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sábado, 31 de julho de 2010

Retrato

Seus olhos - seus olhos denunciavam todo o interesse. Uma curiosidade que beirava a intriga; certa soberba, arrogância em sua imagem, sua postura; uma altivez que enaltecia e multiplicava curvas e silhuetas; um sorriso, um indagar, uma dúvida; um convite, uma provocação. Ela desfilava, exibia fatalidades, garras suaves, olores inebriantes - cores, gostos, nuances inimagináveis. Transformava ambientes, granjeava atenções, produzia sonhos e enlevos, consumia mente e coração. Devorava infelizes, seres ávidos por caprichos e extravagâncias, deleites e arroubos, que, como o autor réprobo destas linhas, se mostravam incapazes de mediar perigos e conquistas. Ela era seus próprios olhos; tratava-se o resto de faculdades, particularidades. Um arrebate, um êxtase, um projétil. Um selo, uma marca - um liame. Uma impossibilidade perturbadora, um embaraço; ainda assim, um desejo, ainda assim, uma vontade.
E ela enredava tramas e suspeitos - ah!, como enredava!... Dona de poderes e direitos, repleta de ímpetos audaciosos, consciente de atos e passos; deixava-se tão somente submergir por lances e mistérios. Ela era um encanto, senhores! Um terrível e magnífico encanto.
Um simples gesto e um mundo se despedaçava sob seus pés. Alisava-lhe os cabelos com a sutileza e a doçura de mil rosas, pequenos sóis que emitiam centelhas abrasadoras - arredores se viam incendiados com singelos tais movimentos. Caminhava sob pétalas e nuvens, tapetes vermelhos lhe eram estendidos através de pensamentos e apetências. Linhas delgadas, traços firmes, definitivos; soberania, tentação. A lascívia exalada como que por instinto.
Um olhar; um olhar era tudo, senhores. Tudo e nada. A condenação. Sentimentos amorais, razões sem valor, o esquecimento. Perto dela, perdia-se o sentido de bem ou mal; restavam apenas ardências. Suores, tremores, ânsias, prontidões. Bastava-lhe um estalar dos dedos - um exército a seu dispor!... Uma imagem, uma breve memória de suas mostras, e destinos haviam sido decididos. Entregas sem fim, intermináveis noites melancólicas. A inefável solidão de sufocados prazeres; sofreguidão. Ditos, dizeres... Atrevimentos contidos. Necessidades, sobrevivência - o clamor pelo autoconsumo da carne. Almas tropegamente a vagar ao longo de horas insones, perdidas. Livres.
Não obstante, a complexidade e a inconveniência delineavam situações e ambientes; ela era intangível, ainda que inegável. Sonhos, tarefas, quimeras. Um desafio inefável, uma audácia; tão somente uma insolência. Conquanto inexistissem aproximações, ainda que incompatibilidades denotassem todas e quaisquer permissões, ainda assim, ela se fazia feito brisa de mar. Um frescor, um acalento. Ocasionava lembranças ao mesmo tempo torpes e motivadoras - transpunha ensejos ordinários. Vertia o dia em noite, transfigurava a lua em holofote.
Apesar das incapacidades alheias, da falta de tom generalizada, de especialidades; por maior que fossem distâncias e diferenças, ela procurava. Mais do que isso, ela escolhia. Indagava, pretendia, ensaiava diligências. No fundo, ela desejava acasos e enleios. Exausta dos seus divinos dias de perfeições premeditadas, sonhava com o humano, o comum. Estava a um passo da entrega, da descoberta. Uma flor sob a primavera.
Mal sabíamos de sentimentos tais!... Curioso, os anos não nos ajudam absolutamente. Nós, os senhores do equívoco, apenas tecemos nuvens, anseios, imagens e amanhãs. Nada mais ocorreria - um cumprimento, um sorriso talvez; quiçá uma frase completa. No entanto, uma única e elegante pouca-vergonha era do que precisávamos - infelizes e ingênuos! Em seguida, lamentos, tão só lamentos...
