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terça-feira, 29 de junho de 2010

Apenas Uma Noite

Já anoitecera. O clima era seco; não obstante, caso indícios sensoriais, percepções emotivas, tragédias sentimentais, pesares, estreitezas e lamentações pudessem ser exteriorizadas, concretizadas, tal ato anunciaria um dilúvio sob pluviosidade naquela hora. Estaríamos, por dizer, mais bem acomodados e situados em semelhante ambiente - quem permaneceria na casa? Ódio, mágoa ou indiferença? E o dia seguinte?...
Ela amontoava parte das roupas em um lençol; tecia uma grande trouxa que abrangia tudo aquilo que conseguira recolher. A maior delas. Olhava para os porta-retratos espalhados por cômodas e estantes enquanto decidia o próximo passo - quebrá-los, rasgá-los, guardá-los, chorá-los. Há uma hora estava com fome. Agora sentia náuseas e enjôos. A vista se turvava. Os dentes, cerrados. Tremia. Atemorizara-se. Mas a postura era a de um Napoleão. Ajeitava-lhe os cabelos, mirava-se no espelho. Não abria mão da altivez. “Ótimo. Não me fiz em prantos. Estou bem.” Porém sabia que não suportaria mais do que um ou cinco minutos.
No quintal, o silêncio que prevê o fim. Sequer o vento ou as sombras ousavam sussurrar atenções. Não passavam das 20 horas.
Ele acende o seu terceiro cigarro; espera do lado de fora. Apesar da camiseta, fazia frio. Não havia estrelas no céu, não havia cachorros na rua. Ali, encostado no portão eletrônico, incapaz de produzir palavra, tão somente aguardava. O tempo paralisara - meses, anos, histórias, planos. Olha para a esquina vazia. Pensa em cortar o cabelo. Repara em quanto mato surgira no lote ao lado. Decide parar de beber. Ouve a voz com a qual sonhara tantas e tantas vezes - e por tantas outras acordara ao longo de manhãs e madrugadas - sentenciar um canto triste: “Só falta o meu casaco... Estou pronta.” Tratava-se mesmo do fim.
Engraçado como tememos a morte; sabemos de sua certeza, de sua obrigatoriedade; para tudo se reserva um desfecho - ainda assim, tememo-lo. Curioso como certos desejos causam arrependimento quando de fato estes se mostram por realizados. Talvez seja apenas angústia, ansiedade. Quiçá, a valorização irracional do distante, do intangível, do amanhã; a idealização, sonhos, quimeras, nada mais. O que acontece é que vagamos do passado ao futuro, confiando-lhes a única felicidade. E o presente se revela tortuoso, incompleto. A verdade é que ele não dormiria aquela noite. Ela estava pronta. Para sempre.
Um carro havia se aproximado - era o táxi. Feito hábito, ela só conseguia carregar a pequena valise contendo seus perfumes, cremes etc. Os demais pertences, todos eles, estavam no chão da sala. Ela não sabia como chamá-lo - as malas!, as malas! “Isso precisa acontecer?...” Ele fora buscar tais pertences. Caminhava vagarosamente, evitava respirações - jogara o cigarro fora. Cada passo, cada olhar, os pensamentos reflexos; obstáculos indesejáveis. Ela estava bonita. Grave, rígida. Austera, soberba. Ele se sentia menor; a casa seguiria sob seu domínio - não obstante, menor. Em pedaços. Acende outro cigarro.
Não houve palavra, tão somente pesares. Tudo estava ali, exposto a céu aberto. Outrora, infinito; agora, dois zeros. Explicações, motivos, desculpas, perdões - para quê? Havia chegado o fim. Não se falavam, evitavam rebaixar-se; gritos, humilhações. Amavam-se. Conquanto não soubessem do que se tratasse, amavam-se. Engolidos pela indefinição, fantasias, expectativas, frustrações - amar-se-iam ao longo de suas infelizes existências. Arrepender-se-iam, trocariam injúrias no silêncio; ainda assim, amar-se-iam. Na distância, na solidão, no fracasso... Amar-se-iam e nada mais.
