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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Dois Contos (dois)

Desde o princípio, sem sequer tê-lo visto ao menos uma vez, já soubera de quem se tratava - o amigo. De longe, ausente de conhecimento prévio, tão somente ostentando sentidos e previsões, esperava-o. Como se a vida ainda não houvesse iniciado de fato - faltava-me o amigo. Sim, aquele indivíduo que se despojasse completamente de condições e interesses perante nossa presença; na verdade tais se igualariam por natureza, ainda que os traços, sonhos e comportamentos fossem distintos e estranhos uns aos outros. Não importa, pois, semelhantes são os amigos - cúmplices de toda e qualquer estranheza... Ele existe, e eu sou capaz de perceber tamanha existência aonde quer que esteja - o meu amigo.
E unicamente através dessa percepção inefável é que a minha solidão desertara de sua militância. Eu poderia esperar por mais dez anos - ou dez dias!... - por ele, que simplesmente a diferença consistiria na espessura da lista de assuntos e pendências a ser lidadas, de lá até então. Ainda que falasse outra língua, que acreditasse em deuses, que odiasse o futebol e que não sofresse com horripilantes restrições calóricas... O meu amigo far-se-ia de razão e alento para todos os conflitos - afinal, disto se trata uma amizade. E entender-nos-íamos. Riríamos e choraríamos - e viveríamos. Absolutamente livres da dependência dos sentimentos. Sim, pois, o cativo reside na posse e no desejo - e eu e meu amigo brigaríamos por nossas desenvoltura e liberdade até o fim!
E nasceriam os nossos filhos - ainda que concebidos por imaginárias esposas - e trocaríamo-nos os nomes entre os próprios. E poderíamos estabelecer morada sobre um mundo de distância; nada iria perder-se, tampouco queixa alguma seria criada - os amigos não se abalam e não se trocam sob estados e obstáculos inesperados, estes não são voláteis como os amores e as paixões. E velhos ficaríamos, imunes ao esquecimento e às dores da vulgaridade. E tudo isto, tudo isto, senhores!, sem a necessidade de contato ou olhares - sabeis por quê? Ora, as mentes são incapazes de prover pensamentos singulares: os meus lamentos, as minhas angústias, os anelos e toda a sofreguidão que carrego jamais serão únicos e extintos - levo comigo uma legião estrangeira que vive e teme a morte e o anonimato assim como eu! E mesmo sem conhecê-los, senhores, mesmo sem conhecê-los, faço-me por ciente de suas essências. É assim, e tão somente assim, que conquisto e compreendo a eternidade; a minha continuidade na linha do tempo dar-se-á naqueles futuros tristes, ansiosos e furiosos seres que amarão, sob a condição de exaurirem a própria vida, senhores!, sem fins e exigências, e que exibirão a altivez inclusive no furo dos seus calçados, e que escreverão até sangrar-lhes os dedos sobre a complexidade da alma assim como essa ao mesmo tempo vil e bela, a curiosa humanidade. Pois eles existirão, eles existirão, senhores! E fá-los-ei todos amigos. Eu, que vós escutai bem, recluso neste subterrâneo confinamento, ébrio da própria miséria, serei lembrado e agraciado a todo momento que qualquer um desses meus amigos verta um sorriso ou uma lágrima - sejam tais de protesto ou ironia!...
Bem, agora já é hora do jantar, e os gols da rodada estão sendo exibidos na TV... Ao diabo, ao diabo com essa maldita dieta, eh eh eh!

domingo, 25 de abril de 2010

Dois Contos (um)

