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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um Dia (ou crônica final)

"Mas um dia, um dia tudo estará resolvido..." - com semelhantes palavras dei início a esse ano e a este blog. Um ano se fez (ou quase) e se desfaz; o que foi feito? Digo, numa palavra, e com muito orgulho, pois, que inúmeros atos se deram por satisfatoriamente realizados - capítulos de uma história não mais tão anônima assim... Corações, condições, situações; pensamentos exteriorizados, constantes alternâncias, angústias compartilhadas. Conheci amigos, paguei contas, atingi objetivos pré-estabelecidos, conclui assuntos mal-resolvidos - segui em frente (sempre em frente!). Não obstante, continuei no mesmo lugar de sempre; um retorno talvez, quiçá um novo começo (quem sabe)... Incertas certezas, um dia de cada vez, dinamismo - aí estou eu, aonde quer que vá.
Experiências, tudo se tratou de experiências. Equivoquei-me, como sempre - é bem verdade. Mas, não obstante, não me neguei um momento sequer. E mesmo que mantivesse a incoerência, a estranheza e a excentricidade, toquei a alma feminina - ainda que houvesse sido um esbarrãozinho de meia pataca tão somente... Aos diabos!, eu sei que o consegui! E isto, coisa curiosa, isto se tornou a maior concretidão de meus passos ao longo dos dias tais...
Além disso, três décadas de vida - e os cabelos brancos, e as protuberâncias, e os rezingões -, pedaladas inconvenientes afora, espiadelas de praxe e o diabo a quatro. Sim, o diabo - o próprio... Afinal de contas, se não acreditas no diabo, ele acredita em ti, quá-quá-quá!
De algo que escrevi possuo vaidades. Ainda que vãs, sem sentido; vaidades. Sei da beleza, da sinceridade - da ironia, vê bem, isso é muito importante! - e da profundidade de tamanhos dizeres capazes de serem encontrados por aqui. Amores e vontades estão neles. Projetos futuros - e o melhor de tudo: já vivos e em prática - brotam aos montes no lado mais inefável e incompreensível de minha mente. Não obstante, perfeitamente tangível. Eu sou um livro aberto - e assim começo o novo caminho, os meus dias extremos.
Digo-te que perdi o meu medo da chuva. (A inquietude, jamais.) Lembranças remotas, uma leve ansiedade e nada mais. Que as águas façam o que devem fazer - assim como eu, palavras soltas por aí...
Estou pronto para o que virá. Continuarás tu comigo? Não importa, mantenho-te em minhas verdades.
(Um ano novo - ah!, quem não precisa dele?)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Mensagem De Natal