O curioso e o improvável iam e vinham em suas impensadas decisões. Atos desprovidos de sentidos, vontades. Já era tarde afinal. Ela queria sair logo dali - derrubar-se em lágrimas obscuras. Sob a penumbra do orgulho e da dignidade escondia seus sentimentos. Sem espaço para admissões, redenções. Íntegra, gélida. Via-o com a cabeça baixa, olhar ao chão. Reverência, temor - era tudo o que ela esperava daquele momento. A separação. No fundo ela sabia; duas metades de um universo inconveniente. Sem tempo para recomeços. Decidira, por fim, queimar todas as fotos.
O que ela não previa era a própria dependência. Ele já havia virado as costas, o portão finalmente se fechara. O táxi sequer havia desligado o motor - um pequeno pranto sufocado pela soberba. Mas, não obstante, as memórias dilacerariam suas pretensões. Encontrar-se-ia perdida daqui a segundos. No entanto, uma escolha, uma decisão; um caminho ausente de retornos. Indiferença era o que desejava naquela hora - indiferença era o que mais lhe faltava dentro daquele táxi.
Ele havia consumido seu último cigarro. Procurava algo sem saber, ligava a TV, olhava-se no espelho. Um rosto - desconhecia-se. Resolvera sair... Faltava decidir para onde. Para quê? Por quê? Escapava-lhe as forças, a razão. Eram 20 horas e 2 minutos. Passaria a noite inteira naquela casa, diante do espelho, no sofá ou no chão - não iria a lugar nenhum. Disso ele sabia. Sem promessas, sonhos e impressões. No mais, incertezas. Nascia uma revolta tardia. O amor e a paixão têm dessas. Sentia frio. Desistira da dignidade.
“Um cigarro, minha vida por um cigarro... Senhora, onde está que não consegue ouvir minha dor? Ao diabo, então, ao diabo com toda a sua razão!... Saia para sempre de meu subsolo!” - no fundo, admitia; aquilo não se transformaria em verdade. Ele só queria saber o porquê...
Já ela, ela dormira na casa de sua mãe. Um silêncio, uma vergonha. 28 anos. Sentia-se velha, torpe. Desesperara-se pela ausência das lágrimas. Havia medo em sua alma. Tratava-se do amor que ela jamais soubera decifrar em si mesma. “Apenas uma noite.” - dizia em seus pensares. “Uma noite tão somente; tanto tempo perdido.” Tantos equívocos, essa sim, era a sua maior verdade.
Apenas uma noite. Fria, insólita, vil, insone - apenas uma noite. Naquela noite, uma descoberta; a eternidade representada em atos. A incerteza do tempo. Um conto inacabado.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Flores Amarelas

Desconheço a existência de deus, do infinito. Foi-me tolhida, há tempos, a última esperança. Sonhos? Estes, sob minha própria força e vontade, vorazmente banidos. Futuro? Irrelevante, desconsiderável. Tempos passados, tenho-os como um guia de aprendizado; um dicionário, uma gramática, um livro de regras e nada mais. Sou este momento, meus princípios estão aqui. Estas palavras, a leve brisa sobre os cabelos, o muro de concreto, um número à minha frente - cento e sessenta. Uma vela, um cemitério. Pai e irmão jazidos no mesmo solo.
Não creio na eternidade, na continuidade da alma. Nossa única e definitiva posse - o corpo. A grande e fascinante dádiva: o tempo. E os feitos, as ações, ah!, tais cabem tão somente a nós e mais ninguém. Eu sou os meus atos, pensamentos e percepções. Ostento a estreiteza quase ímpia da permanente recusa de me curvar os joelhos perante toda e qualquer condição. Julgo sentidos e consciência como a minha bandeira, minha nação. Troco a minha vida por meus dizeres, certezas, minha essência. E assim, afirmo que, numa palavra, não mais preciso de céus e terras prometidas. Os meus dias são limitados; não há problema algum em tal verdade. Meus medos, derrotados, ainda que intrínsecos, reais. E a humanidade - a esta dedico o meu mais sincero amor.
