Progresso... A estes, a felicidade não passa de submissão e renúncia. E, ademais - por deus e por todos os mistérios que haja por aí!... -, ademais eu juro, senhores, eu juro que seguirei recusando qualquer migalha ridiculamente oferecida em troca de minhas inquietudes!
  A semana passada me esgotou por completo. Insônia, restrições calóricas etc. A profissão, as minhas horas inúteis - a incapacidade de me livrar de certos incômodos... Ansiedade, intolerância. Preciso de férias, senhores, férias!... Mas, não obstante, o que fazer com elas? Insisto: o que fazer! Ceder espaço a todos os meus demônios internos? Dá-lhos asas, tornar de vez alada a minha caneta? Projetos, diversão, prazeres - quais, pois então, quais? Descanso - uma trégua... Não, não! Eu aspiro à minha obra! E esta, senhores, esta não me permite tais frivolidades. Muito bem, muitíssimo bem! Além do mais, momentos agradáveis não combinam com minha ordinária condição (ah!, como odeio tudo isso...) - sobreviver é preciso, meus caríssimos senhores; sobreviver realmente é preciso.
  Diabos!, mas onde estou com a cabeça? Pois a ideia não é essa, trata-se justamente do contrário... Perdão, meus senhores, mil perdões por sinal! A força do hábito se fez mais uma vez pioneira em minhas intenções. Mas, não obstante, de tudo isto se foi possível extrair minha plena sinceridade. Pois bem. Meu objetivo, senhores, a finalidade de tais equivocadas linhas era introduzir minhas considerações sobre o acaso, o inesperado etc. (Ao final - e quanto a isto, dou garantias de minha parte -, ao final tudo acertar-se-á!) Palavras imprevistas, nada mais que palavras imprevistas...

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  Pois bem, senhores, o porvir; sábado, domingo etc. E a minha condição, a mesma - nada, nada demais afinal. A não ser pelo acaso... E não tratar-se-ia de um quê excepcional, mas tão somente de outro ponto de vista (outro ser, outro pensar). Mais singelo, senhores... Puro, claro, inocente - sem ornatos ou enfeites. Talvez um novo conceito, quiçá uma possibilidade. Decerto que longe de meu alcance, é bem verdade. Mas, não obstante, um olhar - um olhar a me despertar respeito e indagação.
  Lamentos, chagas, aflições, tudo isso independe de requisitos para subsistir. Ainda assim, meus senhores, ainda assim as suas intensidades são mediadas por certas particularidades. A ignorância e a resignação as reduzem de modo considerável; a revolta e a inquietação surtem um efeito adverso. Não é costume de uma mente perspicaz tomar favores em semelhante discussão, pois esta possui, creio eu, a audácia de romper quaisquer restrições - sejam elas morais, sociais ou conscienciosas. E é justamente aí, senhores, justamente neste ensejo que me situo. Estagnado, torpe, perturbado. Privado de expectativas. E aqui chegamos onde desejara, com todas estas linhas sem sentido, conduzi-los: à necessidade da beleza, da curiosidade e de justas causas para almas irrequietas como a minha. (Um coração, senhores, um simples e novo coração...)
  Como semáforos que se abrem num repente em carreira, feito festa de última hora ou qual dinheiro encontrado em bolsos esquecidos, tal ensejo me ocorrera. E esse outro ser, esse outro pensar, do qual prima imagem se trata pela leveza, assim, sem mais nem mais, surgira em meu arredor. Alguém que, diferente de mim, despreocupa-se com tantos orgulhos, tantas vaidades. Alguém que, com tamanha singeleza, cabe unicamente em seus traços, seu lugar - e cabal assim se faz maior. Mulher, indivíduo, alma, imensidão, consciência/ consistência. Risos e sorrisos - e não mais que isso, senhores, não mais que isso.
  Tal encontro me fizera vergar, ocultando-me anelos e afãs. Semelhante criatura me instigara a crer em improváveis caminhos - talvez, senhores, talvez até confiar na Esperança!... Pois bem. E certo liame passara a ser visto como tangível: o encanto, as delícias, e a mim; meu ser, minhas ânsias, meus indagares, minhas impossibilidades...
  Ela simplesmente chega e diz, condescendendo, plena de si: “Oi!”. Um afago, um gracejo, e, tão claro e natural, germina-se um sol.
  Ingênuo, modesto, resoluto. Insólito.
  Fim de ano. O desfecho, senhores, bom ou vil, baldo ou préstimo. Mas, não obstante, de tal fim, compõe-se um novo preâmbulo.
  (Por deus, por que tanta lamúria?, para quê!...)

