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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Olhos Soturnos

Carros na rua. Frio. Noite afora.
Casais sorrateiramente espalhados pelos cantos.
O fim de uma jornada de trabalho. Quarenta e oito horas sem ocupações - sem igualmente o quê fazer...
Café. Computador. Chá. Televisão. Livros.
Um inefável sentimento de incapacidade.
A casa vazia - alguns latidos ao redor da suposta vizinhança. Outros carros em movimento.
Música para assassinar o silêncio.
A morte dos sonhos - a desilusão da esperança. Risos sem ensejos; talvez a desgraça, o infortúnio, quiçá as ausências por tanto tempo presenciadas. Um protesto. Uma revolta. Demônios internos.
Estagnação. Inércia. Desejos intangíveis, vontades irreparáveis. A evasão do tempo. Rugas, calos, cabelos grisalhos; outra morte - a da juventude.
Horas, minutos - ponteiros e números digitais. Suores, impulsos incontidos. A lascívia.
O autoconsumo. A humilhação. O fracasso. A resignação.
Um semi-amanhecer.
Insônia...

domingo, 23 de maio de 2010

Tarde De Sábado

Ele não era atraente afinal, porém despertava a curiosidade. Seus olhos um tanto quanto irônicos - e ao mesmo tempo perspicazes - indicavam indagações que remetiam ao desconhecimento e a unicidade. No fundo ele cultivava certa melancolia, apesar dos sorrisos constantes e das sonoras gargalhadas. Tal tristeza era percebida apenas em suas palavras escritas e lamentadas; uma lágrima de palhaço escorria em seu interior. Seus ângulos retos denotavam tão somente disciplina e dedicação: exercícios, dieta; uma rotina que não o orientava a mais nenhum lugar senão o autocontrole. Ele não fazia cálculos ou planos, tampouco possuía a pretensão de viver décadas ou semanas; decerto que a necessidade de um insólito guia para refrear toda a inefável insanidade presente em seus sonhos era exaurida através de pesos, velocidade e calorias racionadas. Mas ele não era belo - e dizia a si mesmo não se importar com tal infortúnio.
O que o tornava alguém digno de um conto, senhores? Eu lhes respondo: a altivez, orgulho e opinião próprios, e o completo despojo das comparações. Ele tecia pensamentos, discursos e anedotas que o faziam ostentar a raridade, ainda que por vezes tais ultrapassassem os limites da compreensão alheia. Insuportava mesmices, mas, não obstante, aceitava-as. Sabia de seu lugar junto à solitária multidão de ilustres anônimos, apesar da falta de tom. Não usava sapatos, não vestia calças, ignorava formalidades. E amava a humanidade - mais do que amor, havia aí um interesse intrínseco que o movia em busca de sentido, de complexas explicações para o mais simplório dos atos desse assaz intrigante chamado comportamento. Entendia-a pelas metades, no entanto parcas eram as suas decepções. Era capaz de encontrar motivos para os feitos mais cruéis... “Somos todos egocêntricos, repletos de frustrações, eternamente responsáveis por compreender e aceitar o egoísmo de todos ao redor - sem exceção!”. Com estas palavras ele se apresentara a ela naquela tarde. Não havia a visto anteriormente uma única vez, sequer um “oi” ou algo semelhante - e aí, justamente aí, residia toda a curiosidade que ele conseguia provocar.
Ela parecia uma daquelas bonecas recém-lançadas no mercado de brinquedos, a fim de ser consumidas avidamente por crianças que já sabem há um tempo do poder e do vislumbre do luxo - a beleza, principalmente, e o luxo. Havia até a possibilidade remota de que ela não piscasse, respirasse, sentisse fome ou sede - e outras dessas coisas comuns a tudo de que se trata por humano. Uma estátua sobre um pedestal; não de mármore, mas de cera. Ao primeiro olhar, deixava-se claro a sua prima condição de melhores tratos - uma ode à beleza, e todos os cuidados possíveis e inimagináveis que tal requer para si. Luzes, futilidades, adjetivos, era tão somente disso o que ela precisava. Um verdadeiro amor - e todos os seus naturais sacrifícios?... Ah, isso era tão pouco frente aos seus desejos! Ela não nascera para se trancafiar em um único coração, senhores.