Mas, não obstante, hoje resolvi brincar de construir monólogos intangíveis. Meu pai, que reside há cerca de três anos nesse número, o cento e sessenta, há de fazer as vezes do fantasioso nesta hora. Restos orgânicos, consumidos, misturados à terra, é o que encontro sob meus pés. Sequer uma lápide, sequer uma lápide há aqui! - apenas esse número. E mirando tal cenário, tal afirmação, compreendo, admito e lamento o peso da realidade da vida ordinária. Trata-se, de fato, de algo frio por demais, desalentador - um quê de frustrações e inquietudes -, uma força inefavelmente superior a toda nossa capacidade de lutar. E aí nasce um grande temor - a revolta. A angústia, a atribulação, fracassos, restrições, iniquidades, prantos; tudo vertendo-se em rebeldia e protesto. O mau agouro do caos e do desespero; o autoconsumo. A ausência de luz. A perdição. Faz-se necessário um caminho; é aí que se justifica o sentimento religioso. E por isso, unicamente por semelhante motivo, é que concedo as minhas gratidões a este senhor de iludir, o criador da fé - ainda que tal, para mim, esfacelara-se por completo.
Portanto, aqui, sentado sob pedras, já de costas àquele número, volto aos meus sonhos de infante. “Pai, sua luta continua em mim; talvez perante maiores estranhezas, quiçá sob diferentes complexidades, ambientes. Seus passos não foram esquecidos. Suas palavras, meticulosamente reproduzidas, divulgadas - não por mim; o meu orgulho me impede de fazer algo que não seja nomeado de próprio, único. As lembranças, ainda que permanecidas tão somente num âmbito familiar, perduram. E os atos e as reflexões, estas lhe concedem o título de eterno - a verdadeira, a concreta longevidade. E os deuses e os anjos, que seguem sem sequer saber de nós, não são mais necessários. Por quê? Pelo seu exemplo, pela sua história; pelo meu presente, pelo tempo que ainda me resta - e por nossa arte de amar.”
Se eu conseguisse mesmo brincar de sonhar, de voar e conversar com o improvável, dir-lhe-ia, numa palavra, ainda que tardia e por vezes repleta de negligência: - Obrigado. Trata-se disso; a força que me criara, a inexplicabilidade de minha existência, o sentido e o propósito, o princípio se faz naquilo que você foi. E o fim?... O fim, eu haverei de criá-lo. Simples, pleno, possível.
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Momento ínfimo e fugaz de devaneios de minha parte. Eu cá já me dou de encontro à porta de saída. Eu, homem, egoísta, saturado em vaidades, vivendo unicamente concretidões. Mas, não obstante, uma verdade inesperada: naquela terra revestida de ossos e carnes, assim, sem mais nem mais, nascem pequenas flores amarelas, despojadas de planejamentos e previsibilidades - a cor da sabedoria, a cor favorita...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Olhos Soturnos

Carros na rua. Frio. Noite afora.
Casais sorrateiramente espalhados pelos cantos.
O fim de uma jornada de trabalho. Quarenta e oito horas sem ocupações - sem igualmente o quê fazer...
Café. Computador. Chá. Televisão. Livros.
Um inefável sentimento de incapacidade.
A casa vazia - alguns latidos ao redor da suposta vizinhança. Outros carros em movimento.
Música para assassinar o silêncio.
A morte dos sonhos - a desilusão da esperança. Risos sem ensejos; talvez a desgraça, o infortúnio, quiçá as ausências por tanto tempo presenciadas. Um protesto. Uma revolta. Demônios internos.
Estagnação. Inércia. Desejos intangíveis, vontades irreparáveis. A evasão do tempo. Rugas, calos, cabelos grisalhos; outra morte - a da juventude.
Horas, minutos - ponteiros e números digitais. Suores, impulsos incontidos. A lascívia.
O autoconsumo. A humilhação. O fracasso. A resignação.
Um semi-amanhecer.
Insônia...

domingo, 23 de maio de 2010

Tarde De Sábado

Ele não era atraente afinal, porém despertava a curiosidade. Seus olhos um tanto quanto irônicos - e ao mesmo tempo perspicazes - indicavam indagações que remetiam ao desconhecimento e a unicidade. No fundo ele cultivava certa melancolia, apesar dos sorrisos constantes e das sonoras gargalhadas. Tal tristeza era percebida apenas em suas palavras escritas e lamentadas; uma lágrima de palhaço escorria em seu interior. Seus ângulos retos denotavam tão somente disciplina e dedicação: exercícios, dieta; uma rotina que não o orientava a mais nenhum lugar senão o autocontrole. Ele não fazia cálculos ou planos, tampouco possuía a pretensão de viver décadas ou semanas; decerto que a necessidade de um insólito guia para refrear toda a inefável insanidade presente em seus sonhos era exaurida através de pesos, velocidade e calorias racionadas. Mas ele não era belo - e dizia a si mesmo não se importar com tal infortúnio.
