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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Uma Folha De Diário

Assim como minhas impressões noturnas, ela se fazia notar por uma aparente simplicidade. Digo aparente, pois poderia ela facilmente ser identificada por seus sorrisos e belos traços - como se a vida fosse assim, resumida em sins e nãos. Sim, ela era sorrisos (e belos traços...). E, não, jamais tratar-se-ia de sua individualidade tão somente semelhantes imagens. Não desejava um mundo rendido sob seus pés. Mas, não obstante, talvez apenas por se sentir do tamanho de uma formiga - que só conhece o direito ao ofício. Tolhia a si mesma glórias e reconhecimento.
Era de uma sensibilidade aguçada e notável. Desprovia-se de julgamentos, mas era incapaz de desperceber o menor dos movimentos. Respirava com sinceridade, trabalhava com leveza, sonhava com dedos de criança. Vivia os seus dias presentes. Ainda que se atormentasse com as incertezas do amanhã, por mais que temesse comportamentos inexplicáveis, deixava transparecer unicamente atos de desenvoltura. Um exemplo; buscava um exemplo para se enxergar diante do espelho.
Sofria com as manhãs roubadas - seu sono precocemente encerrado. Males advindos de escolhas e necessidades... Dias duravam imensidões, perante tamanha entrega em sua carreira - seus planos sendo ferrenhamente, ainda que imbuídos de adversidades excessivas, postos em prática. Parecia tudo tão improvável... E qual era sua resposta? Óbvio, os sorrisos. Sorrisos, crenças, sublimidades. Cobranças eram naturais e esperadas; mas, não obstante, creditava valores no destino, no acaso, na bondade e na força do desconhecido.
Dos dias de descanso fazia sua festa pessoal - aguardava-os com uma calma inquietante. Noite, luzes, cores... Ebriedade, dinamismo. Celebrava suas mínimas dádivas com a maior das intensidades. Compensava mágoas e pedras com extasiantes imprevisibilidades. Ansiava encontrar um amor para a vida toda - e morria de medo e de tédio pelos laços e grilhões eternos. Conhecia um universo de pessoas; não preenchia os dedos das mãos ao contabilizar seus íntimos e constantes amigos.
Dizia-se por feliz, embora não soubesse defini-la - a felicidade. Amava a família, atropelando todas e quaisquer desavenças. Culpava-se mais do que se admirava. Mas, não obstante, confiava nas voltas que o mundo supostamente dá. E se pudesse escolher entre o dinheiro e uma tarde praiana ensolarada, saberia de cor e antemão qual biquíni usar...
Um dia desses, daqueles em que deus parece esquecer-se de nós, vi-a por aí, de cabelos presos. Deixara cair uma folha de papel. Ao dar conta de mim, ela já havia se retirado - o dia far-se-ia longo, por sinal. Decidi lhe entregar, aquela folha de papel colorida por escrever, de forma discreta, impessoal talvez. Mas ao ler a primeira frase, toda a minha intenção inicial se deu por vencida.
“Hoje chorei...”
É, a vida se faz mesmo por inconstante. E, de fato, as nuances mais pungentes são as intangíveis. Os detalhes verdadeiramente decisivos, as definições de humor, as sensações mais francas, tudo isso tão somente se é compreendido através da subjetividade de nossas vontades. (Estaria eu sendo injusto e cruel ao guardar comigo todas aquelas doces confissões? Mas, não obstante, algo irreversível acontecera em tal momento que a perdera de vista. Com sua alma revelada em simples e intensas palavras sob minhas mãos, diante de meus olhos, acabei-me num pranto mudo, silencioso. Talvez fosse felicidade, sabe-se lá; quiçá me deixara tocar por tamanha inocência de espírito - e tantos desejos, tantos sonhos, tanta vivacidade... Creio ter sido a certeza de não mais estar sozinho - de não tecer pensamentos únicos, fadados a uma morte prematura - o motivo de minha súbita satisfação. Sim, eu me encontrava pleno. Suas lágrimas me salvaram.)
Naquela tarde, os sorrisos ficaram por minha conta. Sua mágica havia sido concebida. Uma flor, lá do outro lado do planeta, desabrochara. E num átimo a harmonia negligenciada dos sentidos se fez presente.
- Quem disse que a beleza se vê isenta de infelicidades? Tudo bem, tudo bem, eu entendo você... Faz mal não! Um dia, moça, um dia tudo estará resolvido...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Antes Que A Noite Chegue

