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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

(certa outra) Tarde De Sábado

Um pensamento lhe insistia na mente; uma curiosidade - uma intriga tão somente. Sim, ele desgostava do estéril, do improdutivo ato de prever o futuro, regia cada dia como a única concretidão de sua vida; mas, não obstante, aquele pensamentozinho de nada lhe pungia a serenidade costumeira. Uma pedrinha lançada na vastidão lacustre de sua alma. “Mas, e se...”; “Ora, que diabos eu!...”; “Tolices, quantas tolices estou...”; “Ainda assim, o que há de fato a perder?” - decidira-se então por mediar possibilidades, por mais contraditório que pudesse ser... Consigo, não com a natureza humana. Paciência!, tratava-se de Paulo afinal; ele era toda a noção de momentos - eternidades não lhe despertavam valores.
Aquela tarde de sábado havia sido realmente memorável. De uma forma mais intensa a ele do que a Joana; por mais incrível que semelhante verdade se mostrasse, o caso era que um leve torpor, uma insegurança irrisória, invadia-lhe gestos e cores. Tal condição se fazia por inédita - ou ao menos numa raridade considerável, permitam-me assim afirmar - em seu comportamento: Paulo sempre se apresentava imperturbável, ainda que se vestisse de uma sensibilidade jamais despercebida. Eram os detalhes que lhe chamavam atenção - ele prezava pela notabilidade, mais do que isso, ele a buscava com todo o ardor presente em sua vontade, sua essência; porém as nuances, as nuances é que representavam a sua percepção de beleza. Os caprichos do vestido, o pequeno rubor oriundo do embaraço daquela colisão entre eles, os cabelos tão lisos e bem cuidados - um suave brilhozinho de sol, refletido no retrovisor do táxi, que a fez erguer o braço esquerdo um pouco acima de seus olhos. Era Joana, tão somente Joana, a causa de tamanha repentina incoerência de sua parte. Uma doce e agradável incoerência.
Já se haviam passado três dias, e Joana permanecia num insólito estado indefinido de reflexão. Seu rostinho de porcelana já não transparecia aquela habitual alegria inocente; mantivera-se pensativa assim ao longo de todas as sessenta horas - fechara-se em suas próprias, e até então inéditas, indagações. Olhava para o seu quarto, o guarda-roupa dos sonhos, a estante impecável, a janela que ia ao encontro do mar... E por mais que lhes gostasse ainda, conseguia apenas ocupar-se com tamanha súbita e inesperada introspectividade. Não que isso se tratasse de um embaraço, senhores, esse estágio, digo, essa metade do caminho, ou melhor, famigeradas encruzilhadas que por vezes nos deparamos - não, senhores, tal nova condição unicamente engrandecia seus traços. Joana estava transformando-se irreversivelmente; com isto, sua formosura de cristal e vitrines passaria a adquirir um aspecto mais profundo, mais complexo. Seu encanto deixara de ser unicamente simétrico, este havia atingido a perturbação inevitável - a vivacidade, o arrebatamento constante, a audácia e o ímpeto dos eternos amantes solitários.
Joana mal se continha em suas delimitações físicas; sentia-se, ao mesmo tempo, acima e abaixo do chão. Seus olhos de boneca se vestiam de uma perplexidade considerável; seus dias, ocasiões e necessidades não pareciam tão simples mais - ela continuaria a sorrir para a felicidade, no entanto se dissipara de suas certezas. Encontrava-se, naquela singular terça-feira, imersa em sentimentos incomuns para ela. Ansiava, tressuava, mirava o horizonte, esquecia-se das horas - havia perdido inclusive o episódio diário de sua novela favorita. “Quem se importa mais?...”, reagia despretensiosamente, a coquete. Mas, não obstante, semelhante mudança mostrar-se-ia, daqueles instantes em diante, anos e dias e semanas, inconstante - jamais efêmero. Aqueles olhinhos brilhantes não mais voltariam a si - dispensara todo o seu reino, súditos. Tornara-se um anjo. Um anjo cujo afã se revelava o humano, nada mais que o humano.