O que o tornava alguém digno de um conto, senhores? Eu lhes respondo: a altivez, orgulho e opinião próprios, e o completo despojo das comparações. Ele tecia pensamentos, discursos e anedotas que o faziam ostentar a raridade, ainda que por vezes tais ultrapassassem os limites da compreensão alheia. Insuportava mesmices, mas, não obstante, aceitava-as. Sabia de seu lugar junto à solitária multidão de ilustres anônimos, apesar da falta de tom. Não usava sapatos, não vestia calças, ignorava formalidades. E amava a humanidade - mais do que amor, havia aí um interesse intrínseco que o movia em busca de sentido, de complexas explicações para o mais simplório dos atos desse assaz intrigante chamado comportamento. Entendia-a pelas metades, no entanto parcas eram as suas decepções. Era capaz de encontrar motivos para os feitos mais cruéis... “Somos todos egocêntricos, repletos de frustrações, eternamente responsáveis por compreender e aceitar o egoísmo de todos ao redor - sem exceção!”. Com estas palavras ele se apresentara a ela naquela tarde. Não havia a visto anteriormente uma única vez, sequer um “oi” ou algo semelhante - e aí, justamente aí, residia toda a curiosidade que ele conseguia provocar.
Ela parecia uma daquelas bonecas recém-lançadas no mercado de brinquedos, a fim de ser consumidas avidamente por crianças que já sabem há um tempo do poder e do vislumbre do luxo - a beleza, principalmente, e o luxo. Havia até a possibilidade remota de que ela não piscasse, respirasse, sentisse fome ou sede - e outras dessas coisas comuns a tudo de que se trata por humano. Uma estátua sobre um pedestal; não de mármore, mas de cera. Ao primeiro olhar, deixava-se claro a sua prima condição de melhores tratos - uma ode à beleza, e todos os cuidados possíveis e inimagináveis que tal requer para si. Luzes, futilidades, adjetivos, era tão somente disso o que ela precisava. Um verdadeiro amor - e todos os seus naturais sacrifícios?... Ah, isso era tão pouco frente aos seus desejos! Ela não nascera para se trancafiar em um único coração, senhores.
Tudo levava a crer que aquela seria apenas mais uma tarde de sábado em um shopping center para ela - não que desejasse mais do que isso em tal momento. No entanto, a surpresa que o mais fagueiro dos instrumentos de deus, o acaso, reservava-lhe jamais visitara os seus anseios até então. Afinal o que mais ela queria encontrar ali? Havia as lojas, as compras, os flertes e os risos. E ela era tão somente sorrisos... Uma autenticidade inocente estampada naqueles cantos de lábios suaves que eram capazes de perverter a maior das indiferenças. Uma criança, uma Alice, uma princesa em seu pequeno castelo saturado de súditos e pretendentes. Tratava-se de egoísmo, sim, porém uma reação natural de alguém que possuía em tamanha abundância a maior e mais cobiçada das virtudes - a formosura. Ela era o coquetismo em linhas delicadas, cores, olores e tênues gestos. Uma doçura, senhores!... O mais sublime dos manjares que os olhares possam absorver - isto, e tão somente isto, era o que ela era.
Uma tarde inteira se passara - rostos, imagens, sacolas, inúmeras delas..., paladares. Uma leveza sem aparentes motivos, a condição primordial de se usufruir trivialidades. Uma vida de plástico, maquiagens e ar refrigerado. Assim se faziam as tardes de sábado de Joana, a menina-boneca. Galharda, garrida, havias as delgadas linhas curvilíneas e havia os seus olhos hipnóticos. A inefável e inebriante sensualidade - a beleza que torturava e cegava. E sempre, sempre exibindo um sorriso e uma indagação; uma intriga, uma vontade irrequieta de encontrar algo que jamais conseguira concretizar em pensamentos, um quê de muito próximo do fantasioso...