Tudo levava a crer que aquela seria apenas mais uma tarde de sábado em um shopping center para ela - não que desejasse mais do que isso em tal momento. No entanto, a surpresa que o mais fagueiro dos instrumentos de deus, o acaso, reservava-lhe jamais visitara os seus anseios até então. Afinal o que mais ela queria encontrar ali? Havia as lojas, as compras, os flertes e os risos. E ela era tão somente sorrisos... Uma autenticidade inocente estampada naqueles cantos de lábios suaves que eram capazes de perverter a maior das indiferenças. Uma criança, uma Alice, uma princesa em seu pequeno castelo saturado de súditos e pretendentes. Tratava-se de egoísmo, sim, porém uma reação natural de alguém que possuía em tamanha abundância a maior e mais cobiçada das virtudes - a formosura. Ela era o coquetismo em linhas delicadas, cores, olores e tênues gestos. Uma doçura, senhores!... O mais sublime dos manjares que os olhares possam absorver - isto, e tão somente isto, era o que ela era.
Uma tarde inteira se passara - rostos, imagens, sacolas, inúmeras delas..., paladares. Uma leveza sem aparentes motivos, a condição primordial de se usufruir trivialidades. Uma vida de plástico, maquiagens e ar refrigerado. Assim se faziam as tardes de sábado de Joana, a menina-boneca. Galharda, garrida, havias as delgadas linhas curvilíneas e havia os seus olhos hipnóticos. A inefável e inebriante sensualidade - a beleza que torturava e cegava. E sempre, sempre exibindo um sorriso e uma indagação; uma intriga, uma vontade irrequieta de encontrar algo que jamais conseguira concretizar em pensamentos, um quê de muito próximo do fantasioso...
Ela acabara de sair de tal shopping center. Despedira-se de algumas companhias, dirigira-se à fila de táxis estacionados. Era unicamente embrulhos - mal via os próprios passos! E de súbito, algo vencera a inércia de sua rotina, como o apito inicial de uma partida - num porvir, sem mais nem mais, tudo começa e nada remanescente de passados recentes se ramifica na memória. Um cronômetro posto a trabalhar, o disparo de um revólver, o nascimento de uma concepção - a paixão, senhores, a paixão!
Nos segundos imediatos após o choque, ela jurava ter se colidido com um muro ou um poste - algo fixo e rigoroso demais para ser transposto. Era Paulo; caminhava os seus passos distintos em seus trajes completamente soltos de tendências sociais e culturais. As compras, os presentes se espalharam pela calçada. E o contraste de imediato entre ambos, que dispensava apresentações e explicações - dois mundos, duas filosofias, duas realidades enfim -, paralisou-lhe os reflexos: Joana se transformara; dera-se conta de seus excessos, suas imperfeições. Logo em seguida, corara-se. E as palavras de Paulo, enfim, foram ditas.
- Não se preocupe, bonita! Eu também possuo, apesar de que as aparências teimam em contradizer tal verdade, igualmente carrego comigo uma infinidade de atos e hábitos individualistas o suficiente para receberem a alcunha de descartáveis. E é por isso que somos humanos, e que vivemos... E saiba também que amar-lhe-ei ao longo de todo o tempo que gastarei empilhando tamanhos e curiosos pertences!...
Tratava-se da peculiaridade de Paulo, comovente, intrigante; não haveria necessidades maiores que semelhantes palavras, tal figura, tal ensejo para que Joana lhe dedicasse uma eternidade de suposições - um torpor que queimava e cativava os seus sentidos. Um dia, uma tarde tão somente; um segundo, um olhar, dizeres e diversidades - pronto!, suas indagações e sorrisos já se nutriam daquela inesperada presença. Não desejava mais ir embora, suas sensações finalmente se vertiam em uma única direção. Um toque, um toque apenas e nada mais, e aquela flor nomeada ardência desabrochar-se-ia.
Não houve mais palavra. Talvez um “até mais”, quiçá um “fica bem!”; não importa. Paulo ia e vinha, essa era a sua essência - um passado, rugas e mágoas infindas o lapidaram dessa forma. Contos de antanho, desinteressantes... Na verdade, houve sim um diálogo entre os dois; não obstante o destino já agira por si - como onda do mar que não se impede, feito o tempo que não para. Usual, indesejável por vezes, esse portentoso galhofeiro já havia decidido por aquelas duas vidas. E a estreiteza, e a ansiedade, as noites incompletas e as horas incessantes, e tudo aquilo que os amantes sentem pungindo-lhes a identidade, independente de objetos ou motivos, já lhe invadiam a alma - ela clamava por notórias recordações; ele desejava apenas entrar para a história.
O diálogo, senhores? Ah, este eu deixo para depois; amanhã talvez, um dia ou dois anos até. Mas, não obstante, creio que suas insinuações bastam para prever o que realmente houve naquele fim de tarde para nossas singulares criaturas, ambos à espera das surpresas reservadas pelo ocaso - triste ou não, uma questão de opinião. Não é bem verdade?