Quanto tempo nós possuímos? Não muito; não obstante, o suficiente. O suficiente para fazermos o necessário e o almejado. Basta agir - e pensar, e pensar... - por si. Não façamos do tempo um artigo de luxo ou motivo de revolta. Hoje não somos mais os mesmos de ontem, assim como amanhã seremos igualmente diferentes; que isto se conserve por todo o tempo - melhor dizendo, pelo tempo suficiente.
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Pois bem, uma mensagenzinha altruísta era a minha intenção inicial. Semelhante intenção se encerrou naquelas primeiras linhas - é tudo o que consigo no momento... Sinto muito em não me portar como o esperado. Sinceramente, eu sinto mesmo muito. No entanto, meus sentimentos permanecem; nunca encontrarás pessoa como eu: a ausência de preconceitos e a admissão de erros e culpas são condutas singulares. E o amor, o amor despojado - o simples e indizível estado permanente de admiração, respeito, confiança e compreensão, jamais defasado, perpetuamente cultivado -, livre e isento de condições e retribuições, esta motricidade que me leva a atos, escolhas e decisões, de fato, tal plenitude e concretidão de íntima consciência tornar-se-á única em tuas impressões. Talvez leves a vida inteira para perceber o que sou, quiçá não haja tempo o suficiente para tal realização. Não importa. Teus olhos, tão somente teus olhos neste momento - e nada mais, nada mais me faz vital, isto juro a ti - são as testemunhas de que preciso. Presencia meus mistérios - os equívocos, a dramaticidade, já conheces de cor. Um longo inverno foi vencido; meus frutos virão, ah!, eles virão... Um dia, um dia.
Tenho aversão ao passado; ver-me em melhores condições no ontem, e não no hoje, simplesmente destrói toda a minha vontade. Numa palavra, trata-se do fim. Não obstante, desgosto de criar responsabilidades para o futuro - deixo os dias como estão. E embora eu desconheça o mínimo que seja do rumo que minhas próximas atitudes tomará, sinto pela primeira vez (e isso durante um longo tempo) que de fato estou vivo. Não se trata de meu querer que tais atos se vertam em negligências e incômodos - porém, será inevitável. Ao final destes parágrafos tudo soará como uma despedida; que seja assim... Explicações não há, tampouco rusgas ou desordem. É, sim, uma despedida; voarei em direção ao novo ano - à aceitação do anonimato, do comum, do cotidiano. No entanto, lembra-te de um único dizer de minha parte e serei eterno. Feito pedra, rocha, nuances deixadas por ondas já desfeitas de mar.
Eu te prometo, estas são as minhas últimas palavras - não busques o porquê (afinal a curiosidade nunca fez parte de teus interesses). Meus pés agora são meus o bastante para seguir em frente... Nossos caminhos jamais foram os mesmos - para quê adiar novamente? Não desejo mais a agonia; os sonhos já me foram tolhidos, todos eles sepultados. A felicidade, não quero escrever sobre ela. Não obstante, continuar é preciso. Defenderei perante a morte todas as tuas vontades, mas não quero mais saber de ti. Abraço o que sou. (E que venham os dias extremos!...)
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No momento adequado, ao nosso tempo, saberemos como pensar - e agir. Isso é tudo o que importa, a única certeza que possuo. Todos nós saberemos; todos nós possuímos. Não precisamos de mais nada, de mais ninguém - a não ser de nós mesmos... Tão somente de nós mesmos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Crônicas De Um Miserável (uma sexta-feira agradabilíssima - parte dois)