Ela acabara de sair de tal shopping center. Despedira-se de algumas companhias, dirigira-se à fila de táxis estacionados. Era unicamente embrulhos - mal via os próprios passos! E de súbito, algo vencera a inércia de sua rotina, como o apito inicial de uma partida - num porvir, sem mais nem mais, tudo começa e nada remanescente de passados recentes se ramifica na memória. Um cronômetro posto a trabalhar, o disparo de um revólver, o nascimento de uma concepção - a paixão, senhores, a paixão!
Nos segundos imediatos após o choque, ela jurava ter se colidido com um muro ou um poste - algo fixo e rigoroso demais para ser transposto. Era Paulo; caminhava os seus passos distintos em seus trajes completamente soltos de tendências sociais e culturais. As compras, os presentes se espalharam pela calçada. E o contraste de imediato entre ambos, que dispensava apresentações e explicações - dois mundos, duas filosofias, duas realidades enfim -, paralisou-lhe os reflexos: Joana se transformara; dera-se conta de seus excessos, suas imperfeições. Logo em seguida, corara-se. E as palavras de Paulo, enfim, foram ditas.
- Não se preocupe, bonita! Eu também possuo, apesar de que as aparências teimam em contradizer tal verdade, igualmente carrego comigo uma infinidade de atos e hábitos individualistas o suficiente para receberem a alcunha de descartáveis. E é por isso que somos humanos, e que vivemos... E saiba também que amar-lhe-ei ao longo de todo o tempo que gastarei empilhando tamanhos e curiosos pertences!...
Tratava-se da peculiaridade de Paulo, comovente, intrigante; não haveria necessidades maiores que semelhantes palavras, tal figura, tal ensejo para que Joana lhe dedicasse uma eternidade de suposições - um torpor que queimava e cativava os seus sentidos. Um dia, uma tarde tão somente; um segundo, um olhar, dizeres e diversidades - pronto!, suas indagações e sorrisos já se nutriam daquela inesperada presença. Não desejava mais ir embora, suas sensações finalmente se vertiam em uma única direção. Um toque, um toque apenas e nada mais, e aquela flor nomeada ardência desabrochar-se-ia.
Não houve mais palavra. Talvez um “até mais”, quiçá um “fica bem!”; não importa. Paulo ia e vinha, essa era a sua essência - um passado, rugas e mágoas infindas o lapidaram dessa forma. Contos de antanho, desinteressantes... Na verdade, houve sim um diálogo entre os dois; não obstante o destino já agira por si - como onda do mar que não se impede, feito o tempo que não para. Usual, indesejável por vezes, esse portentoso galhofeiro já havia decidido por aquelas duas vidas. E a estreiteza, e a ansiedade, as noites incompletas e as horas incessantes, e tudo aquilo que os amantes sentem pungindo-lhes a identidade, independente de objetos ou motivos, já lhe invadiam a alma - ela clamava por notórias recordações; ele desejava apenas entrar para a história.
O diálogo, senhores? Ah, este eu deixo para depois; amanhã talvez, um dia ou dois anos até. Mas, não obstante, creio que suas insinuações bastam para prever o que realmente houve naquele fim de tarde para nossas singulares criaturas, ambos à espera das surpresas reservadas pelo ocaso - triste ou não, uma questão de opinião. Não é bem verdade?

domingo, 2 de maio de 2010

Um Alvinegro Dia De Domingo

Ah, como começara lastimoso esse dia... O diabo, o diabo sabe de cor do que estou falando! E ao diabo com tudo isso - dietas, relações, dúvidas, solidões, improbabilidades, pobrezas, trivialidades. Uma maldita contusão na perna, fruto do futebol nosso de cada sábado, impossibilitava-me de realizar minha intensa corrida dominical; um treino leve pela tardinha era o máximo que conseguiria fazer. Não obstante, faltava-me o ânimo. As minhas normalidades e a contínua falta de soluções me sufocavam numa condição acima do habitual. Paciência!, pois o dia ainda se mostrava tão precoce em sua existência... Algo poderia acontecer - afinal de contas, essa é a idéia da esperança, senhores!
E esse algo poderia mesmo concretizar-se, e em forma de paixão clubística - por que não?! Outra vez - e tais vezes já se fazem por incontáveis, é bem verdade! - o futebol salvar-me-ia o domingo. Afinal o meu Galo! estava na final do campeonato - o que mais eu poderia desejar?... E na medida em que o tempo se esvaía, todas as minhas querelas também se desfaziam, tornando-se estas tão somente desnecessidades. Não faltava mais tanto tempo para o início do jogo, e nem eu estava mais com tanta fome assim , eh eh eh!