Sinto-me cansado. Das desculpas e dos motivos que insisto em produzir para ludibriar-me os fracassos. Cansado de ostentar altruísmo e positividades. Exausto estou dessa crônica condição de levantar, perder, dormir. As luzes lá fora tão somente refletem a minha falta de ventura - encontro-me mesmo fatigado de tudo. E isso não se trata de algum protesto, tampouco resignação; aqui não há nada mais além de desistência. O meu abatimento requer o direito de me tornar vil. Afinal, quem se importa?... Onde está o mundo todo agora?
As contas acumuladas em cima da mesa, a geladeira vazia, o cachorro definhando... - a vida girando os seus piões. Os dias vêm, as noites vão; o sono já não é mais reconfortante. Aquele vazamento no banheiro e na cozinha - eu já recebera notificação por escrito sobre tal. Mas que diabos!, se nem minha essência mal se contém em ínfimos punhados, por qual razão preocupar-me com a maldita água? “Água é vida”, malquista danação!... A casa, a casa já não é mais a mesma. Mas, não obstante, a solidão permanece idêntica a de outrora, antigas condições que se afirmam em ciclos e repetições - estas agarram minhas entranhas, temendo a morte mais do que eu mesmo. Um carro percorre a rua silenciosa, ouço risos de mulher.
Madrugada afora, sem sono nem ânimo para dormir - porque até para dormir e sonhar é preciso certa vontade... -, contando mais uma vez minutos e horas em um relógio digital, verificando o que eu não tenho de importante para fazer no dia seguinte, e o pior, lutando com todas as parcas forças que ainda possuo contra o próprio passado - inutilmente, o que torna meu estado ainda mais lamentável -, minha mente remete a lembranças. Lembranças e saudades. Em seguida, decepções - e lamentos e arrependimentos. Ah!, como um sentimento conduzido e expressado de forma equivocada revela tão somente a depreciação... Valores, personalidades, atitudes, tudo por água abaixo. E tudo, tudo por causa de um passo em falso - uma maldição. De fato, é bem verdade, não se pode errar jamais... Jamais.
O som ligado se torna a única amostra de atividade em toda a casa - havia sequer luzes acesas. Um R&B no estéreo, uma performance tão bem executada - e por alguém mais novo que eu... Um canto triste e altivo, feito minha própria miséria. Angústia. Um ano, dois. O envelhecimento. Minha vida?, uma página em branco - a ausência completa de registros. Um conto sem graça, isto é o que tenho, digo eu! Coisas que poderiam ser, fatos que deveriam acontecer, nada mais... Por que eu não posso simplesmente figurar entre os especiais, por quê? Ah!, quisera eu ser ao menos louco feito meu amigo D. Quixote - mas nem a loucura, nem a loucura permanecera ao meu lado...
Jazido no chão da sala, já em silêncio pleno - foi quando dera por mim, eu não sabia mais da realidade em minha volta -, entregue ao torpor da falta de vigília; vi-a mais uma vez. O rosto diabolicamente estreito, feito rara porcelana. Um sorriso austero, longos e lisos cabelos; olhos, que por si só já denunciavam o extraordinário, e olhares penetrantes - e cativantes, cativantes e hipnóticos. Uma figura capaz de justificar uma epopéia ou uma viagem ao tempo; apta a exaurir toda a minha alma. Na verdade, a causa final de minha desgraçada sorte.
Iria dizer algumas palavras, mas minha voz não estava mais sob meu controle - ela porém sabia ler minha mente. E não havia um quê de interesses de sua parte. Tão somente apatia e frieza. Aquela moça de traços e passos inefáveis ia e vinha em meus infames e insignificantes limites - e não deixava transparecer nada, nada! Sempre fora assim. Não houve mesmo sequer palavra. E aqueles minutos sofríveis - e ainda assim desejáveis, ah!, tão desejáveis... - chegavam ao fim. Ela começara a se esfacelar, como num sonho já desperto, uma noite com os seus momentos contados - mas se tratava justamente apenas disso, um sonho, não? Ou estaria enganado novamente... Súbito, num átimo quase que imperceptível, em meio à névoa que rondava suas formosas linhas, únicas e imunes ao esquecimento, assim, de relance, eu percebi. Algo. Vira e acordara. Não, não podia ser tão somente um sonho... Ali havia alguma certeza, alguma concretidão - um mirante, um lume a seguir. Ainda que isso se tornasse uma dúvida, um eterno indagar, tão somente uma falha em minha descrição, um motivo fora o que eu vira. Uma razão, uma brecha, uma saída e um caminho. Antes de seu completo desvanecimento, um gesto negativo com a cabeça. E aquele olhar tão sublime se desfazendo sob um novo rastro de mágoa - uma mágoa que me escapava do conhecimento até então.
O relógio despertador clamava por sua existência - ao diabo, ao diabo tal pertencia, ninguém mais senão o diabo! Para o meu azar, o dia far-se-ia costumeiro: trabalho, trabalho e trabalho...
“Afinal, senhora distante de minha vulgar e ignomínica rotina, seria rancor ou indiferença o que habita suas infelizes lembranças de mim e de meus infortúnios?”