Na sexta-feira, Paulo já não sabia mais o que fazer para lidar com a ansiedade acumulada durante a semana. “Um comportamento tão infantil...”, pensava. “E, pelo mesmo motivo, tão bonito!...” Fazia ciência da sua condição nobre, ainda que ridícula. Outro sábado estava por nascer - como agir? Ele buscava saídas, retornos, desvios; nada. Nada parecia extrair-lhe da inconstante estática - a espera. E o pior: o incerto, o improvável. Havia decidido voltar ao lugar onde a encontrara. Joana. Quais chances de êxito em seus movimentos de fato existiam - “Uma, tão somente uma possibilidade.” Não lhe era estranha tal certeza: “Apenas se ela, Joana, houver sofrido, ainda que a décima parte e não mais que isso, o que sofri nesses dias. A desordem dos sentidos precisaria ser recíproca. Ah, deus!... Amanhã, amanhã estará tudo decidido!”
Esperar sorrisos de fortuna raramente constava em seus atos usuais. Mas, não obstante, fá-lo-ia no dia seguinte - naquele tão aguardado amanhã; tudo o que desejava era uma nova e semelhante tarde de sábado. Joana não lhe saía de sua rotina. Arrependera-se inúmeras vezes por ter sido tão indiferente, tão íntegro, tão... Ele. “Por que não me insinuei? Ao menos o telefone, o telefone eu deveria ter descoberto! Quanta prepotência, indesejada ingenuidade...” - com isso, Paulo acabava de trair a si mesmo. Porém ele não sabia que, se houvesse realmente tomado decisão por tal comportamento, jamais sua tão ansiada reciprocidade poderia realizar-se. “Joana haverá de estar lá!”, ele imaginava a própria sorte. No fundo, contava mesmo com ela, com o acaso. Mais uma vez. “Apenas mais uma vez...”
O tempo havia congelado. Conquanto de fato uma nova tarde de sábado se fizesse no horizonte, os ponteiros do relógio pareciam retroceder impetuosamente. Ele não suportava um segundo sequer a mais - já estava lá, do outro lado da rua, observando a fila de táxis. Permanecera ali, encostado em um muro qualquer; um quarto de hora. Uma intragável eternidade. Um arrebate tomava direção de seu corpo. Expressava-se por si, palavras e sinais lhe eram desnecessários. Por mais trinta minutos desistiria... Ao menos era esse o tratado que fizera consigo. “Uma hora, não mais que isso. Afinal, em que estou pensando? Exatamente o quê vim procurar aqui, memórias de Joana?...” - ele esteve mesmo por retroceder. Começara a dobrar a esquina - a mesma esquina que havia tomado na semana passada; o caminho de volta. Um último olhar, o suspiro final de sua insolente esperança. Um movimento súbito - uma imagem gravada há dias; a impossibilidade da confusão e do esquecimento. Tudo isso num átimo. Sim, era Joana, era ela própria que acabara de sair da porta giratória do shopping center - o desejo incontido concretizado. O alento final, o brilho permanente do sol, o desconhecido, o destino; a beleza em si, dispensada de justificativas - Joana! “É mesmo ela! Eu, eu...” Atravessara a rua.
- Olá, bonita! Precipitações me trouxeram aqui, a crença no acaso me fortalecera, e você acaba de me fazer as vezes da doçura e da vontade de viver. Permita-me instigar-lhe o devido respeito e admiração dessa vez... E obrigado por estar onde esperava que estivesse, justamente ao encontro de meus anelos!... - ele se calara após um breve momento; sorriram-se, abraçaram-se. Uma leve brisa lhes acariciavam os rostos. Realmente não havia mais nada a dizer... Nada!
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Que mais querem, senhores? Detalhes, esclarecimentos, descrições?... Aí eu lhes pergunto: e para quê, senhores, para quê? O novo ensejo fala por si, deixemos ambos se instilarem nesse enlace curiosamente tão previsível - e ainda assim tão grandioso! Uma pequena reserva, digo-lhes, é o que falta nos dias de hoje. Façamos a nossa parte, tão somente sonhemos. Com Joana, com Paulo; com nossos próprios alentos. Com a esperança - e com outra fantasiosa tarde de sábado...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Uma Breve Explicação

Por vezes, tudo de que precisamos é uma novidade, um acaso, um ensejo. Em grande parte deles, não sabemos agir da melhor forma - a mais correta, digo, concluída por nossa própria reflexão a respeito, em momentos extremamente tardios (quando não há mais nada a fazer). Não importa. Só existe uma chance - o ineditismo é imperioso. E aí está, creio eu, a diferença entre a imensa massa de nós, subordinados, confinados, revoltosos, e os tais ditos-cujos extraordinários. Nada mais justo - únicos são os que se movimentam brilhantemente no exato instante em que lhes são concedidas quaisquer espécies de escolha. Nada mais justo...