domingo, 2 de maio de 2010

Um Alvinegro Dia De Domingo

Ah, como começara lastimoso esse dia... O diabo, o diabo sabe de cor do que estou falando! E ao diabo com tudo isso - dietas, relações, dúvidas, solidões, improbabilidades, pobrezas, trivialidades. Uma maldita contusão na perna, fruto do futebol nosso de cada sábado, impossibilitava-me de realizar minha intensa corrida dominical; um treino leve pela tardinha era o máximo que conseguiria fazer. Não obstante, faltava-me o ânimo. As minhas normalidades e a contínua falta de soluções me sufocavam numa condição acima do habitual. Paciência!, pois o dia ainda se mostrava tão precoce em sua existência... Algo poderia acontecer - afinal de contas, essa é a idéia da esperança, senhores!
E esse algo poderia mesmo concretizar-se, e em forma de paixão clubística - por que não?! Outra vez - e tais vezes já se fazem por incontáveis, é bem verdade! - o futebol salvar-me-ia o domingo. Afinal o meu Galo! estava na final do campeonato - o que mais eu poderia desejar?... E na medida em que o tempo se esvaía, todas as minhas querelas também se desfaziam, tornando-se estas tão somente desnecessidades. Não faltava mais tanto tempo para o início do jogo, e nem eu estava mais com tanta fome assim , eh eh eh!
Uma trégua, uma trégua de toda a miséria - era tão somente isso de que eu precisava. Um pequeno risco para se lidar, ínfimo perante a vontade que persistia em mim; em mim e em outros inúmeros, conhecidos ou não, que compadecem de tal paixão - a única realmente imune a toda e qualquer manifestação de ciúmes e disputas. Neste singular caso, quanto mais efusivos amantes existirem, melhor!... Não somos rivais, não somos mesmo! Aqui há algo mais próximo de uma irmandade, creio eu. E, senhores, trata-se da mais pura concretidão esta minha seguinte afirmação: somos muitos, somos numerosos, somos igualmente incontáveis, constantes, fiéis e inexplicáveis! Controversos por vezes, impulsivos, furiosos, ofensivos. Somos sinistros!... Mas, não obstante, compreensivos perante os iguais. Somos uma nação; e no auge inimaginável do nosso patriotismo, exibimos tão somente uma identidade: o amor, a paixão, a idolatria e a insânia.
Quanto ao jogo, senhores, digo que, numa palavra, não houve jogo - mas um espetáculo, uma apoteose. E por mais que os milhares lá fisicamente presentes bradassem toda essa nossa identidade, algo inusitado de fato ocorrera. Os gritos se tratavam de unicamente reações impensadas, pois por dentro emudecíamos diante da grandiosidade da tal momento. Uma contemplação impossível de ser vertida em palavras - e isso eu sei, senhores, mesmo de longe, em minha casa, de uma distância concreta e considerável, que falo por mim e por toda esta minha nação. Fora inexplicável...
Lágrimas. Sim, lágrimas, senhores, tão somente lágrimas conseguiam expressar o inefável sentimento daquele momento. Um desporto, uma decisão, jogadores, funcionários e outras gentes de suposta maior importância - e torcedores e seguidores. Torcedores assim como eu. Torcedores que, sem qualquer razão plausível e justificável, simplesmente vivem as suas vidas junto a esse mineiro clube de alvinegras cores. E hoje, hoje, acompanhando tudo pela TV - porque nesses dias de agora eu cá não me encontro com tolerância o suficiente para suportar opiniões de menosprezo e subestimação de alguns, apesar das iguais condições uniformizadas -, eu pude pela primeira vez comprovar tamanha sincronia de satisfação, comovência e compromisso: todos, indiferente de propósitos, funções, razões sociais, absolutamente todos vibravam em uníssono. Senhores, eu pude mesmo ver, e afirmo tão cheio de mim mesmo - eu vi unicamente verdades e realizações dentro daquele estádio/ palco. Um ídolo, um craque, um comandante e milhares de não menos importantes outros indivíduos exibindo almas e corações em glória. E o porvir, a consagração!... Não, eu não possuía sequer outra ação para demonstrar tudo isso senão a de verter tais lágrimas. Lágrimas, ainda que dignificadas. Humildes e altivas, lágrimas. Um mundo alvinegro, o meu mundo alvinegro sendo coroado.
Ao término de tal espetáculo, fui-me realizar a tarefa dominical ainda pendente. Correr por aí; queimar calorias indevidamente adquiridas no dia anterior, cumprir outra rotineira semana de exercícios - não concretizar o mínimo de pensamentos possível. Enquanto corria, na beira de uma estrada iluminada apenas por faróis automotivos, aos poucos conseguia retornar-me ao estado normal de existência. A imensa felicidade instantânea se dissipara - junto a ela, igualmente as decepções que carrego comigo. Em seguida, a minha tão esperada leveza de ser. Minha perna nem doía mais! E as lágrimas, ah, estas se resguardaram para futuros ensejos - dos quais não espero tamanha expansividade como a de hoje. E hoje, senhores, hoje eu não preciso mais tanto assim do amanhã... Bastou-me a plenitude da vitória. Nada mais importa - ah, como explicar-me esse amor alvinegro! - nesse dia de domingo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Dois Contos (dois)