Uma trégua, uma trégua de toda a miséria - era tão somente isso de que eu precisava. Um pequeno risco para se lidar, ínfimo perante a vontade que persistia em mim; em mim e em outros inúmeros, conhecidos ou não, que compadecem de tal paixão - a única realmente imune a toda e qualquer manifestação de ciúmes e disputas. Neste singular caso, quanto mais efusivos amantes existirem, melhor!... Não somos rivais, não somos mesmo! Aqui há algo mais próximo de uma irmandade, creio eu. E, senhores, trata-se da mais pura concretidão esta minha seguinte afirmação: somos muitos, somos numerosos, somos igualmente incontáveis, constantes, fiéis e inexplicáveis! Controversos por vezes, impulsivos, furiosos, ofensivos. Somos sinistros!... Mas, não obstante, compreensivos perante os iguais. Somos uma nação; e no auge inimaginável do nosso patriotismo, exibimos tão somente uma identidade: o amor, a paixão, a idolatria e a insânia.
Quanto ao jogo, senhores, digo que, numa palavra, não houve jogo - mas um espetáculo, uma apoteose. E por mais que os milhares lá fisicamente presentes bradassem toda essa nossa identidade, algo inusitado de fato ocorrera. Os gritos se tratavam de unicamente reações impensadas, pois por dentro emudecíamos diante da grandiosidade da tal momento. Uma contemplação impossível de ser vertida em palavras - e isso eu sei, senhores, mesmo de longe, em minha casa, de uma distância concreta e considerável, que falo por mim e por toda esta minha nação. Fora inexplicável...
Lágrimas. Sim, lágrimas, senhores, tão somente lágrimas conseguiam expressar o inefável sentimento daquele momento. Um desporto, uma decisão, jogadores, funcionários e outras gentes de suposta maior importância - e torcedores e seguidores. Torcedores assim como eu. Torcedores que, sem qualquer razão plausível e justificável, simplesmente vivem as suas vidas junto a esse mineiro clube de alvinegras cores. E hoje, hoje, acompanhando tudo pela TV - porque nesses dias de agora eu cá não me encontro com tolerância o suficiente para suportar opiniões de menosprezo e subestimação de alguns, apesar das iguais condições uniformizadas -, eu pude pela primeira vez comprovar tamanha sincronia de satisfação, comovência e compromisso: todos, indiferente de propósitos, funções, razões sociais, absolutamente todos vibravam em uníssono. Senhores, eu pude mesmo ver, e afirmo tão cheio de mim mesmo - eu vi unicamente verdades e realizações dentro daquele estádio/ palco. Um ídolo, um craque, um comandante e milhares de não menos importantes outros indivíduos exibindo almas e corações em glória. E o porvir, a consagração!... Não, eu não possuía sequer outra ação para demonstrar tudo isso senão a de verter tais lágrimas. Lágrimas, ainda que dignificadas. Humildes e altivas, lágrimas. Um mundo alvinegro, o meu mundo alvinegro sendo coroado.
Ao término de tal espetáculo, fui-me realizar a tarefa dominical ainda pendente. Correr por aí; queimar calorias indevidamente adquiridas no dia anterior, cumprir outra rotineira semana de exercícios - não concretizar o mínimo de pensamentos possível. Enquanto corria, na beira de uma estrada iluminada apenas por faróis automotivos, aos poucos conseguia retornar-me ao estado normal de existência. A imensa felicidade instantânea se dissipara - junto a ela, igualmente as decepções que carrego comigo. Em seguida, a minha tão esperada leveza de ser. Minha perna nem doía mais! E as lágrimas, ah, estas se resguardaram para futuros ensejos - dos quais não espero tamanha expansividade como a de hoje. E hoje, senhores, hoje eu não preciso mais tanto assim do amanhã... Bastou-me a plenitude da vitória. Nada mais importa - ah, como explicar-me esse amor alvinegro! - nesse dia de domingo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Dois Contos (dois)

Desde o princípio, sem sequer tê-lo visto ao menos uma vez, já soubera de quem se tratava - o amigo. De longe, ausente de conhecimento prévio, tão somente ostentando sentidos e previsões, esperava-o. Como se a vida ainda não houvesse iniciado de fato - faltava-me o amigo. Sim, aquele indivíduo que se despojasse completamente de condições e interesses perante nossa presença; na verdade tais se igualariam por natureza, ainda que os traços, sonhos e comportamentos fossem distintos e estranhos uns aos outros. Não importa, pois, semelhantes são os amigos - cúmplices de toda e qualquer estranheza... Ele existe, e eu sou capaz de perceber tamanha existência aonde quer que esteja - o meu amigo.