O resto, senhores, o resto são lamentos; lamentos e fracassos. Perdão por tais palavras, mas, não obstante, a cada dia que se esvai, perco um pouco da minha capacidade de esconder verdades - rodeios, vá lá... Enfeites, eu cá os julgo inviáveis. Ilusões, é disto que se tratam as impressões, excetuando-se o êxito. A compreensão até que possui algum valor; o reconhecimento implica ao respeito e dignidade; compartilhar pode vir a fazer as vezes da auto-estima - aceito esses dizeres de forma branda inclusive. Mas a felicidade não se encontra em nenhuma delas; tão somente na vitória, no sucesso, no agir corretamente, magistralmente - ainda que esta seja irritantemente limitada.
Portanto, senhores, saibam agir - esperar, intervir, observar etc. Todos os átimos são insólitos, não há volta ou correções. Talvez outras oportunidades existam de fato; quiçá, sorte ou acaso - é muito provável que sim. No entanto, saibam agir. Não me tomem como exemplo; sou, pois, uma coleção de equívocos, falhas. Não ostento dons e tons. As reflexões, apenas as reflexões habitam minhas particularidades - ainda que aquelas sejam os meus maiores demônios, através de tais produzo semelhantes palavras... Não obstante, mais um dia frio e insone se faz por acabado.

P.S. Um longo período de inanição de idéias e atividades literárias é o resultado deste inverno para mim. Espero que isso se encerre logo. Porém indesejadas constantes em minha vida me tolhem a força motriz de minha caneta - meus dedos ostentam o estado glacial presente na ausência da ação. Conquanto continuo a viver e absorver tudo o que se passa ao redor; em seu devido tempo expelirei minhas impressões neste espaço, em forma de linhas, protestos e utopias. Peço as mais sinceras desculpas por atrasos e inatividades. No entanto, um alento: prometo, tão logo possível, esclarecer aqui, como dito há meses, os acontecimentos fantasiosos de (certa outra) Tarde De Sábado...

sábado, 31 de julho de 2010

Retrato

Seus olhos - seus olhos denunciavam todo o interesse. Uma curiosidade que beirava a intriga; certa soberba, arrogância em sua imagem, sua postura; uma altivez que enaltecia e multiplicava curvas e silhuetas; um sorriso, um indagar, uma dúvida; um convite, uma provocação. Ela desfilava, exibia fatalidades, garras suaves, olores inebriantes - cores, gostos, nuances inimagináveis. Transformava ambientes, granjeava atenções, produzia sonhos e enlevos, consumia mente e coração. Devorava infelizes, seres ávidos por caprichos e extravagâncias, deleites e arroubos, que, como o autor réprobo destas linhas, se mostravam incapazes de mediar perigos e conquistas. Ela era seus próprios olhos; tratava-se o resto de faculdades, particularidades. Um arrebate, um êxtase, um projétil. Um selo, uma marca - um liame. Uma impossibilidade perturbadora, um embaraço; ainda assim, um desejo, ainda assim, uma vontade.
E ela enredava tramas e suspeitos - ah!, como enredava!... Dona de poderes e direitos, repleta de ímpetos audaciosos, consciente de atos e passos; deixava-se tão somente submergir por lances e mistérios. Ela era um encanto, senhores! Um terrível e magnífico encanto.
Um simples gesto e um mundo se despedaçava sob seus pés. Alisava-lhe os cabelos com a sutileza e a doçura de mil rosas, pequenos sóis que emitiam centelhas abrasadoras - arredores se viam incendiados com singelos tais movimentos. Caminhava sob pétalas e nuvens, tapetes vermelhos lhe eram estendidos através de pensamentos e apetências. Linhas delgadas, traços firmes, definitivos; soberania, tentação. A lascívia exalada como que por instinto.