Desde o princípio, sem sequer tê-lo visto ao menos uma vez, já soubera de quem se tratava - o amigo. De longe, ausente de conhecimento prévio, tão somente ostentando sentidos e previsões, esperava-o. Como se a vida ainda não houvesse iniciado de fato - faltava-me o amigo. Sim, aquele indivíduo que se despojasse completamente de condições e interesses perante nossa presença; na verdade tais se igualariam por natureza, ainda que os traços, sonhos e comportamentos fossem distintos e estranhos uns aos outros. Não importa, pois, semelhantes são os amigos - cúmplices de toda e qualquer estranheza... Ele existe, e eu sou capaz de perceber tamanha existência aonde quer que esteja - o meu amigo.
E unicamente através dessa percepção inefável é que a minha solidão desertara de sua militância. Eu poderia esperar por mais dez anos - ou dez dias!... - por ele, que simplesmente a diferença consistiria na espessura da lista de assuntos e pendências a ser lidadas, de lá até então. Ainda que falasse outra língua, que acreditasse em deuses, que odiasse o futebol e que não sofresse com horripilantes restrições calóricas... O meu amigo far-se-ia de razão e alento para todos os conflitos - afinal, disto se trata uma amizade. E entender-nos-íamos. Riríamos e choraríamos - e viveríamos. Absolutamente livres da dependência dos sentimentos. Sim, pois, o cativo reside na posse e no desejo - e eu e meu amigo brigaríamos por nossas desenvoltura e liberdade até o fim!
E nasceriam os nossos filhos - ainda que concebidos por imaginárias esposas - e trocaríamo-nos os nomes entre os próprios. E poderíamos estabelecer morada sobre um mundo de distância; nada iria perder-se, tampouco queixa alguma seria criada - os amigos não se abalam e não se trocam sob estados e obstáculos inesperados, estes não são voláteis como os amores e as paixões. E velhos ficaríamos, imunes ao esquecimento e às dores da vulgaridade. E tudo isto, tudo isto, senhores!, sem a necessidade de contato ou olhares - sabeis por quê? Ora, as mentes são incapazes de prover pensamentos singulares: os meus lamentos, as minhas angústias, os anelos e toda a sofreguidão que carrego jamais serão únicos e extintos - levo comigo uma legião estrangeira que vive e teme a morte e o anonimato assim como eu! E mesmo sem conhecê-los, senhores, mesmo sem conhecê-los, faço-me por ciente de suas essências. É assim, e tão somente assim, que conquisto e compreendo a eternidade; a minha continuidade na linha do tempo dar-se-á naqueles futuros tristes, ansiosos e furiosos seres que amarão, sob a condição de exaurirem a própria vida, senhores!, sem fins e exigências, e que exibirão a altivez inclusive no furo dos seus calçados, e que escreverão até sangrar-lhes os dedos sobre a complexidade da alma assim como essa ao mesmo tempo vil e bela, a curiosa humanidade. Pois eles existirão, eles existirão, senhores! E fá-los-ei todos amigos. Eu, que vós escutai bem, recluso neste subterrâneo confinamento, ébrio da própria miséria, serei lembrado e agraciado a todo momento que qualquer um desses meus amigos verta um sorriso ou uma lágrima - sejam tais de protesto ou ironia!...
Bem, agora já é hora do jantar, e os gols da rodada estão sendo exibidos na TV... Ao diabo, ao diabo com essa maldita dieta, eh eh eh!