- Volte ao trabalho, seu maldito! - ouvia-se uma imprecação indizível ao fundo do balcão. - O que você pensa que está fazendo, seu enamorado de uma figa?...
Uma pena, senhores, uma pena!
E lá se ia tamanha e verdadeira inspiração. Um retrato; um retrato grafado e ornamentado com sangue, vigor e inquietações.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Fim

Trata-se do tempo o significado da vida. A dualidade, ações, decisões, renúncias, aprendizagem. O tempo é o nosso instrumento, feito um papel em branco - é nele que despejamos os sentidos, a identidade. O papel se torna nossa obra, nossa face; no entanto, algo finito. E ainda que o conservemos intacto, ainda assim, tal tornar-se-á velho - a candura indubitavelmente se desfaz ao longo dos anos. A diferença, a singular diferença que reside nessas condições, é que a ausência das manifestações e de movimento tão somente nos oferece passividades. Um mundo desperdiçado; devaneios, lamentos, anelos, tudo aquilo que nos impede o agir.
Conquanto os anos se vão - a inevitabilidade da mortalidade. Vinte deles, talvez mais... Se ínfimos ou bastos, uma questão de situação. Não importa. O tempo se expande, condensa, dilui, adeja etc.; séculos se vestem de um simples gesto, segundos se mostram complexas eternidades. Tal faz as vezes de vilanias, e por vezes tantas o próprio nos representa soluções. Hoje, criança; antanho, enfermo. Agora, uma bela mulher - amanhã, o desgaste, inconveniências. Cabe ao nosso pensar - nossas mãos, nossos pés - administrar a pena que guia e dá forma a esse grande papel em branco que recebemos. Na verdade, o tamanho é irrelevante; as palavras é que são a verdadeira diversidade.
Mas, não obstante, minhas palavras há muito vieram a ser um malogro. E neste mesmo papel, já gasto em situações de outrora, não se permite o ato de corrigir - restam apenas parcos espaços a preencher. Minhas palavras não surtem mais efeito. Talvez tamanha estranheza de minha parte seja o motivo desse estado, quiçá tais jamais ostentaram quaisquer diferenciais. Porventura também elas componham o senso comum - esse odioso! Afinal a verdade é tão só uma, e está diante de meus olhos: tudo se perdeu e nada mudará. Ao diabo!, desinteressa-me o longínquo, o improvável e o inadmissível. Eu não sou mais um bom rapaz - apenas um senhor de cabelos descuidados e por esbranquiçar...
O fim. Ainda assim, um derradeiro alento. Uma última palavra. Uma doce e melancólica lembrança. Uma promessa; direções opostas, adversidades, ardores. Uma centelha, um feixe de luz - por mais distante e incrível que seja, uma esperança. Uma razão e um motivo para seguir o caminho. Um caminho. É isso, é simplesmente isso. Um obrigado; um muito obrigado e nada mais.
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Será este mesmo o fim que desenhaste para mim?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Apenas Uma Noite

Já anoitecera. O clima era seco; não obstante, caso indícios sensoriais, percepções emotivas, tragédias sentimentais, pesares, estreitezas e lamentações pudessem ser exteriorizadas, concretizadas, tal ato anunciaria um dilúvio sob pluviosidade naquela hora. Estaríamos, por dizer, mais bem acomodados e situados em semelhante ambiente - quem permaneceria na casa? Ódio, mágoa ou indiferença? E o dia seguinte?...
Ela amontoava parte das roupas em um lençol; tecia uma grande trouxa que abrangia tudo aquilo que conseguira recolher. A maior delas. Olhava para os porta-retratos espalhados por cômodas e estantes enquanto decidia o próximo passo - quebrá-los, rasgá-los, guardá-los, chorá-los. Há uma hora estava com fome. Agora sentia náuseas e enjôos. A vista se turvava. Os dentes, cerrados. Tremia. Atemorizara-se. Mas a postura era a de um Napoleão. Ajeitava-lhe os cabelos, mirava-se no espelho. Não abria mão da altivez. “Ótimo. Não me fiz em prantos. Estou bem.” Porém sabia que não suportaria mais do que um ou cinco minutos.