Um olhar; um olhar era tudo, senhores. Tudo e nada. A condenação. Sentimentos amorais, razões sem valor, o esquecimento. Perto dela, perdia-se o sentido de bem ou mal; restavam apenas ardências. Suores, tremores, ânsias, prontidões. Bastava-lhe um estalar dos dedos - um exército a seu dispor!... Uma imagem, uma breve memória de suas mostras, e destinos haviam sido decididos. Entregas sem fim, intermináveis noites melancólicas. A inefável solidão de sufocados prazeres; sofreguidão. Ditos, dizeres... Atrevimentos contidos. Necessidades, sobrevivência - o clamor pelo autoconsumo da carne. Almas tropegamente a vagar ao longo de horas insones, perdidas. Livres.
Não obstante, a complexidade e a inconveniência delineavam situações e ambientes; ela era intangível, ainda que inegável. Sonhos, tarefas, quimeras. Um desafio inefável, uma audácia; tão somente uma insolência. Conquanto inexistissem aproximações, ainda que incompatibilidades denotassem todas e quaisquer permissões, ainda assim, ela se fazia feito brisa de mar. Um frescor, um acalento. Ocasionava lembranças ao mesmo tempo torpes e motivadoras - transpunha ensejos ordinários. Vertia o dia em noite, transfigurava a lua em holofote.
Apesar das incapacidades alheias, da falta de tom generalizada, de especialidades; por maior que fossem distâncias e diferenças, ela procurava. Mais do que isso, ela escolhia. Indagava, pretendia, ensaiava diligências. No fundo, ela desejava acasos e enleios. Exausta dos seus divinos dias de perfeições premeditadas, sonhava com o humano, o comum. Estava a um passo da entrega, da descoberta. Uma flor sob a primavera.
Mal sabíamos de sentimentos tais!... Curioso, os anos não nos ajudam absolutamente. Nós, os senhores do equívoco, apenas tecemos nuvens, anseios, imagens e amanhãs. Nada mais ocorreria - um cumprimento, um sorriso talvez; quiçá uma frase completa. No entanto, uma única e elegante pouca-vergonha era do que precisávamos - infelizes e ingênuos! Em seguida, lamentos, tão só lamentos...
- Volte ao trabalho, seu maldito! - ouvia-se uma imprecação indizível ao fundo do balcão. - O que você pensa que está fazendo, seu enamorado de uma figa?...
Uma pena, senhores, uma pena!
E lá se ia tamanha e verdadeira inspiração. Um retrato; um retrato grafado e ornamentado com sangue, vigor e inquietações.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Fim

Trata-se do tempo o significado da vida. A dualidade, ações, decisões, renúncias, aprendizagem. O tempo é o nosso instrumento, feito um papel em branco - é nele que despejamos os sentidos, a identidade. O papel se torna nossa obra, nossa face; no entanto, algo finito. E ainda que o conservemos intacto, ainda assim, tal tornar-se-á velho - a candura indubitavelmente se desfaz ao longo dos anos. A diferença, a singular diferença que reside nessas condições, é que a ausência das manifestações e de movimento tão somente nos oferece passividades. Um mundo desperdiçado; devaneios, lamentos, anelos, tudo aquilo que nos impede o agir.
Conquanto os anos se vão - a inevitabilidade da mortalidade. Vinte deles, talvez mais... Se ínfimos ou bastos, uma questão de situação. Não importa. O tempo se expande, condensa, dilui, adeja etc.; séculos se vestem de um simples gesto, segundos se mostram complexas eternidades. Tal faz as vezes de vilanias, e por vezes tantas o próprio nos representa soluções. Hoje, criança; antanho, enfermo. Agora, uma bela mulher - amanhã, o desgaste, inconveniências. Cabe ao nosso pensar - nossas mãos, nossos pés - administrar a pena que guia e dá forma a esse grande papel em branco que recebemos. Na verdade, o tamanho é irrelevante; as palavras é que são a verdadeira diversidade.
Mas, não obstante, minhas palavras há muito vieram a ser um malogro. E neste mesmo papel, já gasto em situações de outrora, não se permite o ato de corrigir - restam apenas parcos espaços a preencher. Minhas palavras não surtem mais efeito. Talvez tamanha estranheza de minha parte seja o motivo desse estado, quiçá tais jamais ostentaram quaisquer diferenciais. Porventura também elas componham o senso comum - esse odioso! Afinal a verdade é tão só uma, e está diante de meus olhos: tudo se perdeu e nada mudará. Ao diabo!, desinteressa-me o longínquo, o improvável e o inadmissível. Eu não sou mais um bom rapaz - apenas um senhor de cabelos descuidados e por esbranquiçar...