E unicamente através dessa percepção inefável é que a minha solidão desertara de sua militância. Eu poderia esperar por mais dez anos - ou dez dias!... - por ele, que simplesmente a diferença consistiria na espessura da lista de assuntos e pendências a ser lidadas, de lá até então. Ainda que falasse outra língua, que acreditasse em deuses, que odiasse o futebol e que não sofresse com horripilantes restrições calóricas... O meu amigo far-se-ia de razão e alento para todos os conflitos - afinal, disto se trata uma amizade. E entender-nos-íamos. Riríamos e choraríamos - e viveríamos. Absolutamente livres da dependência dos sentimentos. Sim, pois, o cativo reside na posse e no desejo - e eu e meu amigo brigaríamos por nossas desenvoltura e liberdade até o fim!
E nasceriam os nossos filhos - ainda que concebidos por imaginárias esposas - e trocaríamo-nos os nomes entre os próprios. E poderíamos estabelecer morada sobre um mundo de distância; nada iria perder-se, tampouco queixa alguma seria criada - os amigos não se abalam e não se trocam sob estados e obstáculos inesperados, estes não são voláteis como os amores e as paixões. E velhos ficaríamos, imunes ao esquecimento e às dores da vulgaridade. E tudo isto, tudo isto, senhores!, sem a necessidade de contato ou olhares - sabeis por quê? Ora, as mentes são incapazes de prover pensamentos singulares: os meus lamentos, as minhas angústias, os anelos e toda a sofreguidão que carrego jamais serão únicos e extintos - levo comigo uma legião estrangeira que vive e teme a morte e o anonimato assim como eu! E mesmo sem conhecê-los, senhores, mesmo sem conhecê-los, faço-me por ciente de suas essências. É assim, e tão somente assim, que conquisto e compreendo a eternidade; a minha continuidade na linha do tempo dar-se-á naqueles futuros tristes, ansiosos e furiosos seres que amarão, sob a condição de exaurirem a própria vida, senhores!, sem fins e exigências, e que exibirão a altivez inclusive no furo dos seus calçados, e que escreverão até sangrar-lhes os dedos sobre a complexidade da alma assim como essa ao mesmo tempo vil e bela, a curiosa humanidade. Pois eles existirão, eles existirão, senhores! E fá-los-ei todos amigos. Eu, que vós escutai bem, recluso neste subterrâneo confinamento, ébrio da própria miséria, serei lembrado e agraciado a todo momento que qualquer um desses meus amigos verta um sorriso ou uma lágrima - sejam tais de protesto ou ironia!...
Bem, agora já é hora do jantar, e os gols da rodada estão sendo exibidos na TV... Ao diabo, ao diabo com essa maldita dieta, eh eh eh!

domingo, 25 de abril de 2010

Dois Contos (um)

Sinto-me cansado. Das desculpas e dos motivos que insisto em produzir para ludibriar-me os fracassos. Cansado de ostentar altruísmo e positividades. Exausto estou dessa crônica condição de levantar, perder, dormir. As luzes lá fora tão somente refletem a minha falta de ventura - encontro-me mesmo fatigado de tudo. E isso não se trata de algum protesto, tampouco resignação; aqui não há nada mais além de desistência. O meu abatimento requer o direito de me tornar vil. Afinal, quem se importa?... Onde está o mundo todo agora?