sábado, 16 de janeiro de 2010

(2) Discurso

Chove. Mais uma vez na semana, chove. Se ainda esta fosse útil para lavar o que há por dentro, senhores, eu haveria de suportá-la. Impossível, inviável, digo eu. Isso é sentença, fato - e fado. Hei de viver, conviver com a lama. Aqui não há notoriedade alguma, meus senhores, apenas solidão. Pertenço aos normais, ao povo; sufocado e abafado pela incrível e imensurável massa indigna de desconhecidos. Àqueles que nascem e simplesmente morrem. Sôfrego, côncavo, desprovido de fortunas e gracejos. Nenhuma particularidade, beleza ou talento. Fracassos, tão somente fracassos. Palavras e fracassos...
Todos os sonhos são ridículos. Ontem, minutos antes de dormir, veio-me em mente certo pensar - certo pesar, certo penar... Explico-me. Não pela necessidade - não mais, senhores -, porém unicamente pela total deselegância destes meus momentâneos atos. Coisa curiosa, justamente nas horas mais vazias é que cometemos as maiores vilezas das quais somos capazes de cometer. E apenas sob essa condição, senhores, vestindo o traje vil das desistências, ultrapassando normas e condutas, tão somente assim é que revelaremos a sinceridade e a complexidade de nossos interesses - a nossa essência, afinal de contas. Então, depois de todo o despojo e de toda a amoralidade que conseguirmos digerir, apenas depois disso é que seremos de fato verdadeiros - torpes, egoístas, rancorosos, vingativos. E quem não é, senhores... Pois bem, e quem não é assim?
Noite passada, diante de esperas e temores, presenciara o fim de mais um sonho, ainda que não o último - infelizmente, é bem verdade, restam-me outros, senhores, outros tantos mais... Um diálogo terminal e uma descoberta. Tudo envolto pela chuva mais enfadonha, incessante tal qual a angústia de longa data que me acompanha em noites insones como essa de ontem. Uma presença, senhores, uma constante presença em minha vida e um ideal - finados. Eu não sou de fato aquilo que ansiava ser. A consciência e o espelho jamais me trarão boas notícias. E o amor - e a paixão, e a idolatria, e a insânia... O amor não mais possui a propriedade de sustentar levezas em meu ser. Não há esperanças - assim como supostamente se define todo o mérito de minhas escolhas. Há apenas sobrevivência: asfixiada, sonegada, indesejada. O subsolo... Muito bem, muitíssimo bem! E tudo isto, senhores, tudo isto revelado numa só noite - tão somente numa insípida, inodora e descolorida noite.
Não, senhores, jamais a aspiração, a aspiração em si, esta jamais será a minha salvação. Eu não sou Fausto; eu não creio em deuses e anjos - mas unicamente no diabo, unicamente no diabo! O fato de ter desejado a imensidão, a grande obra, enfim, nada disto disfarçará minhas qualidades. E o comum e o vulgar tornar-me-ão como um todo. Eu seguirei longe, senhores, omitido do extraordinário, das ímpares conquistas. Um mero espectador - ou seria apenas um agente das suposições? Perguntas, reflexões vãs; nenhuma ação. Palavras que ninguém lê, sente, compadece ou compreende. E a revolta, ah!, a revolta, senhores... Por fim, o porvir - inutilidades, nada mais que inutilidades...
Imaginai, senhores, o amor personalizado de vossas vidas. A causa primeva. O ideal, o positivamente belo. Imaginai o propulsor de vossos atos, anseios e vontades. Conseguis imaginar? Pois bem. Vós ou quem mais for, seja qualquer um, ainda que por apenas um raro e irrepetível ensejo, qualquer um que houver de lidar com as eternas questões (o quê?, como?, por quê?)... Por fim chegáreis a uma resposta. E tal resposta, senhores, a única solução que haveríeis de encontrar - o insólito e grandioso sentido que faz o mundo, senhores, o vosso mundo, vede bem!, o ineditismo que faz girar as triviais engrenagens de vosso sistema -, por um acaso, feito mágica inefável e inesperada, num simples estalar de dedos, deixasse de existir. Fosse-vos negada, sem mais nem mais. O que fazer, senhores? Diante de tamanho desespero e tamanha cólera, insisto, o que fazer! Para onde ir? Onde!... Porque, havei de convir, para algum lugar todos, absolutamente todos devem ir - de fato!... E se não houver mais semelhante lugar, para quê viver?, para quê viver?... Aos diabos!, mas que chuva é esta, senhores?
Sob meu próprio olhar perscrutador, perante meu irrevogável estado de inquisição, vejo-me condenado a semelhante sentença: quem há, pois, de se lembrar de mim? Aos escombros, a isto pertence meu destino! Sou incapaz de ostentar a altivez, a arrogância - a petulância de quem desafia com desdém quaisquer precipícios... (O fim dos tempos.) Não, senhores, este não sou eu. A mim, tão somente o desespero. E onde, imploro-vos, onde estará aquela senhorinha de outrora? Longe de mim, ausente de meus direitos. Mais uma noite, mais uma noite!... Até quando, senhores, até quando haverei de suportar todo este fardo?
Mas, não obstante, deparo-me também descrente de todas as ilusões. Trôpego, confuso, é bem verdade. Que seja!... (Buscai a indiferença, senhores, buscai-a acima de tudo.) Pérfida liberdade, pungente e visceral paixão - eu amaldiçoo a todas! Vil consciência, malquista vontade. O diabo!, o diabo que lhes carregue - pois o amanhã, senhores, o amanhã pertence a ele e tão somente a ele... Mais ninguém, mais ninguém!
  - Um olhar, vilã de meu coração, eu não desejara nada além de um olhar teu, gélida e intrépida senhorinha. Vê-me e salvar-me-ei! De toda a imundície, de todo o populacho, de toda a compaixão. (Ainda que seja tarde, muito tarde...)