Ah, mas sessenta minutos de intervalo não passam de uma miséria - como, eu lhes pergunto, como se é possível satisfazer todas as necessidades de um simples e ordinário homem em tão pouco tempo? E o direito à sesta, senhores, onde fica? Quinhentas mil e uma maldições, o inferno aguarda por vossas malquistas almas - todos vós, detentores do poder! Tão somente duas classes cultivam certas regalias: os fidalgos e os descabidos. E ainda que eu ostente pretensões a ambas, bem, este não é momento para semelhante vislumbre; afinal todos esses meus sessenta minutos, um por um, já se encontram esvaídos. Mas, não obstante, continuar é preciso, é preciso! Com o quê, sabe-se lá... Ah!, sim, sim, a história... A curiosa história daquela fagueira senhorinha, assim como o desenrolar de minha sexta-feira agradabilíssima. Sem mais nem mais - continuemos, continuemos!
A tarde ocorreu tranquila, contradizendo toda a expectativa, ainda que vã, minuciosamente elaborada pela manhã (e durante a noite anterior, por que não?) já exaurida; óbvio, para tudo isso se possui um bom motivo: um intrigante par de pernas - digo, senhores, uma mente brilhante e um semblante simpaticíssimo. Meus caros colegas de repartição já não faziam mais nada além de exercer o papel da insignificância. E assim fui coroado com breves e fugazes quatro horas esvoaçantes de labuta naquela sexta-feira.
Mas, não obstante, esperanças não havia - aprendera a sobreviver isento de ilusões. Embora a imagem de minha ilustre e oportuna cliente permanecesse feito véspera de feriado em minhas irrelevantes lembranças, a opção primeira e mais prudente para minha condição era a exímia arte do macaqueado equestre - em outras palavras, fingir-se de égua. E foi esta justamente a conduta de meu comportamento agudo, ao longo dos minutos finais daquela tarde; instantes precedentes do soar libertador das dezessete horas, chamadas instigadoras brotavam tal qual chuva de verão em meu aparelho celular...
- Oh, miserável! O que vamos fazer, digo, beber hoje à noite?
- Seu tunante irremediável, antro de defectibilidades, qual é?, o mesmo bar da última semana?
- Mas, pois, sem desculpas dessa vez, pague-me sua dívida ou conto para minha irmã aquele nosso pequeno segredinho... Pague-me em uísque, sem mais nem mais!
Ah, meus amigos... Numa palavra, meus amigos são tão - como se diz? - criativos e imprevisíveis... Ora, mas que diabos se faz numa sexta-feira além de se embriagar? Fiquemos bêbados, eu também lhes afirmo - a comunhão de fato se é concebida tão somente num estado pleno de ebriedade, quá-quá-quá!
Pois bem - antes de me enveredar em mesas de bares noite adentro, uma breve e necessária ida em casa; banho, roupas limpas etc. Antes disso, uma cervejinha, apenas uma cervejinha!... Afinal, tenho nada mais a fazer - a pensar, bem, tal estado completo de ausência de atividades se torna impossível. Contas, futebol, dívidas, mulheres, crises existenciais, mulheres, idade avançada, parcos vencimentos, mulheres, o sentido da vida, aquela senhorinha... Aquela senhorinha de olhar arredio, e narizes empinados! “Está decidido: uma cervejinha tão somente e depois irei para casa.”
Companheiros para tal intuito existem aos montes - se ainda assim, em casos de extrema infelicidade, esses se encontrarem em falta, basta sentar-se em soledade e oferecer uma rodada livre. Abutres e bebedores compulsivos se prontificam com um estalar de dedos - e um abrir de carteiras, eh eh eh! Mas, não obstante, antes mesmo de qualquer percepção de minha parte, ao penetrar no recinto costumeiro das sextas-feiras às dezoito horas e pouco, já fora identificado por alguns destes companheiros...
- Mais uma cadeira, garçom!... Nosso maldito contador de anedotas veio rezar em nosso culto hoje!
- Apenas uma cervejinha, irmãos! - digo eu; ora, pois, ajoelhou-se, há de rezar, quá-quá-quá! - Preciso despir-me de toda a imundície do cotidiano e me purificar nas benditas águas termais da tecnologia da eletricidade, ainda que a obrigatoriedade do pagamento em dinheiro por tais seja notória, é bem verdade...
- Quem é este? Um pastor forasteiro?... - havia pessoas inéditas para mim naquela mesa; para meu infortúnio, nada de interessante. Também pudera, não estava presente, dentre as minhas intenções e expectativas para aquele local, encontrar misses ou artistas; apenas gente comum, miserável, assim como eu. Ótimo, senhores, ótimo!...
Após a minha cerveja planejada - na verdade foram três, mas, no entanto, quem de fato esperava que eu cumprisse ao pé da letra semelhante e única promessa? - fui-me assear em casa. As horas ainda eram poucas; uma noite agradabilíssima era anunciada. Súbito, meu celular começara a funcionar novamente - era uma chamada. Um chamada, senhores!, e adivinhem de quem? A pessoa mais improvável a ostentar tal intenção naquela noite de sexta-feira - nem tanto, admito; não se trata de meu objetivo elevá-la a um pedestal de mármore, tampouco vesti-la sob fios de ouro. Sim, senhores, senhores meus... Aquele número piscando freneticamente diante dos olhos deste inconveniente narrador pertencia àquela senhorinha - à minha senhorinha, digo, mui formosa cliente. Volto a afirmar: por uma horda e meia de diabos mal-cuidados, mas que noite, que noite agradabilíssima!
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Um esclarecimento. Felicidades são momentos; vivemos afirmando que somos felizes, mas não o somos. Juramos felicidades a pessoas que detém nossa admiração, porém sabemos no fundo que tal promessa é injusta. Momentos não passam de momentos - unicidades. Gastamos uma semana inteira! lamentando e praguejando, para finalmente em um dia, uma noite - ou uma ligação, tão somente uma ligação... -, explodirmos em um êxtase inexplicável. Isto, senhores, isto é a felicidade! Algo improvável, imune a quaisquer prescrições. E, nada mais compreensível, em momentos assim agimos feito infantes - precoces. Afinal, dias, meses, semanas - e por que não anos e existências? - presenciando ordinariedades e frustrações nos levam a tal comportamento igualmente inesperado. “É próprio da dor fazer reaparecer o lado criança do homem.” - está aí uma frase justificável. Portanto, não julguem as patacoadas inefáveis que tomarão nota daqui em diante; trata-se de infantilidades, nada mais que isso. Eis, pois, o ocorrido.

sábado, 27 de novembro de 2010

Essa Chuva Que Não Para...