domingo, 25 de abril de 2010

Dois Contos (um)

Sinto-me cansado. Das desculpas e dos motivos que insisto em produzir para ludibriar-me os fracassos. Cansado de ostentar altruísmo e positividades. Exausto estou dessa crônica condição de levantar, perder, dormir. As luzes lá fora tão somente refletem a minha falta de ventura - encontro-me mesmo fatigado de tudo. E isso não se trata de algum protesto, tampouco resignação; aqui não há nada mais além de desistência. O meu abatimento requer o direito de me tornar vil. Afinal, quem se importa?... Onde está o mundo todo agora?
As contas acumuladas em cima da mesa, a geladeira vazia, o cachorro definhando... - a vida girando os seus piões. Os dias vêm, as noites vão; o sono já não é mais reconfortante. Aquele vazamento no banheiro e na cozinha - eu já recebera notificação por escrito sobre tal. Mas que diabos!, se nem minha essência mal se contém em ínfimos punhados, por qual razão preocupar-me com a maldita água? “Água é vida”, malquista danação!... A casa, a casa já não é mais a mesma. Mas, não obstante, a solidão permanece idêntica a de outrora, antigas condições que se afirmam em ciclos e repetições - estas agarram minhas entranhas, temendo a morte mais do que eu mesmo. Um carro percorre a rua silenciosa, ouço risos de mulher.
Madrugada afora, sem sono nem ânimo para dormir - porque até para dormir e sonhar é preciso certa vontade... -, contando mais uma vez minutos e horas em um relógio digital, verificando o que eu não tenho de importante para fazer no dia seguinte, e o pior, lutando com todas as parcas forças que ainda possuo contra o próprio passado - inutilmente, o que torna meu estado ainda mais lamentável -, minha mente remete a lembranças. Lembranças e saudades. Em seguida, decepções - e lamentos e arrependimentos. Ah!, como um sentimento conduzido e expressado de forma equivocada revela tão somente a depreciação... Valores, personalidades, atitudes, tudo por água abaixo. E tudo, tudo por causa de um passo em falso - uma maldição. De fato, é bem verdade, não se pode errar jamais... Jamais.
O som ligado se torna a única amostra de atividade em toda a casa - havia sequer luzes acesas. Um R&B no estéreo, uma performance tão bem executada - e por alguém mais novo que eu... Um canto triste e altivo, feito minha própria miséria. Angústia. Um ano, dois. O envelhecimento. Minha vida?, uma página em branco - a ausência completa de registros. Um conto sem graça, isto é o que tenho, digo eu! Coisas que poderiam ser, fatos que deveriam acontecer, nada mais... Por que eu não posso simplesmente figurar entre os especiais, por quê? Ah!, quisera eu ser ao menos louco feito meu amigo D. Quixote - mas nem a loucura, nem a loucura permanecera ao meu lado...
Jazido no chão da sala, já em silêncio pleno - foi quando dera por mim, eu não sabia mais da realidade em minha volta -, entregue ao torpor da falta de vigília; vi-a mais uma vez. O rosto diabolicamente estreito, feito rara porcelana. Um sorriso austero, longos e lisos cabelos; olhos, que por si só já denunciavam o extraordinário, e olhares penetrantes - e cativantes, cativantes e hipnóticos. Uma figura capaz de justificar uma epopéia ou uma viagem ao tempo; apta a exaurir toda a minha alma. Na verdade, a causa final de minha desgraçada sorte.
Iria dizer algumas palavras, mas minha voz não estava mais sob meu controle - ela porém sabia ler minha mente. E não havia um quê de interesses de sua parte. Tão somente apatia e frieza. Aquela moça de traços e passos inefáveis ia e vinha em meus infames e insignificantes limites - e não deixava transparecer nada, nada! Sempre fora assim. Não houve mesmo sequer palavra. E aqueles minutos sofríveis - e ainda assim desejáveis, ah!, tão desejáveis... - chegavam ao fim. Ela começara a se esfacelar, como num sonho já desperto, uma noite com os seus momentos contados - mas se tratava justamente apenas disso, um sonho, não? Ou estaria enganado novamente... Súbito, num átimo quase que imperceptível, em meio à névoa que rondava suas formosas linhas, únicas e imunes ao esquecimento, assim, de relance, eu percebi. Algo. Vira e acordara. Não, não podia ser tão somente um sonho... Ali havia alguma certeza, alguma concretidão - um mirante, um lume a seguir. Ainda que isso se tornasse uma dúvida, um eterno indagar, tão somente uma falha em minha descrição, um motivo fora o que eu vira. Uma razão, uma brecha, uma saída e um caminho. Antes de seu completo desvanecimento, um gesto negativo com a cabeça. E aquele olhar tão sublime se desfazendo sob um novo rastro de mágoa - uma mágoa que me escapava do conhecimento até então.
O relógio despertador clamava por sua existência - ao diabo, ao diabo tal pertencia, ninguém mais senão o diabo! Para o meu azar, o dia far-se-ia costumeiro: trabalho, trabalho e trabalho...
“Afinal, senhora distante de minha vulgar e ignomínica rotina, seria rancor ou indiferença o que habita suas infelizes lembranças de mim e de meus infortúnios?”

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Grande Irmão (ironia ou verdade profunda?)