No quintal, o silêncio que prevê o fim. Sequer o vento ou as sombras ousavam sussurrar atenções. Não passavam das 20 horas.
Ele acende o seu terceiro cigarro; espera do lado de fora. Apesar da camiseta, fazia frio. Não havia estrelas no céu, não havia cachorros na rua. Ali, encostado no portão eletrônico, incapaz de produzir palavra, tão somente aguardava. O tempo paralisara - meses, anos, histórias, planos. Olha para a esquina vazia. Pensa em cortar o cabelo. Repara em quanto mato surgira no lote ao lado. Decide parar de beber. Ouve a voz com a qual sonhara tantas e tantas vezes - e por tantas outras acordara ao longo de manhãs e madrugadas - sentenciar um canto triste: “Só falta o meu casaco... Estou pronta.” Tratava-se mesmo do fim.
Engraçado como tememos a morte; sabemos de sua certeza, de sua obrigatoriedade; para tudo se reserva um desfecho - ainda assim, tememo-lo. Curioso como certos desejos causam arrependimento quando de fato estes se mostram por realizados. Talvez seja apenas angústia, ansiedade. Quiçá, a valorização irracional do distante, do intangível, do amanhã; a idealização, sonhos, quimeras, nada mais. O que acontece é que vagamos do passado ao futuro, confiando-lhes a única felicidade. E o presente se revela tortuoso, incompleto. A verdade é que ele não dormiria aquela noite. Ela estava pronta. Para sempre.
Um carro havia se aproximado - era o táxi. Feito hábito, ela só conseguia carregar a pequena valise contendo seus perfumes, cremes etc. Os demais pertences, todos eles, estavam no chão da sala. Ela não sabia como chamá-lo - as malas!, as malas! “Isso precisa acontecer?...” Ele fora buscar tais pertences. Caminhava vagarosamente, evitava respirações - jogara o cigarro fora. Cada passo, cada olhar, os pensamentos reflexos; obstáculos indesejáveis. Ela estava bonita. Grave, rígida. Austera, soberba. Ele se sentia menor; a casa seguiria sob seu domínio - não obstante, menor. Em pedaços. Acende outro cigarro.
Não houve palavra, tão somente pesares. Tudo estava ali, exposto a céu aberto. Outrora, infinito; agora, dois zeros. Explicações, motivos, desculpas, perdões - para quê? Havia chegado o fim. Não se falavam, evitavam rebaixar-se; gritos, humilhações. Amavam-se. Conquanto não soubessem do que se tratasse, amavam-se. Engolidos pela indefinição, fantasias, expectativas, frustrações - amar-se-iam ao longo de suas infelizes existências. Arrepender-se-iam, trocariam injúrias no silêncio; ainda assim, amar-se-iam. Na distância, na solidão, no fracasso... Amar-se-iam e nada mais.
O curioso e o improvável iam e vinham em suas impensadas decisões. Atos desprovidos de sentidos, vontades. Já era tarde afinal. Ela queria sair logo dali - derrubar-se em lágrimas obscuras. Sob a penumbra do orgulho e da dignidade escondia seus sentimentos. Sem espaço para admissões, redenções. Íntegra, gélida. Via-o com a cabeça baixa, olhar ao chão. Reverência, temor - era tudo o que ela esperava daquele momento. A separação. No fundo ela sabia; duas metades de um universo inconveniente. Sem tempo para recomeços. Decidira, por fim, queimar todas as fotos.
O que ela não previa era a própria dependência. Ele já havia virado as costas, o portão finalmente se fechara. O táxi sequer havia desligado o motor - um pequeno pranto sufocado pela soberba. Mas, não obstante, as memórias dilacerariam suas pretensões. Encontrar-se-ia perdida daqui a segundos. No entanto, uma escolha, uma decisão; um caminho ausente de retornos. Indiferença era o que desejava naquela hora - indiferença era o que mais lhe faltava dentro daquele táxi.