O fim. Ainda assim, um derradeiro alento. Uma última palavra. Uma doce e melancólica lembrança. Uma promessa; direções opostas, adversidades, ardores. Uma centelha, um feixe de luz - por mais distante e incrível que seja, uma esperança. Uma razão e um motivo para seguir o caminho. Um caminho. É isso, é simplesmente isso. Um obrigado; um muito obrigado e nada mais.
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Será este mesmo o fim que desenhaste para mim?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Apenas Uma Noite

Já anoitecera. O clima era seco; não obstante, caso indícios sensoriais, percepções emotivas, tragédias sentimentais, pesares, estreitezas e lamentações pudessem ser exteriorizadas, concretizadas, tal ato anunciaria um dilúvio sob pluviosidade naquela hora. Estaríamos, por dizer, mais bem acomodados e situados em semelhante ambiente - quem permaneceria na casa? Ódio, mágoa ou indiferença? E o dia seguinte?...
Ela amontoava parte das roupas em um lençol; tecia uma grande trouxa que abrangia tudo aquilo que conseguira recolher. A maior delas. Olhava para os porta-retratos espalhados por cômodas e estantes enquanto decidia o próximo passo - quebrá-los, rasgá-los, guardá-los, chorá-los. Há uma hora estava com fome. Agora sentia náuseas e enjôos. A vista se turvava. Os dentes, cerrados. Tremia. Atemorizara-se. Mas a postura era a de um Napoleão. Ajeitava-lhe os cabelos, mirava-se no espelho. Não abria mão da altivez. “Ótimo. Não me fiz em prantos. Estou bem.” Porém sabia que não suportaria mais do que um ou cinco minutos.
No quintal, o silêncio que prevê o fim. Sequer o vento ou as sombras ousavam sussurrar atenções. Não passavam das 20 horas.
Ele acende o seu terceiro cigarro; espera do lado de fora. Apesar da camiseta, fazia frio. Não havia estrelas no céu, não havia cachorros na rua. Ali, encostado no portão eletrônico, incapaz de produzir palavra, tão somente aguardava. O tempo paralisara - meses, anos, histórias, planos. Olha para a esquina vazia. Pensa em cortar o cabelo. Repara em quanto mato surgira no lote ao lado. Decide parar de beber. Ouve a voz com a qual sonhara tantas e tantas vezes - e por tantas outras acordara ao longo de manhãs e madrugadas - sentenciar um canto triste: “Só falta o meu casaco... Estou pronta.” Tratava-se mesmo do fim.
Engraçado como tememos a morte; sabemos de sua certeza, de sua obrigatoriedade; para tudo se reserva um desfecho - ainda assim, tememo-lo. Curioso como certos desejos causam arrependimento quando de fato estes se mostram por realizados. Talvez seja apenas angústia, ansiedade. Quiçá, a valorização irracional do distante, do intangível, do amanhã; a idealização, sonhos, quimeras, nada mais. O que acontece é que vagamos do passado ao futuro, confiando-lhes a única felicidade. E o presente se revela tortuoso, incompleto. A verdade é que ele não dormiria aquela noite. Ela estava pronta. Para sempre.
Um carro havia se aproximado - era o táxi. Feito hábito, ela só conseguia carregar a pequena valise contendo seus perfumes, cremes etc. Os demais pertences, todos eles, estavam no chão da sala. Ela não sabia como chamá-lo - as malas!, as malas! “Isso precisa acontecer?...” Ele fora buscar tais pertences. Caminhava vagarosamente, evitava respirações - jogara o cigarro fora. Cada passo, cada olhar, os pensamentos reflexos; obstáculos indesejáveis. Ela estava bonita. Grave, rígida. Austera, soberba. Ele se sentia menor; a casa seguiria sob seu domínio - não obstante, menor. Em pedaços. Acende outro cigarro.