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Grande Irmão (ironia ou verdade profunda?)

Ao longo dessa e da passada semana certo vazio preencheu o cotidiano da maioria dos brasileiros - ao menos daqueles que convivo frequentemente - e parte dos nossos diálogos diários. Nada importante, crucial. Mas, não obstante, o trivial igualmente possui o seu valor. Afinal, o que seríamos se tão somente existissem seriedades em nossas particularidades? Está incluído no processo de evolução o ato de brincar - acho que ouvi tal afirmativa em alguma remota aula perdida de meu passado acadêmico, eh eh eh! Pois bem, a hora é essa. Discursarei sobre futilidades, afinal!... E atire a primeira pedra quem nunca o fez - no caso aqui que será discursado, que desliguem a TV! O assunto, óbvio: o programa mais comentado do primeiro trimestre do ano. Dessa vez de forma avassaladora, jamais presenciada por minha pessoa. Eu cá sou macaco velho, acompanho-o desde a primeira edição. No início, unicamente aqueles despojados de cultas aparências assumiam tal interesse; mas nesse ano, promotores, médicos, gente simples - assim como as complexas! -, gente “da grana”, as ditas inocentes etc., e também aquelas pessoas racionais e masculinas demais para se interessar pelo comportamento humano... Enfim, todos ao meu redor se aproximavam para comentar sobre tal assunto; talvez apenas por cordialidade, quiçá para não se sentirem excluídas, vai saber!... E o assunto, senhores, desde janeiro - na verdade, para mim desde há muito tempo! -, o único, o polêmico, o turbulento, o curiosíssimo jogo da vida real. Sim, sim, Big Brother Brasil também é cultura, quá-quá-quá!
Pois bem, em qualquer disputa, independentemente de motivo ou razão, o primeiro prêmio é sempre o primeiro prêmio - e assim não seria diferente em nosso aclamado reality show; chamo-o de nosso por dirigir estas palavras a todos os que participaram de alguma de suas interatividades durante esses setenta e oito dias. Portanto, sem demagogias, BBB não se trata de causas nobres - as personagens são criadas com o intuito de se destacarem umas mais que as outras. E estendo tal afirmativa igualmente para toda e qualquer simples inscrição realizada, incluindo-me também nesse pacote, ou quiçá, intenção de participação. Afinal de contas, estamos lidando com fatores que se contradiriam eternamente, caso isso fosse diferente. Quando o assunto é tal programa, tal jogo, a sua essência não é outra senão comportamento humano - e ao citar comportamento humano, o indivíduo e o egocentrismo são a sua comissão de frente. Por fim, cada ser nele inserido - e aí há algo de obrigatório, condicional, requisito básico para ser credenciado a tal embate -, como de praxe, ostentará orgulhos, vaidades, altivez e uma vontade inefável de conquista, reconhecimento. Ora, como encontrar irmandade e devoção nisso tudo? Só existe um primeiro prêmio! Aí está a maior incoerência que já detectei ao longo dessas dez edições, senhores. E isto, isto continuará existindo por mais vinte, eh eh eh! E por quê? Simples, o ser humano, ordinário ou não, quer acreditar em bondades - no virtuosismo coletivo. E dessa forma, os discursos sobre amizade, altruísmo e os bons costumes perdurarão por não sei quanto mais tempo - mas não se iludam; o intuito, ainda que dissimulado, sempre será o de se sagrar vencedor.
(E de fato, não é bem isso o que vemos todos os anos, correto? Enfim, continuemos, continuemos!)
Não obstante, certos fenômenos que ocorrem em tal âmbito televisivo beiram a sinceridade. Atos bravos de companheirismo, tendências de positivas ações grupais, reciprocidade, entrega mútua etc. E tudo isso devido a um singularíssimo paradoxo: somos egoístas, porém não sabemos viver na solidão. E isto, senhores, isto é comportamento humano - pressionado, testado, tentado, afinal! Enfim, mais cuidado é o que aconselho, quando no exercício de julgar atitudes dentro do referido reality show; como já afirmei em escritas anteriores - e com rara felicidade de minha parte -, "somos todos vis, somos todos belos, lascivos, castos; afinal, palavra, não há estranheza em nenhum ato humano".
Por fim, a única diferença, de acordo com o meu humilde, ainda que sagaz, ponto de vista, entre BBB e vida real é que nesta optamos entre nos exibir ou refugiar-nos - os gostos, as vontades e as necessidades são de cada um; elas existem ou não. Já em nosso querido programa de TV, tal condição é uma obrigatoriedade! Sim, todos ali querem, precisam, anseiam por espaço e atenção - ser o diferencial, trata-se disso e nada mais. E às vezes agindo com fraternidade - pois esta se caracteriza pelo respeito pleno; a entrega é mesmo facultativa -, e por tantas outras desempenhando unicamente os próprios interesses, criam-se poucos campeões e vários figurantes. E aí, senhores, aí há algo de vida, um quê da nossa história, vista, lida e contada ao longo de incontáveis acontecimentos... E por isso, toda essa complexidade presente em semelhante programa tão torpe - em todos os sentidos possíveis, eh eh eh!
Aí está o verdadeiro interesse, senhores: mesmo aqueles que não se mostram gostam também de observar - ou espiar, como se costuma dizer. Já o veredito sobre as falácias de nossos grandes irmãos, deixo-o para a opinião de cada e tão somente um de vocês!...
No mais, nunca se esqueçam da prima finalidade de um BBB: o entretenimento. Afora tal, tudo não passa de suposições, teimas e teorias da conspiração. E que venha logo a próxima edição - e que eu ou um de vocês esteja lá dessa vez... Ora, afinal o importante mesmo é fazer história, quá-quá-quá!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mais Do Mesmo (um conto do capeta!)