Ele havia consumido seu último cigarro. Procurava algo sem saber, ligava a TV, olhava-se no espelho. Um rosto - desconhecia-se. Resolvera sair... Faltava decidir para onde. Para quê? Por quê? Escapava-lhe as forças, a razão. Eram 20 horas e 2 minutos. Passaria a noite inteira naquela casa, diante do espelho, no sofá ou no chão - não iria a lugar nenhum. Disso ele sabia. Sem promessas, sonhos e impressões. No mais, incertezas. Nascia uma revolta tardia. O amor e a paixão têm dessas. Sentia frio. Desistira da dignidade.
“Um cigarro, minha vida por um cigarro... Senhora, onde está que não consegue ouvir minha dor? Ao diabo, então, ao diabo com toda a sua razão!... Saia para sempre de meu subsolo!” - no fundo, admitia; aquilo não se transformaria em verdade. Ele só queria saber o porquê...
Já ela, ela dormira na casa de sua mãe. Um silêncio, uma vergonha. 28 anos. Sentia-se velha, torpe. Desesperara-se pela ausência das lágrimas. Havia medo em sua alma. Tratava-se do amor que ela jamais soubera decifrar em si mesma. “Apenas uma noite.” - dizia em seus pensares. “Uma noite tão somente; tanto tempo perdido.” Tantos equívocos, essa sim, era a sua maior verdade.
Apenas uma noite. Fria, insólita, vil, insone - apenas uma noite. Naquela noite, uma descoberta; a eternidade representada em atos. A incerteza do tempo. Um conto inacabado.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Flores Amarelas

Desconheço a existência de deus, do infinito. Foi-me tolhida, há tempos, a última esperança. Sonhos? Estes, sob minha própria força e vontade, vorazmente banidos. Futuro? Irrelevante, desconsiderável. Tempos passados, tenho-os como um guia de aprendizado; um dicionário, uma gramática, um livro de regras e nada mais. Sou este momento, meus princípios estão aqui. Estas palavras, a leve brisa sobre os cabelos, o muro de concreto, um número à minha frente - cento e sessenta. Uma vela, um cemitério. Pai e irmão jazidos no mesmo solo.
Não creio na eternidade, na continuidade da alma. Nossa única e definitiva posse - o corpo. A grande e fascinante dádiva: o tempo. E os feitos, as ações, ah!, tais cabem tão somente a nós e mais ninguém. Eu sou os meus atos, pensamentos e percepções. Ostento a estreiteza quase ímpia da permanente recusa de me curvar os joelhos perante toda e qualquer condição. Julgo sentidos e consciência como a minha bandeira, minha nação. Troco a minha vida por meus dizeres, certezas, minha essência. E assim, afirmo que, numa palavra, não mais preciso de céus e terras prometidas. Os meus dias são limitados; não há problema algum em tal verdade. Meus medos, derrotados, ainda que intrínsecos, reais. E a humanidade - a esta dedico o meu mais sincero amor.
Mas, não obstante, hoje resolvi brincar de construir monólogos intangíveis. Meu pai, que reside há cerca de três anos nesse número, o cento e sessenta, há de fazer as vezes do fantasioso nesta hora. Restos orgânicos, consumidos, misturados à terra, é o que encontro sob meus pés. Sequer uma lápide, sequer uma lápide há aqui! - apenas esse número. E mirando tal cenário, tal afirmação, compreendo, admito e lamento o peso da realidade da vida ordinária. Trata-se, de fato, de algo frio por demais, desalentador - um quê de frustrações e inquietudes -, uma força inefavelmente superior a toda nossa capacidade de lutar. E aí nasce um grande temor - a revolta. A angústia, a atribulação, fracassos, restrições, iniquidades, prantos; tudo vertendo-se em rebeldia e protesto. O mau agouro do caos e do desespero; o autoconsumo. A ausência de luz. A perdição. Faz-se necessário um caminho; é aí que se justifica o sentimento religioso. E por isso, unicamente por semelhante motivo, é que concedo as minhas gratidões a este senhor de iludir, o criador da fé - ainda que tal, para mim, esfacelara-se por completo.