As contas acumuladas em cima da mesa, a geladeira vazia, o cachorro definhando... - a vida girando os seus piões. Os dias vêm, as noites vão; o sono já não é mais reconfortante. Aquele vazamento no banheiro e na cozinha - eu já recebera notificação por escrito sobre tal. Mas que diabos!, se nem minha essência mal se contém em ínfimos punhados, por qual razão preocupar-me com a maldita água? “Água é vida”, malquista danação!... A casa, a casa já não é mais a mesma. Mas, não obstante, a solidão permanece idêntica a de outrora, antigas condições que se afirmam em ciclos e repetições - estas agarram minhas entranhas, temendo a morte mais do que eu mesmo. Um carro percorre a rua silenciosa, ouço risos de mulher.
Madrugada afora, sem sono nem ânimo para dormir - porque até para dormir e sonhar é preciso certa vontade... -, contando mais uma vez minutos e horas em um relógio digital, verificando o que eu não tenho de importante para fazer no dia seguinte, e o pior, lutando com todas as parcas forças que ainda possuo contra o próprio passado - inutilmente, o que torna meu estado ainda mais lamentável -, minha mente remete a lembranças. Lembranças e saudades. Em seguida, decepções - e lamentos e arrependimentos. Ah!, como um sentimento conduzido e expressado de forma equivocada revela tão somente a depreciação... Valores, personalidades, atitudes, tudo por água abaixo. E tudo, tudo por causa de um passo em falso - uma maldição. De fato, é bem verdade, não se pode errar jamais... Jamais.
O som ligado se torna a única amostra de atividade em toda a casa - havia sequer luzes acesas. Um R&B no estéreo, uma performance tão bem executada - e por alguém mais novo que eu... Um canto triste e altivo, feito minha própria miséria. Angústia. Um ano, dois. O envelhecimento. Minha vida?, uma página em branco - a ausência completa de registros. Um conto sem graça, isto é o que tenho, digo eu! Coisas que poderiam ser, fatos que deveriam acontecer, nada mais... Por que eu não posso simplesmente figurar entre os especiais, por quê? Ah!, quisera eu ser ao menos louco feito meu amigo D. Quixote - mas nem a loucura, nem a loucura permanecera ao meu lado...
Jazido no chão da sala, já em silêncio pleno - foi quando dera por mim, eu não sabia mais da realidade em minha volta -, entregue ao torpor da falta de vigília; vi-a mais uma vez. O rosto diabolicamente estreito, feito rara porcelana. Um sorriso austero, longos e lisos cabelos; olhos, que por si só já denunciavam o extraordinário, e olhares penetrantes - e cativantes, cativantes e hipnóticos. Uma figura capaz de justificar uma epopéia ou uma viagem ao tempo; apta a exaurir toda a minha alma. Na verdade, a causa final de minha desgraçada sorte.
Iria dizer algumas palavras, mas minha voz não estava mais sob meu controle - ela porém sabia ler minha mente. E não havia um quê de interesses de sua parte. Tão somente apatia e frieza. Aquela moça de traços e passos inefáveis ia e vinha em meus infames e insignificantes limites - e não deixava transparecer nada, nada! Sempre fora assim. Não houve mesmo sequer palavra. E aqueles minutos sofríveis - e ainda assim desejáveis, ah!, tão desejáveis... - chegavam ao fim. Ela começara a se esfacelar, como num sonho já desperto, uma noite com os seus momentos contados - mas se tratava justamente apenas disso, um sonho, não? Ou estaria enganado novamente... Súbito, num átimo quase que imperceptível, em meio à névoa que rondava suas formosas linhas, únicas e imunes ao esquecimento, assim, de relance, eu percebi. Algo. Vira e acordara. Não, não podia ser tão somente um sonho... Ali havia alguma certeza, alguma concretidão - um mirante, um lume a seguir. Ainda que isso se tornasse uma dúvida, um eterno indagar, tão somente uma falha em minha descrição, um motivo fora o que eu vira. Uma razão, uma brecha, uma saída e um caminho. Antes de seu completo desvanecimento, um gesto negativo com a cabeça. E aquele olhar tão sublime se desfazendo sob um novo rastro de mágoa - uma mágoa que me escapava do conhecimento até então.
O relógio despertador clamava por sua existência - ao diabo, ao diabo tal pertencia, ninguém mais senão o diabo! Para o meu azar, o dia far-se-ia costumeiro: trabalho, trabalho e trabalho...
“Afinal, senhora distante de minha vulgar e ignomínica rotina, seria rancor ou indiferença o que habita suas infelizes lembranças de mim e de meus infortúnios?”