Numa palavra, em meio a tanta anormalidade uma ou outra aberração extra tão somente é bobagem! E assim começa - e termina, ora pois! - este episódio em minha desventurada existência; fato corriqueiro, chavão de inúmeros que, assim como eu, vivem frustrados com a regularidade da vida ordinária. Hoje travei conhecimento com o grande ídolo. Impossibilitado estou de o nomear “pemba”, “anhangá”, “cabrunco”, “canheta”, “cão”, “cujo”, “dianho”, “malino”, “romãozinho”, “pé-de-cabra”, “tinhoso” etc. e o diabo a quatro!, já que sempre ouço os termos prolixo, faltas de tom e eloqüência dirigidos à minha pessoa quando lanço mão de certas particularidades. Portanto, hei de ser simples - malditos, todos vocês, eh eh eh!
O diabo em pessoa veio visitar-me...
“Oh, mas que novidade!”
Sim, senhores, é bem verdade, isto para a maioria aqui não é sinônimo algum de ação, dinamismo ou o quê - unicamente o trivial, quiçá o obrigatório! Vá lá, vá lá, permitam-me, no alto de minha insignificância, discorrer em palavras a minha experiência... E com brevidade, eu lhes prometo!
Pois bem, sem maiores introduções, a peleja se iniciou assim: cá estava eu a lamentar dilemas, anelos, estreitezas, desencontros, limitações, isolamentos - e a falta de dinheiro, fama e reconhecimento, outra obviedade! -, e então, num átimo imperceptível, surge-me tal bizarro indivíduo, ainda que suntuosamente bem vestido. A perna de cavalo, os chifres, a pele vermelha, o olor sulfúrico etc., e tudo o mais que todos vocês, ilustríssimos senhores, já perderam os cabelos de saber - mas nunca o interesse, quá-quá-quá! Sem nenhuma cortesia, arrancando-me a porta de entrada, veio e sem mais nem mais, perguntou-me:
- Ora, seu infeliz, lume do fracasso humano! Que diabos você tem contra meu respeito? O que diabos eu lhe fiz para tanta desaprovação? Vá, pois, que eu não tenho o dever de agraciar a todos com minha presença e ideais, mas você, você!... Aos diabos, você e sua inútil opinião! Passar bem!
E tal qual adentrara em meus parcos domínios, esse riquíssimo fidalgo, altivo, elegante, deixou-me sem direito sequer de réplica. Quanta arrogância, quanta falta de originalidade!... Sinceramente e francamente, eu esperava muito mais desse serzinho que lidera e inspira não menos que uma caterva ávida por sobrenaturalidades! Qual é? Não passa de mais um a reclamar da vida alheia, eh eh eh!
Mas é sempre assim: a expectativa, boa ou ruim, exacerba por demais a realidade. E mais uma noite comum me tomou de assalto - nem o diabo, nem o diabo fora capaz de enaltecer a minha essência! A total ausência de ação em meus atos, dizeres e pensares, tudo permanecera no mesmo lugar...
E a mim restar-me-ia tão somente a insônia costumeira, a intrínseca vontade de me explicar, explicar-me até me exaurir as energias. Mas não aqui, não para esses ouvidos e olhares; pois aqui, meu único direito é a laconicidade.
Mas, não obstante, amanhã, amanhã tudo haverá de ser resolvido; vocês, o diabo, a falta de tom - e os meus contos inacabáveis!...