Não houve palavra, tão somente pesares. Tudo estava ali, exposto a céu aberto. Outrora, infinito; agora, dois zeros. Explicações, motivos, desculpas, perdões - para quê? Havia chegado o fim. Não se falavam, evitavam rebaixar-se; gritos, humilhações. Amavam-se. Conquanto não soubessem do que se tratasse, amavam-se. Engolidos pela indefinição, fantasias, expectativas, frustrações - amar-se-iam ao longo de suas infelizes existências. Arrepender-se-iam, trocariam injúrias no silêncio; ainda assim, amar-se-iam. Na distância, na solidão, no fracasso... Amar-se-iam e nada mais.
O curioso e o improvável iam e vinham em suas impensadas decisões. Atos desprovidos de sentidos, vontades. Já era tarde afinal. Ela queria sair logo dali - derrubar-se em lágrimas obscuras. Sob a penumbra do orgulho e da dignidade escondia seus sentimentos. Sem espaço para admissões, redenções. Íntegra, gélida. Via-o com a cabeça baixa, olhar ao chão. Reverência, temor - era tudo o que ela esperava daquele momento. A separação. No fundo ela sabia; duas metades de um universo inconveniente. Sem tempo para recomeços. Decidira, por fim, queimar todas as fotos.
O que ela não previa era a própria dependência. Ele já havia virado as costas, o portão finalmente se fechara. O táxi sequer havia desligado o motor - um pequeno pranto sufocado pela soberba. Mas, não obstante, as memórias dilacerariam suas pretensões. Encontrar-se-ia perdida daqui a segundos. No entanto, uma escolha, uma decisão; um caminho ausente de retornos. Indiferença era o que desejava naquela hora - indiferença era o que mais lhe faltava dentro daquele táxi.
Ele havia consumido seu último cigarro. Procurava algo sem saber, ligava a TV, olhava-se no espelho. Um rosto - desconhecia-se. Resolvera sair... Faltava decidir para onde. Para quê? Por quê? Escapava-lhe as forças, a razão. Eram 20 horas e 2 minutos. Passaria a noite inteira naquela casa, diante do espelho, no sofá ou no chão - não iria a lugar nenhum. Disso ele sabia. Sem promessas, sonhos e impressões. No mais, incertezas. Nascia uma revolta tardia. O amor e a paixão têm dessas. Sentia frio. Desistira da dignidade.
“Um cigarro, minha vida por um cigarro... Senhora, onde está que não consegue ouvir minha dor? Ao diabo, então, ao diabo com toda a sua razão!... Saia para sempre de meu subsolo!” - no fundo, admitia; aquilo não se transformaria em verdade. Ele só queria saber o porquê...
Já ela, ela dormira na casa de sua mãe. Um silêncio, uma vergonha. 28 anos. Sentia-se velha, torpe. Desesperara-se pela ausência das lágrimas. Havia medo em sua alma. Tratava-se do amor que ela jamais soubera decifrar em si mesma. “Apenas uma noite.” - dizia em seus pensares. “Uma noite tão somente; tanto tempo perdido.” Tantos equívocos, essa sim, era a sua maior verdade.
Apenas uma noite. Fria, insólita, vil, insone - apenas uma noite. Naquela noite, uma descoberta; a eternidade representada em atos. A incerteza do tempo. Um conto inacabado.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Flores Amarelas

Desconheço a existência de deus, do infinito. Foi-me tolhida, há tempos, a última esperança. Sonhos? Estes, sob minha própria força e vontade, vorazmente banidos. Futuro? Irrelevante, desconsiderável. Tempos passados, tenho-os como um guia de aprendizado; um dicionário, uma gramática, um livro de regras e nada mais. Sou este momento, meus princípios estão aqui. Estas palavras, a leve brisa sobre os cabelos, o muro de concreto, um número à minha frente - cento e sessenta. Uma vela, um cemitério. Pai e irmão jazidos no mesmo solo.
Não creio na eternidade, na continuidade da alma. Nossa única e definitiva posse - o corpo. A grande e fascinante dádiva: o tempo. E os feitos, as ações, ah!, tais cabem tão somente a nós e mais ninguém. Eu sou os meus atos, pensamentos e percepções. Ostento a estreiteza quase ímpia da permanente recusa de me curvar os joelhos perante toda e qualquer condição. Julgo sentidos e consciência como a minha bandeira, minha nação. Troco a minha vida por meus dizeres, certezas, minha essência. E assim, afirmo que, numa palavra, não mais preciso de céus e terras prometidas. Os meus dias são limitados; não há problema algum em tal verdade. Meus medos, derrotados, ainda que intrínsecos, reais. E a humanidade - a esta dedico o meu mais sincero amor.