Ao longo dessa e da passada semana certo vazio preencheu o cotidiano da maioria dos brasileiros - ao menos daqueles que convivo frequentemente - e parte dos nossos diálogos diários. Nada importante, crucial. Mas, não obstante, o trivial igualmente possui o seu valor. Afinal, o que seríamos se tão somente existissem seriedades em nossas particularidades? Está incluído no processo de evolução o ato de brincar - acho que ouvi tal afirmativa em alguma remota aula perdida de meu passado acadêmico, eh eh eh! Pois bem, a hora é essa. Discursarei sobre futilidades, afinal!... E atire a primeira pedra quem nunca o fez - no caso aqui que será discursado, que desliguem a TV! O assunto, óbvio: o programa mais comentado do primeiro trimestre do ano. Dessa vez de forma avassaladora, jamais presenciada por minha pessoa. Eu cá sou macaco velho, acompanho-o desde a primeira edição. No início, unicamente aqueles despojados de cultas aparências assumiam tal interesse; mas nesse ano, promotores, médicos, gente simples - assim como as complexas! -, gente “da grana”, as ditas inocentes etc., e também aquelas pessoas racionais e masculinas demais para se interessar pelo comportamento humano... Enfim, todos ao meu redor se aproximavam para comentar sobre tal assunto; talvez apenas por cordialidade, quiçá para não se sentirem excluídas, vai saber!... E o assunto, senhores, desde janeiro - na verdade, para mim desde há muito tempo! -, o único, o polêmico, o turbulento, o curiosíssimo jogo da vida real. Sim, sim, Big Brother Brasil também é cultura, quá-quá-quá!
Pois bem, em qualquer disputa, independentemente de motivo ou razão, o primeiro prêmio é sempre o primeiro prêmio - e assim não seria diferente em nosso aclamado reality show; chamo-o de nosso por dirigir estas palavras a todos os que participaram de alguma de suas interatividades durante esses setenta e oito dias. Portanto, sem demagogias, BBB não se trata de causas nobres - as personagens são criadas com o intuito de se destacarem umas mais que as outras. E estendo tal afirmativa igualmente para toda e qualquer simples inscrição realizada, incluindo-me também nesse pacote, ou quiçá, intenção de participação. Afinal de contas, estamos lidando com fatores que se contradiriam eternamente, caso isso fosse diferente. Quando o assunto é tal programa, tal jogo, a sua essência não é outra senão comportamento humano - e ao citar comportamento humano, o indivíduo e o egocentrismo são a sua comissão de frente. Por fim, cada ser nele inserido - e aí há algo de obrigatório, condicional, requisito básico para ser credenciado a tal embate -, como de praxe, ostentará orgulhos, vaidades, altivez e uma vontade inefável de conquista, reconhecimento. Ora, como encontrar irmandade e devoção nisso tudo? Só existe um primeiro