P.S. Texto originalmente postado na comunidade (orkut) Novos Escritores do Brasil. O tópico do texto, assim como todo o enredo prévio da criação do próprio, ainda se encontra em tal comunidade - é pelo menos o que imagino, eh eh eh!

Mais Do Mesmo (apresentação)

Uma sucinta ambientação se faz aqui relevante: trata-se de um protesto - uma resposta, digna e em bom tom, a caríssimos escritores que, no apogeu de suas próprias complacências, concederam-me certo espaço para dividir e experimentar determinadas idéias literárias. Porém, os esperados conflitos de interesses, em se tratando de tão riquíssimas e complexas cabeças pensantes, mostraram-se maiores que tal experiência - um inconveniente dilema fora criado. E após algumas indelicadezas e farpas trocadas - e a clara condição da impossibilidade de se ampliar as fronteiras das relações pessoais, em semelhante espaço -, a minha resposta foi concebida em forma de um inusitado conto. Um conto que anseio por compartilhar com meus verdadeiros semelhantes, aqueles que encontram valor nas palavras aqui deferidas. Uma excentricidade - um cisma, um absurdo e um capricho ficcionista... Enfim, um disparate! E para não desmanchar a magia dessa minha irônica e satírica peregrinação ao obscuro e fantasioso mundo do sobrenaturalismo, julgo melhor dar logo início a este breve e jocoso episódio.
Sem maiores explicações tampouco necessidades para tais, cabe a mim, agora, apenas um dizer: ao conto, senhores, ao conto!