Portanto, aqui, sentado sob pedras, já de costas àquele número, volto aos meus sonhos de infante. “Pai, sua luta continua em mim; talvez perante maiores estranhezas, quiçá sob diferentes complexidades, ambientes. Seus passos não foram esquecidos. Suas palavras, meticulosamente reproduzidas, divulgadas - não por mim; o meu orgulho me impede de fazer algo que não seja nomeado de próprio, único. As lembranças, ainda que permanecidas tão somente num âmbito familiar, perduram. E os atos e as reflexões, estas lhe concedem o título de eterno - a verdadeira, a concreta longevidade. E os deuses e os anjos, que seguem sem sequer saber de nós, não são mais necessários. Por quê? Pelo seu exemplo, pela sua história; pelo meu presente, pelo tempo que ainda me resta - e por nossa arte de amar.”
Se eu conseguisse mesmo brincar de sonhar, de voar e conversar com o improvável, dir-lhe-ia, numa palavra, ainda que tardia e por vezes repleta de negligência: - Obrigado. Trata-se disso; a força que me criara, a inexplicabilidade de minha existência, o sentido e o propósito, o princípio se faz naquilo que você foi. E o fim?... O fim, eu haverei de criá-lo. Simples, pleno, possível.
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Momento ínfimo e fugaz de devaneios de minha parte. Eu cá já me dou de encontro à porta de saída. Eu, homem, egoísta, saturado em vaidades, vivendo unicamente concretidões. Mas, não obstante, uma verdade inesperada: naquela terra revestida de ossos e carnes, assim, sem mais nem mais, nascem pequenas flores amarelas, despojadas de planejamentos e previsibilidades - a cor da sabedoria, a cor favorita...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Olhos Soturnos

Carros na rua. Frio. Noite afora.
Casais sorrateiramente espalhados pelos cantos.
O fim de uma jornada de trabalho. Quarenta e oito horas sem ocupações - sem igualmente o quê fazer...
Café. Computador. Chá. Televisão. Livros.
Um inefável sentimento de incapacidade.
A casa vazia - alguns latidos ao redor da suposta vizinhança. Outros carros em movimento.
Música para assassinar o silêncio.
A morte dos sonhos - a desilusão da esperança. Risos sem ensejos; talvez a desgraça, o infortúnio, quiçá as ausências por tanto tempo presenciadas. Um protesto. Uma revolta. Demônios internos.
Estagnação. Inércia. Desejos intangíveis, vontades irreparáveis. A evasão do tempo. Rugas, calos, cabelos grisalhos; outra morte - a da juventude.
Horas, minutos - ponteiros e números digitais. Suores, impulsos incontidos. A lascívia.
O autoconsumo. A humilhação. O fracasso. A resignação.
Um semi-amanhecer.
Insônia...

domingo, 23 de maio de 2010

Tarde De Sábado

Ele não era atraente afinal, porém despertava a curiosidade. Seus olhos um tanto quanto irônicos - e ao mesmo tempo perspicazes - indicavam indagações que remetiam ao desconhecimento e a unicidade. No fundo ele cultivava certa melancolia, apesar dos sorrisos constantes e das sonoras gargalhadas. Tal tristeza era percebida apenas em suas palavras escritas e lamentadas; uma lágrima de palhaço escorria em seu interior. Seus ângulos retos denotavam tão somente disciplina e dedicação: exercícios, dieta; uma rotina que não o orientava a mais nenhum lugar senão o autocontrole. Ele não fazia cálculos ou planos, tampouco possuía a pretensão de viver décadas ou semanas; decerto que a necessidade de um insólito guia para refrear toda a inefável insanidade presente em seus sonhos era exaurida através de pesos, velocidade e calorias racionadas. Mas ele não era belo - e dizia a si mesmo não se importar com tal infortúnio.