prêmio! Aí está a maior incoerência que já detectei ao longo dessas dez edições, senhores. E isto, isto continuará existindo por mais vinte, eh eh eh! E por quê? Simples, o ser humano, ordinário ou não, quer acreditar em bondades - no virtuosismo coletivo. E dessa forma, os discursos sobre amizade, altruísmo e os bons costumes perdurarão por não sei quanto mais tempo - mas não se iludam; o intuito, ainda que dissimulado, sempre será o de se sagrar vencedor.
(E de fato, não é bem isso o que vemos todos os anos, correto? Enfim, continuemos, continuemos!)
Não obstante, certos fenômenos que ocorrem em tal âmbito televisivo beiram a sinceridade. Atos bravos de companheirismo, tendências de positivas ações grupais, reciprocidade, entrega mútua etc. E tudo isso devido a um singularíssimo paradoxo: somos egoístas, porém não sabemos viver na solidão. E isto, senhores, isto é comportamento humano - pressionado, testado, tentado, afinal! Enfim, mais cuidado é o que aconselho, quando no exercício de julgar atitudes dentro do referido reality show; como já afirmei em escritas anteriores - e com rara felicidade de minha parte -, "somos todos vis, somos todos belos, lascivos, castos; afinal, palavra, não há estranheza em nenhum ato humano".
Por fim, a única diferença, de acordo com o meu humilde, ainda que sagaz, ponto de vista, entre BBB e vida real é que nesta optamos entre nos exibir ou refugiar-nos - os gostos, as vontades e as necessidades são de cada um; elas existem ou não. Já em nosso querido programa de TV, tal condição é uma obrigatoriedade! Sim, todos ali querem, precisam, anseiam por espaço e atenção - ser o diferencial, trata-se disso e nada mais. E às vezes agindo com fraternidade - pois esta se caracteriza pelo respeito pleno; a entrega é mesmo facultativa -, e por tantas outras desempenhando unicamente os próprios interesses, criam-se poucos campeões e vários figurantes. E aí, senhores, aí há algo de vida, um quê da nossa história, vista, lida e contada ao longo de incontáveis acontecimentos... E por isso, toda essa complexidade presente em semelhante programa tão torpe - em todos os sentidos possíveis, eh eh eh!
Aí está o verdadeiro interesse, senhores: mesmo aqueles que não se mostram gostam também de observar - ou espiar, como se costuma dizer. Já o veredito sobre as falácias de nossos grandes irmãos, deixo-o para a opinião de cada e tão somente um de vocês!...
No mais, nunca se esqueçam da prima finalidade de um BBB: o entretenimento. Afora tal, tudo não passa de suposições, teimas e teorias da conspiração. E que venha logo a próxima edição - e que eu ou um de vocês esteja lá dessa vez... Ora, afinal o importante mesmo é fazer história, quá-quá-quá!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mais Do Mesmo (um conto do capeta!)