Mas, não obstante, hoje resolvi brincar de construir monólogos intangíveis. Meu pai, que reside há cerca de três anos nesse número, o cento e sessenta, há de fazer as vezes do fantasioso nesta hora. Restos orgânicos, consumidos, misturados à terra, é o que encontro sob meus pés. Sequer uma lápide, sequer uma lápide há aqui! - apenas esse número. E mirando tal cenário, tal afirmação, compreendo, admito e lamento o peso da realidade da vida ordinária. Trata-se, de fato, de algo frio por demais, desalentador - um quê de frustrações e inquietudes -, uma força inefavelmente superior a toda nossa capacidade de lutar. E aí nasce um grande temor - a revolta. A angústia, a atribulação, fracassos, restrições, iniquidades, prantos; tudo vertendo-se em rebeldia e protesto. O mau agouro do caos e do desespero; o autoconsumo. A ausência de luz. A perdição. Faz-se necessário um caminho; é aí que se justifica o sentimento religioso. E por isso, unicamente por semelhante motivo, é que concedo as minhas gratidões a este senhor de iludir, o criador da fé - ainda que tal, para mim, esfacelara-se por completo.
Portanto, aqui, sentado sob pedras, já de costas àquele número, volto aos meus sonhos de infante. “Pai, sua luta continua em mim; talvez perante maiores estranhezas, quiçá sob diferentes complexidades, ambientes. Seus passos não foram esquecidos. Suas palavras, meticulosamente reproduzidas, divulgadas - não por mim; o meu orgulho me impede de fazer algo que não seja nomeado de próprio, único. As lembranças, ainda que permanecidas tão somente num âmbito familiar, perduram. E os atos e as reflexões, estas lhe concedem o título de eterno - a verdadeira, a concreta longevidade. E os deuses e os anjos, que seguem sem sequer saber de nós, não são mais necessários. Por quê? Pelo seu exemplo, pela sua história; pelo meu presente, pelo tempo que ainda me resta - e por nossa arte de amar.”
Se eu conseguisse mesmo brincar de sonhar, de voar e conversar com o improvável, dir-lhe-ia, numa palavra, ainda que tardia e por vezes repleta de negligência: - Obrigado. Trata-se disso; a força que me criara, a inexplicabilidade de minha existência, o sentido e o propósito, o princípio se faz naquilo que você foi. E o fim?... O fim, eu haverei de criá-lo. Simples, pleno, possível.
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Momento ínfimo e fugaz de devaneios de minha parte. Eu cá já me dou de encontro à porta de saída. Eu, homem, egoísta, saturado em vaidades, vivendo unicamente concretidões. Mas, não obstante, uma verdade inesperada: naquela terra revestida de ossos e carnes, assim, sem mais nem mais, nascem pequenas flores amarelas, despojadas de planejamentos e previsibilidades - a cor da sabedoria, a cor favorita...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Olhos Soturnos

Carros na rua. Frio. Noite afora.
Casais sorrateiramente espalhados pelos cantos.
O fim de uma jornada de trabalho. Quarenta e oito horas sem ocupações - sem igualmente o quê fazer...
Café. Computador. Chá. Televisão. Livros.
Um inefável sentimento de incapacidade.
A casa vazia - alguns latidos ao redor da suposta vizinhança. Outros carros em movimento.
Música para assassinar o silêncio.
A morte dos sonhos - a desilusão da esperança. Risos sem ensejos; talvez a desgraça, o infortúnio, quiçá as ausências por tanto tempo presenciadas. Um protesto. Uma revolta. Demônios internos.
Estagnação. Inércia. Desejos intangíveis, vontades irreparáveis. A evasão do tempo. Rugas, calos, cabelos grisalhos; outra morte - a da juventude.
Horas, minutos - ponteiros e números digitais. Suores, impulsos incontidos. A lascívia.
O autoconsumo. A humilhação. O fracasso. A resignação.
Um semi-amanhecer.
Insônia...