Um ano. Um ano se desfez - exatamente não sei; mas um ano se trata de muito tempo. Talvez não (afinal, já supostamente vivi trinta deles). Não obstante, os dias se vão e não voltam mais. As mudanças, se há de verdade, as transmutações, as convicções constantemente vencidas ou defasadas registram tão somente lembranças esvaídas - lembranças que, ainda assim, servem como provas de uma vida fortalecida em equívocos. Uma pequena sala branca, igualmente um ventilador - com alguns toques em azul, é verdade -, papel e caneta, e uma mente já não tão perturbadora assim; lá fora, ela, a chuva.
Duas horas. Este é o tempo imprevisto que o acaso me presenteou - agora. Não estou com pressa, não estou com sono (é manhã, por mais incrível que pareça); não há tarefas, tampouco vontades, anelos. Só o tempo, a chuva... Faz mal não, faz mal não! Creio que aprendi a esperar; ao menos ando lidando de forma surpreendente com tal fenômeno. As águas desabando seus infortúnios em terras de homens me dizem o que fazer. “Espere!” - Para quê? Eu pergunto. Costumava perguntar... Para quê, perguntas? Agir eu já sei; aguardar se faz necessário. Um dia, um dia a chuva encerrar-se-á - um dia, um mês, uma hora... Que diferença faz?
Pessoas. Presenças, ausências. Inconstâncias - de quê se trata o eterno? Não quero mais eternidades, não sou uma divindade - não acredito mais nelas. Admito valores, confortos, e nada mais; quiçá um dia, um dia possa eu vir a desejar semelhanças tais. Mas, não obstante, não neste momento. Quero viver, esperar se de fato for preciso. Onde estão aqueles de meu interesse? Afastei-os de mim. E o que restou além dos pensamentos? Alternâncias, transformações. Mudanças e pensamentos. É bem verdade, parece, as convicções e o homem são coisas muito diferentes (devo-lhe essa, meu amigo Chátov!). E a chuva, a chuva lá fora já não mais me assusta - ela me faz rir, galhofeira que é.
No entanto, uma idéia, uma idéia fixa se mostra intrínseca em minha atual condição. Algo que me impele a mais alta compreensão e o sentido de toda a existência, de toda e qualquer justificativa do amor pela humanidade que se manifesta em mim. O ódio, para quê o ódio, se todas as vontades comungam? Felicidades são dádivas, raridades valorizam décadas de atos e sensações; não obstante, as pessoas continuam sendo as mesmas - inseguras, eufóricas, apáticas, altivas. Continuamos vivendo, continuamos vivendo... (Com chuva ou sem chuva, continuamos vivendo; seguimos em frente!)

domingo, 14 de novembro de 2010

Crônicas De Um Miserável (uma sexta-feira agradabilíssima - parte um)