O que o tornava alguém digno de um conto, senhores? Eu lhes respondo: a altivez, orgulho e opinião próprios, e o completo despojo das comparações. Ele tecia pensamentos, discursos e anedotas que o faziam ostentar a raridade, ainda que por vezes tais ultrapassassem os limites da compreensão alheia. Insuportava mesmices, mas, não obstante, aceitava-as. Sabia de seu lugar junto à solitária multidão de ilustres anônimos, apesar da falta de tom. Não usava sapatos, não vestia calças, ignorava formalidades. E amava a humanidade - mais do que amor, havia aí um interesse intrínseco que o movia em busca de sentido, de complexas explicações para o mais simplório dos atos desse assaz intrigante chamado comportamento. Entendia-a pelas metades, no entanto parcas eram as suas decepções. Era capaz de encontrar motivos para os feitos mais cruéis... “Somos todos egocêntricos, repletos de frustrações, eternamente responsáveis por compreender e aceitar o egoísmo de todos ao redor - sem exceção!”. Com estas palavras ele se apresentara a ela naquela tarde. Não havia a visto anteriormente uma única vez, sequer um “oi” ou algo semelhante - e aí, justamente aí, residia toda a curiosidade que ele conseguia provocar.
Ela parecia uma daquelas bonecas recém-lançadas no mercado de brinquedos, a fim de ser consumidas avidamente por crianças que já sabem há um tempo do poder e do vislumbre do luxo - a beleza, principalmente, e o luxo. Havia até a possibilidade remota de que ela não piscasse, respirasse, sentisse fome ou sede - e outras dessas coisas comuns a tudo de que se trata por humano. Uma estátua sobre um pedestal; não de mármore, mas de cera. Ao primeiro olhar, deixava-se claro a sua prima condição de melhores tratos - uma ode à beleza, e todos os cuidados possíveis e inimagináveis que tal requer para si. Luzes, futilidades, adjetivos, era tão somente disso o que ela precisava. Um verdadeiro amor - e todos os seus naturais sacrifícios?... Ah, isso era tão pouco frente aos seus desejos! Ela não nascera para se trancafiar em um único coração, senhores.
Tudo levava a crer que aquela seria apenas mais uma tarde de sábado em um shopping center para ela - não que desejasse mais do que isso em tal momento. No entanto, a surpresa que o mais fagueiro dos instrumentos de deus, o acaso, reservava-lhe jamais visitara os seus anseios até então. Afinal o que mais ela queria encontrar ali? Havia as lojas, as compras, os flertes e os risos. E ela era tão somente sorrisos... Uma autenticidade inocente estampada naqueles cantos de lábios suaves que eram capazes de perverter a maior das indiferenças. Uma criança, uma Alice, uma princesa em seu pequeno castelo saturado de súditos e pretendentes. Tratava-se de egoísmo, sim, porém uma reação natural de alguém que possuía em tamanha abundância a maior e mais cobiçada das virtudes - a formosura. Ela era o coquetismo em linhas delicadas, cores, olores e tênues gestos. Uma doçura, senhores!... O mais sublime dos manjares que os olhares possam absorver - isto, e tão somente isto, era o que ela era.
Uma tarde inteira se passara - rostos, imagens, sacolas, inúmeras delas..., paladares. Uma leveza sem aparentes motivos, a condição primordial de se usufruir trivialidades. Uma vida de plástico, maquiagens e ar refrigerado. Assim se faziam as tardes de sábado de Joana, a menina-boneca. Galharda, garrida, havias as delgadas linhas curvilíneas e havia os seus olhos hipnóticos. A inefável e inebriante sensualidade - a beleza que torturava e cegava. E sempre, sempre exibindo um sorriso e uma indagação; uma intriga, uma vontade irrequieta de encontrar algo que jamais conseguira concretizar em pensamentos, um quê de muito próximo do fantasioso...
Ela acabara de sair de tal shopping center. Despedira-se de algumas companhias, dirigira-se à fila de táxis estacionados. Era unicamente embrulhos - mal via os próprios passos! E de súbito, algo vencera a inércia de sua rotina, como o apito inicial de uma partida - num porvir, sem mais nem mais, tudo começa e nada remanescente de passados recentes se ramifica na memória. Um cronômetro posto a trabalhar, o disparo de um revólver, o nascimento de uma concepção - a paixão, senhores, a paixão!