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Bicicleta

Era uma terça-feira, chuvosa por sinal. Mal tinha se levantado e já havia percebido a inconveniência iminente - a sua condução atual era uma bicicleta. “Que maneira ótima de se começar tão perspicaz dia de trabalho!...”, dizia para si - ele cultivava o péssimo hábito de conversar em voz alta com a própria consciência. Com os minutos contados, não possuía tempo de sobra sequer para pensar em alternativas: o jeito era vestir a velha e suja capa de chuva e sair pedalando em meio a poças e gotas d’água, sujeito a indelicadezas alheias típicas, em tais dias, de condutores automotivos - eles adoram acelerar suas máquinas frias, demonstrando toda a revolta interna existente em suas frustrações diárias, espirrando água e lama por todos os lados e infaustos transeuntes presentes; na verdade, adrede, eles procuram por tais infelizes!
Sempre que chovia ele gastava de cinco a dez minutos a mais em seu trajeto, em direção ao local de trabalho. Entrava pela porta dos fundos do escritório, por causa de semelhante meio de locomoção um tanto quanto insólito para aquele ambiente. Ele trocava de roupa ali mesmo, todos os dias: o seu uniforme ficava alojado em uma pequena gaveta localizada na despensa. Ele era o único que não possuía carro ou moto - ou qualquer outra coisa motorizada. Detestava condução coletiva, estimava uma rotina mais independente e ativa. No fundo, sentia-se até melhor do que todos os outros: ele pedalava para ir ao trabalho; os demais dirigiam, e engordavam. Ele avaliava o seu desempenho sobre rodas, cronometrava o tempo de cada dia, a sua evolução em termos atléticos. E se via feliz com isso - com uma coisa tão à-toa! Mas assim eram os seus dias, recheados de pequenas felicidades que só ele sabia detectar, ainda que chovesse - e muito! Não obstante, um dia de trabalho pela frente...
“Ah, mesmo daqui do lado de dentro da janela, como esse mundo de lágrimas celestes que verte sem parar me cansa ao extremo, eh eh eh!”; e assim começava de fato o dia para aquele rapaz. Documentos, ofícios, cópias, números: o verdadeiro serviço braçal - e digital. Todas as manhãs, exceto aos domingos e feriados, a mesma rotina. Porém, para ele, sob qualquer forma e circunstância, os dias não deixavam de ser únicos. Todos os outros daquela sala pensavam tão somente na hora do almoço, o intervalo de toda aquela tormenta. Mas ele, não... Ele enxergava, ali dentro e, mais ainda, no lado de fora, um universo vivo e cheio de possibilidades. As lamúrias, os resmungos e as caras fechadas significavam ironia e senso de humor; as pessoas nas ruas, novos e interessantes corações por descobrir - era desse modo que ele interpretava o seu dia-a-dia. Ele vivia sozinho, mas não se sentia assim. Terminava uma tarefa em sua mesa, via alguém se escondendo da chuva pela janela. Um colega de trabalho escapava da labuta para um café sem permissão, um cachorro se abrigava debaixo da marquise. E ele achava graça de tudo...
Dava-se o fim do dia, e todos ali não queriam mais saber de nada: colegas, papéis, despachos, horas e minutos. Exceto aquele rapaz; ele sempre saía por último, não havia por que ter pressa. Trocava de roupa, destrancava a sua bicicleta, alegrava-se com a trégua pluvial. “E não é que voltarei seco para casa?!”, dizia em voz alta para quem quisesse ouvir - na maioria das vezes, o mesmo cachorro da marquise, uma espécie de inquilino honorário do local. Mas naquele dia, havia outra ouvinte, especial, desconhecida, curiosa.
Os olhos. Ele se ateve aos olhos. Duas esferas reluzentes, enleadas àquela intrigante criatura que conversava com cachorros de rua; um semblante comum - traços finos, cabelos longos, um pequeno volume que preenchia discretas peças de vestuário. Um contraste de imagens estava criado: ele exibia ângulos retos, cores vivas, um aspecto forte, ruidoso. Mas ele se encontrava maravilhado com aquele par de olhos. Uma dádiva naquele fim de tarde...
- Que engraçado, moço!... O cachorro é seu amigo? Ele tem nome? Ele já lhe respondeu alguma vez? - um riso amador veio junto com aquelas jocosas palavras. Um brilho de inocência, um anoitecer de expectativa.
Todos os dias, ensejos, contentos, nuances, doces minúcias. Ele vivia só, ordinário; não obstante, ele sempre improvisava uma maneira de distinguir excelências. Seus afazeres, seus hábitos. Não havia pompa, sequer louvor neles. Mas ele sabia usufruir seu tempo, condição e lugar. Um pescador de perspectivas. Aqueles olhos - ele iria sonhar com aqueles olhos mais à noite.
- A imprudência é toda minha, senhora. Bastava-me comunicar com ele em sua linguagem costumeira e tudo estaria resolvido! Não é mesmo? - e num átimo todas as dúvidas e precauções se extinguiram; ele já se via apto a desafiar o mundo por aqueles olhos... - Enfim, quer uma carona... De bicicleta?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

De Repente... 30!