Pois bem, uma sexta-feira. Finalmente; uma sexta-feira. Havia acordado dormindo, como de hábito - passara a noite anterior fazendo sei lá o quê, até não sei quais adiantadas horas da madrugada. Quanto tempo perdido, senhores! Mas, não obstante, certo alguém já afirmara que perder-se é ver-se livre - ora, não é mesmo? Ademais, uma sexta-feira justifica quaisquer inépcias - ah!, e eu produzo tantas, tantas! -, não só de meu feitio, mas de toda a desmesurada humanidade. Afinal, sexta-feira só existe uma, ao longo de uma semana inteira... Aos diabos com esse mundo atroz!
- Ao trabalho, ao trabalho, ignóbil ser imprestável!
E assim começara aquele dia insone - não por vontade própria, mas tão somente por necessidade plena. Um desastre, a pobreza é mesmo um desastre...
De fato, eu nunca havia morrido de amores e orgulhos por meu ofício (e por todos os meus estimados colegas, digo, antes de qualquer coisa), porém - igualmente verdade - algo eu deveria realizar. Afinal, um homem sem trabalho não é um homem; e quanto a isso, bem, numa palavra, senhores, eu sou inflexível, irredutivelmente inflexível! Não obstante, uma alegriazinha sempre se é presenciada - até mesmo na iminência da (auto) desgraça, senhores! E, nada mais que um belo e furtivo sinal do que tamanho e aguardado dia estaria reservando para este humilde narrador, eis, pois, que ela resolveu dar o milagre de sua presença. Ai, ai (suspiro)...
Uma adenda: ela significa a fulaninha que, numa palavra, vale por um dia exaustivo de trabalho - tudo bem, eu confesso, um dia não tão exaustivo assim, eh eh eh! Descrições? Bem, pois, ela não é tão bonita como deveria ser, mas, não obstante, perfila-se tal qual boneca de vitrine. Uma maravilha, senhores!... Só vendo. Voltemos ao quiproquó.
Estava eu na mais azafamada expectativa pela minha libertação, ainda que cíclica, lutando contra os ponteiros do vil relógio de parede situado defronte às minhas lastimosas e torpes querelas que teimavam em remar contra a maré, quando aquela delgada e esguia senhorinha resolveu aparecer. Ela havia solicitado os nossos serviços de despacho faz poucos dias - talvez uma semana ou mais, bem, não somos ávidos assim por solucionar encargos tão celeremente -, e estava um tanto quanto que reclamando urgência por um fim em seus suplícios. No entanto, ela se mantinha, sempre que me visitava - pois, tal trabalhinho coube a mim, tão somente a mim -, com um sorriso e uma curiosidade; isso me fazia pensar tolices, tecer planos, aproximações etc., numa palavra, coisas do gênero. Qual gênero? O de palhaço, oportuno, prazenteiro... Ah, eu já lhes contei que sou um incorrigível? Nesse caso, eximo-me de toda a culpa. Quá-quá-quá!
Ela tecia palavras, mas eu mal prestava atenção em outra coisa senão em seus detalhes: roupas, cabelos, gestos - tudo no lugar. Aos diabos com o que ela queria, no fim tudo daria certo; bastava ter fé, tão somente uma pequena fé em mim... Óbvio, eu resolveria tudo a tempo, ou no máximo em cima da hora. Afinal de contas, somos todos brasileiros - e faço questão de exercer o meu papel, eh eh eh! E tudo estava caminhando tranquilamente - alguns gracejos de aparência despretensiosa de minha parte, sorrisinhos, ainda que simplesmente por obrigação, da parte dela -, numa palavra, uma manhã de sexta-feira tranquila. Até que ela disse, sem mais nem mais, “adorei o seu corte novo... Sério!” - sério? “Sim, sério.” Obrigado, senhorita não sei de quê, obrigado pela preferência, digo, diligência! E agora, senhores? Poderia eu, por mais miserável que fosse, ficar simplesmente de mãos atadas - melhor dizendo, com os lábios enclausurados? Óbvio, óbvio, senhores, recuso-me a lhes dar semelhante resposta!...
Num átimo, ainda que internamente aquilo durasse para mim horas e eternidades extasiantes e inesperadas, tudo se deu da súbita e seguinte forma: havia prometido para a segunda-feira próxima a solução para todos os problemas dela, e, bem, arrisquei um pouco a minha sorte tentando solucionar também os meus. Problemas, problemas! Ela não disse vírgula a respeito de minha trôpega e confusa, porém incisiva investida; mas também não disse um não! Ah, maldito silêncio inefável de palavras - essas coquetezinhas provocadoras são mesmo danadas! (Mil perdões pela redundância, senhores, mil e um perdões por tamanha deselegância...)
Portanto, aquela manhã terminar-se-ia assim, ostentando expectativas, ainda que de certa forma a um passo da frustração; nada mais interessante ocorreria até o meio-dia. Ela se despedira sem palavras - mas os sorrisinhos a acompanharam até a porta de saída. Ponto para mim - ou não? Não obstante, vale-se notar que, àquela altura das horas presenciadas, o vazio supremo e dominante em meu estômago me tolhia quaisquer capacidades de raciocínio, percepção e impressões. Tal maneira que até do nome de minha ilustríssima visita seria capaz de me esquecer... (Vá lá, vá lá, eu estou mentindo, senhores, isso estava longe de ocorrer. No entanto continuarei omitindo-lhes esta irrelevante informação; afinal de contas, um nome é tão só um nome - um mero detalhe.)
Ah, mas se ainda se perdura algo de sagrado neste crudelíssimo, descortês, ameaçador e precoce mundo da produtividade financeira, um quê intransponível e inviolável; se a sublimidade do humanismo teima em insistir com a sua resistência perante tamanha desconsideração e desigualdade dos direitos universais, este simbólico, necessário e adorado - justificadamente, justificadamente por sinal - ensejo, hábito e ato milenar unicamente é nomeado e conhecido por A Hora do Almoço. Sim, a hora do almoço! - ou os senhores estavam esperando por algo mais vital que isso, advindo de um reles funcionário, digamos, morto de fome, hem? Mantenham-me tal regalia, e unicamente a partir disto sustentarei minha dignidade por toda a minha vida - e tenho dito!
Pronto. Fartar-me-ei de delícias e guloseimas - um chazinho igualmente cairá muito bem. De quem mesmo estávamos falando? Ah, com os diabos, por uma hora inteira não quero saber mais de nada, quá-quá-quá!