Nos segundos imediatos após o choque, ela jurava ter se colidido com um muro ou um poste - algo fixo e rigoroso demais para ser transposto. Era Paulo; caminhava os seus passos distintos em seus trajes completamente soltos de tendências sociais e culturais. As compras, os presentes se espalharam pela calçada. E o contraste de imediato entre ambos, que dispensava apresentações e explicações - dois mundos, duas filosofias, duas realidades enfim -, paralisou-lhe os reflexos: Joana se transformara; dera-se conta de seus excessos, suas imperfeições. Logo em seguida, corara-se. E as palavras de Paulo, enfim, foram ditas.
- Não se preocupe, bonita! Eu também possuo, apesar de que as aparências teimam em contradizer tal verdade, igualmente carrego comigo uma infinidade de atos e hábitos individualistas o suficiente para receberem a alcunha de descartáveis. E é por isso que somos humanos, e que vivemos... E saiba também que amar-lhe-ei ao longo de todo o tempo que gastarei empilhando tamanhos e curiosos pertences!...
Tratava-se da peculiaridade de Paulo, comovente, intrigante; não haveria necessidades maiores que semelhantes palavras, tal figura, tal ensejo para que Joana lhe dedicasse uma eternidade de suposições - um torpor que queimava e cativava os seus sentidos. Um dia, uma tarde tão somente; um segundo, um olhar, dizeres e diversidades - pronto!, suas indagações e sorrisos já se nutriam daquela inesperada presença. Não desejava mais ir embora, suas sensações finalmente se vertiam em uma única direção. Um toque, um toque apenas e nada mais, e aquela flor nomeada ardência desabrochar-se-ia.
Não houve mais palavra. Talvez um “até mais”, quiçá um “fica bem!”; não importa. Paulo ia e vinha, essa era a sua essência - um passado, rugas e mágoas infindas o lapidaram dessa forma. Contos de antanho, desinteressantes... Na verdade, houve sim um diálogo entre os dois; não obstante o destino já agira por si - como onda do mar que não se impede, feito o tempo que não para. Usual, indesejável por vezes, esse portentoso galhofeiro já havia decidido por aquelas duas vidas. E a estreiteza, e a ansiedade, as noites incompletas e as horas incessantes, e tudo aquilo que os amantes sentem pungindo-lhes a identidade, independente de objetos ou motivos, já lhe invadiam a alma - ela clamava por notórias recordações; ele desejava apenas entrar para a história.
O diálogo, senhores? Ah, este eu deixo para depois; amanhã talvez, um dia ou dois anos até. Mas, não obstante, creio que suas insinuações bastam para prever o que realmente houve naquele fim de tarde para nossas singulares criaturas, ambos à espera das surpresas reservadas pelo ocaso - triste ou não, uma questão de opinião. Não é bem verdade?

domingo, 2 de maio de 2010

Um Alvinegro Dia De Domingo

Ah, como começara lastimoso esse dia... O diabo, o diabo sabe de cor do que estou falando! E ao diabo com tudo isso - dietas, relações, dúvidas, solidões, improbabilidades, pobrezas, trivialidades. Uma maldita contusão na perna, fruto do futebol nosso de cada sábado, impossibilitava-me de realizar minha intensa corrida dominical; um treino leve pela tardinha era o máximo que conseguiria fazer. Não obstante, faltava-me o ânimo. As minhas normalidades e a contínua falta de soluções me sufocavam numa condição acima do habitual. Paciência!, pois o dia ainda se mostrava tão precoce em sua existência... Algo poderia acontecer - afinal de contas, essa é a idéia da esperança, senhores!
E esse algo poderia mesmo concretizar-se, e em forma de paixão clubística - por que não?! Outra vez - e tais vezes já se fazem por incontáveis, é bem verdade! - o futebol salvar-me-ia o domingo. Afinal o meu Galo! estava na final do campeonato - o que mais eu poderia desejar?... E na medida em que o tempo se esvaía, todas as minhas querelas também se desfaziam, tornando-se estas tão somente desnecessidades. Não faltava mais tanto tempo para o início do jogo, e nem eu estava mais com tanta fome assim , eh eh eh!