Numa palavra, em meio a tanta anormalidade uma ou outra aberração extra tão somente é bobagem! E assim começa - e termina, ora pois! - este episódio em minha desventurada existência; fato corriqueiro, chavão de inúmeros que, assim como eu, vivem frustrados com a regularidade da vida ordinária. Hoje travei conhecimento com o grande ídolo. Impossibilitado estou de o nomear “pemba”, “anhangá”, “cabrunco”, “canheta”, “cão”, “cujo”, “dianho”, “malino”, “romãozinho”, “pé-de-cabra”, “tinhoso” etc. e o diabo a quatro!, já que sempre ouço os termos prolixo, faltas de tom e eloqüência dirigidos à minha pessoa quando lanço mão de certas particularidades. Portanto, hei de ser simples - malditos, todos vocês, eh eh eh!
O diabo em pessoa veio visitar-me...
“Oh, mas que novidade!”
Sim, senhores, é bem verdade, isto para a maioria aqui não é sinônimo algum de ação, dinamismo ou o quê - unicamente o trivial, quiçá o obrigatório! Vá lá, vá lá, permitam-me, no alto de minha insignificância, discorrer em palavras a minha experiência... E com brevidade, eu lhes prometo!
Pois bem, sem maiores introduções, a peleja se iniciou assim: cá estava eu a lamentar dilemas, anelos, estreitezas, desencontros, limitações, isolamentos - e a falta de dinheiro, fama e reconhecimento, outra obviedade! -, e então, num átimo imperceptível, surge-me tal bizarro indivíduo, ainda que suntuosamente bem vestido. A perna de cavalo, os chifres, a pele vermelha, o olor sulfúrico etc., e tudo o mais que todos vocês, ilustríssimos senhores, já perderam os cabelos de saber - mas nunca o interesse, quá-quá-quá! Sem nenhuma cortesia, arrancando-me a porta de entrada, veio e sem mais nem mais, perguntou-me:
- Ora, seu infeliz, lume do fracasso humano! Que diabos você tem contra meu respeito? O que diabos eu lhe fiz para tanta desaprovação? Vá, pois, que eu não tenho o dever de agraciar a todos com minha presença e ideais, mas você, você!... Aos diabos, você e sua inútil opinião! Passar bem!
E tal qual adentrara em meus parcos domínios, esse riquíssimo fidalgo, altivo, elegante, deixou-me sem direito sequer de réplica. Quanta arrogância, quanta falta de originalidade!... Sinceramente e francamente, eu esperava muito mais desse serzinho que lidera e inspira não menos que uma caterva ávida por sobrenaturalidades! Qual é? Não passa de mais um a reclamar da vida alheia, eh eh eh!
Mas é sempre assim: a expectativa, boa ou ruim, exacerba por demais a realidade. E mais uma noite comum me tomou de assalto - nem o diabo, nem o diabo fora capaz de enaltecer a minha essência! A total ausência de ação em meus atos, dizeres e pensares, tudo permanecera no mesmo lugar...
E a mim restar-me-ia tão somente a insônia costumeira, a intrínseca vontade de me explicar, explicar-me até me exaurir as energias. Mas não aqui, não para esses ouvidos e olhares; pois aqui, meu único direito é a laconicidade.
Mas, não obstante, amanhã, amanhã tudo haverá de ser resolvido; vocês, o diabo, a falta de tom - e os meus contos inacabáveis!...

P.S. Texto originalmente postado na comunidade (orkut) Novos Escritores do Brasil. O tópico do texto, assim como todo o enredo prévio da criação do próprio, ainda se encontra em tal comunidade - é pelo menos o que imagino, eh eh eh!