domingo, 31 de outubro de 2010

Condição

As relações definem o rumo da humanidade. O amor é a razão maior dos sentimentos - a afirmação de identidades, o sentido de realizações, a justificativa de atos e essências. A luta contra a eterna condição de solidão é constante, ininterrupta, voraz. Portanto, e não há nada mais belo que isso, senhores!, toda história só é verdadeiramente escrita a dois... Tão somente a dois!

domingo, 19 de setembro de 2010

Crônicas De Um Miserável (a origem)

O que vou contar-lhes não se trata de motivo de orgulho ou um quê de fantasia; faz-se aqui simplesmente um infortúnio, um embaraço, um desencontro - tão somente outro em tantos, inúmeros, incontáveis - de meus acasos. Triste, senhores, algo triste, verdadeiramente triste. Mas, não obstante, jocoso. Afinal, feito um moleque parisiense, divirto-me de forma plena justamente por ser um infeliz. Necessidades de preocupações, não há; meus anos ponderadamente avançados já executaram o capital serviço de me tolher a fúria, a revolta, a ira e a indignação, todos tão característicos e presentes no espírito da jovialidade. Não me importo mais, foram-se há tempos tais dias de minha vida. Restou-me a galhofa - ainda que justificada na desgraça própria.
Contudo, seguimos em frente. Sempre em frente!...
Apesar de não ser mais um jovenzinho - alguns cabelos brancos, pelos indesejáveis, protuberâncias inconvenientes, resmungos, rezingões, enfim, uma velhice precoce, eh eh eh! -, continuo a viver sob as asas de meus pais. Nada de vergonhoso perante meus encabulados e trôpegos atos desferidos ao longo de semanas rotineiras - ah!, eu sou mesmo um fracasso, ainda que cômico. Como já foi dito, sem preocupações, zelo ou considerações da parte dos senhores para com minha condição; eu estou bem, de fato. Desejo apenas o riso e a atenção sarcástica de todos - anseio mesmo por semelhantes vieses. Merecimentos, unicamente merecimentos de meu quinhão. Pois bem, possuo também um irmão, um irmão mais novo. Certamente o ser que mais me detesta em toda a humanidade. Mas sem confusões: eu o amo inopinadamente. Nós nos amamos, é verdade. Amo-o como uma criança que adora seu pequeno adorno de pelúcia - maltratado e subjugado diariamente, ainda que presente por toda a eternidade. Afastem-me de meu pequeno irmão um dia sequer e - tenham certeza disso, senhores - perderei o apetite de viver. Tranquem-nos em um mesmo ambiente por trinta minutos e pensarão que se encontram diante de Herodes e uma de suas estimadas vítimas. Como nos entendemos bem!... No mais, nossa casa é habitada apenas por outra pessoa, a faxineira - que nos dá o ar de sua graça semanalmente e não mais que isso. Um encanto. Fico sem palavras toda vez que a vejo adentrar nosso lar a fim de realizar sua sagrada labuta. Como vêem, não possuo o hábito de me explicar as ironias com freqüência - acostumem-se.
Deixemo-la de lado, senhores, por ora, aquela coisinha volumosa e intrigante.
Não se trata de uma residência muito grande - o suficiente. Quartos individuais, sala, cozinha etc. - nada demais ou que justifique linhas e parágrafos extensivos de descrições. Uma inutilidade far-se-ia aqui, caso lhes gastasse o precioso tempo de consideração supostamente concedido a este desditoso que lhes escreve. O único fato digno de nota, ainda que não de orgulho: moramos longe, bem longe. De tudo. Moramos onde certos traidores bíblicos costumam perder seus pertences - botas em especial. Pois bem, continuemos; o tempo urge, senhores! É preciso, é preciso...