Uma trégua, uma trégua de toda a miséria - era tão somente isso de que eu precisava. Um pequeno risco para se lidar, ínfimo perante a vontade que persistia em mim; em mim e em outros inúmeros, conhecidos ou não, que compadecem de tal paixão - a única realmente imune a toda e qualquer manifestação de ciúmes e disputas. Neste singular caso, quanto mais efusivos amantes existirem, melhor!... Não somos rivais, não somos mesmo! Aqui há algo mais próximo de uma irmandade, creio eu. E, senhores, trata-se da mais pura concretidão esta minha seguinte afirmação: somos muitos, somos numerosos, somos igualmente incontáveis, constantes, fiéis e inexplicáveis! Controversos por vezes, impulsivos, furiosos, ofensivos. Somos sinistros!... Mas, não obstante, compreensivos perante os iguais. Somos uma nação; e no auge inimaginável do nosso patriotismo, exibimos tão somente uma identidade: o amor, a paixão, a idolatria e a insânia.
Quanto ao jogo, senhores, digo que, numa palavra, não houve jogo - mas um espetáculo, uma apoteose. E por mais que os milhares lá fisicamente presentes bradassem toda essa nossa identidade, algo inusitado de fato ocorrera. Os gritos se tratavam de unicamente reações impensadas, pois por dentro emudecíamos diante da grandiosidade da tal momento. Uma contemplação impossível de ser vertida em palavras - e isso eu sei, senhores, mesmo de longe, em minha casa, de uma distância concreta e considerável, que falo por mim e por toda esta minha nação. Fora inexplicável...
Lágrimas. Sim, lágrimas, senhores, tão somente lágrimas conseguiam expressar o inefável sentimento daquele momento. Um desporto, uma decisão, jogadores, funcionários e outras gentes de suposta maior importância - e torcedores e seguidores. Torcedores assim como eu. Torcedores que, sem qualquer razão plausível e justificável, simplesmente vivem as suas vidas junto a esse mineiro clube de alvinegras cores. E hoje, hoje, acompanhando tudo pela TV - porque nesses dias de agora eu cá não me encontro com tolerância o suficiente para suportar opiniões de menosprezo e subestimação de alguns, apesar das iguais condições uniformizadas -, eu pude pela primeira vez comprovar tamanha sincronia de satisfação, comovência e compromisso: todos, indiferente de propósitos, funções, razões sociais, absolutamente todos vibravam em uníssono. Senhores, eu pude mesmo ver, e afirmo tão cheio de mim mesmo - eu vi unicamente verdades e realizações dentro daquele estádio/ palco. Um ídolo, um craque, um comandante e milhares de não menos importantes outros indivíduos exibindo almas e corações em glória. E o porvir, a consagração!... Não, eu não possuía sequer outra ação para demonstrar tudo isso senão a de verter tais lágrimas. Lágrimas, ainda que dignificadas. Humildes e altivas, lágrimas. Um mundo alvinegro, o meu mundo alvinegro sendo coroado.
Ao término de tal espetáculo, fui-me realizar a tarefa dominical ainda pendente. Correr por aí; queimar calorias indevidamente adquiridas no dia anterior, cumprir outra rotineira semana de exercícios - não concretizar o mínimo de pensamentos possível. Enquanto corria, na beira de uma estrada iluminada apenas por faróis automotivos, aos poucos conseguia retornar-me ao estado normal de existência. A imensa felicidade instantânea se dissipara - junto a ela, igualmente as decepções que carrego comigo. Em seguida, a minha tão esperada leveza de ser. Minha perna nem doía mais! E as lágrimas, ah, estas se resguardaram para futuros ensejos - dos quais não espero tamanha expansividade como a de hoje. E hoje, senhores, hoje eu não preciso mais tanto assim do amanhã... Bastou-me a plenitude da vitória. Nada mais importa - ah, como explicar-me esse amor alvinegro! - nesse dia de domingo.