Sabe aqueles dias em que você se encontra como que se estivesse desligado do mundo? Digo, quando todas as pessoas ao redor estão conversando sobre um acontecimento importante do qual você não possui ciência alguma; ou quando houve uma festa há tanto esperada, e que você não foi? Um feriado prolongado, férias coletivas, e você ali, o único ser existente no momento que não está fazendo o que realmente quer fazer! Enfim, é isso. Sinto-me deslocado, desalinhado, assistindo a um grande show - pela TV...
E não é que todo carnaval tem mesmo seu fim? Não obstante, às vezes tal fato não é de todo ruim - às vezes não há nada de ruim nisso. Feito uma grande vitória de seu maior rival, algo que você deseja tanto que termine logo. O melhor seria que sequer tal existisse, não é!... Ainda assim, está tudo lá: as glórias alheias, o sucesso, os risos; todo o aprazimento que teima em se desviar de nosso caminho. Você se sente velho, cansado, sem-graça, de braços atados, sufocado - mas de olhos e ouvidos plenamente atentos. E você pragueja. E logo em seguida, culpa-se de tal ação ou revolta. E se diminui... Sei que você sabe muito bem disso, afinal.
Pois bem, você aí, sentado sobre a própria angústia... A você digo eu, numa palavra, “bem-vindo ao clube”, eh eh eh!
E o fim, tão somente, às vezes não é ruim - desde que não seja o nosso fim! Um pequeno traço vil em nossa personalidade, um quê de frustração, impotência, preterimento. É assim que nos sentimos quando não plenos... E já que da plenitude e da perfeição não podemos exigir mais do que um átimo de suas presenças, tal condição nos torna habitual. Ora, mas que lástima é essa?... É a vida em sua face mais crua, afirmo! Queremos ser grandes, desejamos concluir sonhos e objetivos, clamamos por atenção e aplausos, e por vezes não aceitamos que isso nos seja negado - e concedido a outrem, digamos, de menor valor. Valores? Não, eu confesso - trata-se apenas de vaidade, orgulho. Mas somos o que somos, e essa afirmação não é meu objeto de incômodo. O que torna meu tempo lancinante, o que punge minha existência é o próprio tempo; a condição de instabilidade de tudo aquilo que ainda preciso realizar, viver.
No entanto, passam-se os dias, vai-se a noite, esvaem-se os prazeres, finda-se o feriado, morrem-se os heróis, destitui-se a beleza, vulgarizam-se os desejos, inutiliza-se a vontade - no fim, tudo tem seu fim. Até o carnaval, até o carnaval! E nessa hora, não importa o que você fez ou deixou de fazer, sobrarão apenas lembranças - saudosas ou torturantes. E a isso resumir-se-á nossa história: memórias. E através delas escrevo parágrafos, miro o horizonte, construo a vida. E tudo isso para que, no futuro, obtenha inúmeras outras memórias... E o crucial dilema da morte, o deixar de existir é assim constantemente combatido por essas lembranças - e pela almejada habilidade em deixá-las cravadas nos corações da humanidade.
Ao escrever, sinto-me vitorioso; vem a mim a sensação de vencer o tempo, ou melhor, numa palavra, prolongar o meu prazo de validade. Ao expor em palavras, sei que tais pensamentos não se perderão tão facilmente - tal qual num discurso vazio. Ainda que dure um ínfimo instante, tal raro e por demais procurado momento de plenitude e perfeição. Não importa! Um momento como esse pode representar uma vida... Minha vida por uma memória!
Não obstante, alguém passa perto de mim, e com um tapinha nas costas me diz: “feliz aniversário, meu chapa”!