Possuo um automóvel. Na teoria, um automóvel. Minha vaidade ferida não lhes permite dizer qual modelo, mas, não obstante, a audácia e o despojo presente igualmente em meus traços se fazem por maior. Um Fiat Uno, anos noventa (e alguma coisa). E só. Nada mais nesse mundo ostenta o meu nome. Sequer sentimentos, sequer sentimentos alheios!... Ninguém jamais morrera de amores por mim. No entanto, a esperança - sim, senhores, ela própria, como sempre -, a esperança não se dissipou por completo. Uma fagulha tão somente. Já que, ademais, sinto-me velho... Ao diabo!, não quero falar sobre isso - pronto, não falarei mais!
À ação, finalmente, à ação. Caso contrário, perder-lhes-ia todos os olhares, a começar por aqueles um tanto quanto despretensiosos...
Uma semana inteira de trabalho. Tudo bem, eu admito, meio período em uma repartição financeira de um escritoriozinho de meia pataca não é uma tarefa das mais desgastantes, no entanto, em se tratando dos níveis de minha disposição para tal, ah!, pode-se dizer que isso já seja uma maldição tamanha. Abençoada, é bem verdade, pois não sou tão assim ingrato. Ainda assim, um pequeno tormento e uma atividade à altura do esquecimento. Portanto, faço igualmente uso das vestes daqueles que praguejam as segundas-feiras - e oram pelas tão aguardadas sextas-feiras... Ah!, as sextas-feiras! Cometo sempre inutilidades - as mesmas, por vezes, sempre as mesmas inutilidades - ao longo de semelhantes dias, particularmente após os seus períodos crepusculares. Já lhes contei que sou um ser irritantemente noturno? Tenho problemas com o sono - ao menos durante os horários habituais. Creio ser isto culpa da ociosidade. (Sim, sou ocioso; provavelmente consequência de minha compulsão pela preguiça - só de pensar em escrever, dá-me uma canseira no cérebro, braços e olhos...) Mas, não obstante, em tal âmbito comportamental, sei de que me situo na média terrestre. Bando de imprestáveis somos nós, eh eh eh! Contudo, de alguma forma, precisamos de diversão - precisamos de diversão! Qual o melhor ensejo para tal? Respondo-lhes, numa palavra, quando se é proibido. Embora as sextas-feiras também sirvam agradavelmente para tamanha finalidade...
Mas cá estou eu divagando novamente - e nada, absolutamente nada de história, senhores!... Eu sou mesmo um incorrigível. Sim, é o que sou, um incorrigível! Não obstante, em tempo estarão ao alcance do conhecimento de todos os lastimosos ocorridos em uma sexta-feirazinha aí de um passado não tão distante de minha vida; algo que por obrigação deveria tratar-me de esquecer, mas que, partindo de uma impulsividade sem explicações aparentes, resolvi não apenas não guardá-los impetuosamente, mas como também lançá-los às posteridades. Ainda que subterrâneas - afinal este é o meu lugar, aqui moram todas as minhas inquietações. Conquanto que tal ato fique para depois, já que toda essa explicação acabou por me tolher o pouco ânimo que me restava há minutos - e as vistas começam a se turvar, e os dedos, por coçar... Basta, basta com toda e qualquer atividade, no momento preciso de descanso!