E assim, como um quê de inexplicabilidades, transformaram-se minhas noites em estágios de um sono profundo. Tal nova e súbita condição haveria de verter consequências, além de se justificar em motivos - ambos desconhecidos até o momento. Trata-se do calor e da retomada de velhas rotinas? Não, não tão somente isso; descreio em simplicidades para mim. No entanto, reservarei a dúvida das causas para outra ocasião - por ora escolho lidar apenas com as reações, impulsivas ou não.
Não que a minha vontade se encontre prejudicada nesses dias, porém a dificuldade atual em me desvencilhar de semelhante latência, assim como de sustentar a vigília requerida pelas obrigações corriqueiras, parece amenizar as minhas capacidades. O ímpeto talvez, quiçá o temor pela ausência de atividades que tanto me é regular. Sabe-se lá... O que acontece, de uns tempos para cá, é que a minha sobrevivência a custo de produtividades e explicações meio que atingiu uma fase de inanição. (Um platô? Não, não - longe disso, senhores, longe disso...) E, coisa estranha, o que mais me sustém inquietações em tais horas é o fato de desconhecer a benevolência - e a travessura - de tamanha impressão.
Impressão esta que perdura por mais de uma semana. Incrível e atípica condição de minha parte, atravesso dias de uma serenidade imprevisível. Dias quentes. Dias leves. Despreocupações, descuidos até - desleixo ou negligência, quem sabe... Não obstante, impressões agradáveis e inéditas. Algumas resoluções não saíram como o esperado? Não importa; os meus atos continuam dizendo por mim. Não foi despertado - até então, por que não? - todo o potencial que acredito fulgir em minha essência? Faz mal não, faz mal não!... De tais momentos brandos faço minha condescendência. Ainda que se prolongue tão somente por mais este instante, esta linha que escrevo, comprazo-me com semelhante harmonia ordinária que curiosamente decide por abraçar as sombras de meus traços.
Ando aceitando antigos medos (ou seria resignação?)... Admirando pequenas linhas, nuances (uma recusa ao sublime, pode isso ser possível?)... Evitando heroísmos (uma inovadora desnecessidade?) ... Reservando-me o estado comum de viver - sei de que se trata de uma ignorância de minha parte; talvez aqui esteja ocorrendo certa mudança de opinião (afinal de contas, o que será de fato melhor, uma ventura mesquinha ou um tormento magnificente?)... Mas, não obstante, sigo sem querer saber de amanhã.
Outra semana está para se iniciar, e a única impressão que me vem é justamente a mesma. De antes, dos dias recentes. Ainda que sejam tão somente para dormir, as horas que se dão, quero-as assim. Suaves. Ainda que soe como ingenuidade ou velhice, que fique como está. Os sentimentos de agora. E nada, mais nada...
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(E isto é o que sinto agora, senhores, uma vontade incontida de confortar os corações do mundo. Mas, não obstante, cultivai a distância entre nós. Para que se mantenha a conveniência idealizada, ela se faz necessária - perturbadoramente necessária.)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Crônicas De Um Miserável (uma sexta-feira agradabilíssima - parte final)

Ah!, mas, no entanto, sou eu mesmo merecedor de tamanha delícia, e amorosa e curiosa felicidade? (Presença inexplicável e indiferente da beleza.) Numa palavra, não - claro que não... Ainda assim, ainda assim, que noite agradabilíssima. Ao final de tudo, ao final de tudo!... (Quanto tolhimento da ação - não obstante, é preciso, é preciso!...)
Numa palavra - pois naquele momento, sob mãos irrequietas, o aparelho celular enfrentava sérios riscos quanto a sua integridade física; este oscilava entre tais mãos e a iminência de uma queda inesperada -, numa palavra, encontrava-me incapaz de assimilar tudo o que ela, a lesta senhorinha, dizia-me. Ao fim, um convite - à casa dela, senhores, à casa dela!... O motivo? Bem, isso já não importava mais - aos diabos se eu não ouvira direito! Minha condição emocional insuflada me permitira tão somente - o que já se tratava de um esforço imensurável - memorizar o endereço. Rua tal, praça etc., uma escola, uma padaria, três quadras... Quatro quadras... (Pelo amor!, não há modos para tamanho armazenamento!...)
Pois bem, por mais incrível que parecesse, sobrou-me tempo até para um perfuminho barato - ah!, que coisa deplorável!... Um completo bufão. Lá estava eu, feito um juvenil, décadas sob as costas; ainda assim, um juvenil. Identifiquei uma luz acesa em um dos apartamentos do pequeno e único prédio do local - logo após a praça, a escola etc. Era ela; a luz era ela, digo, melhor, a luz era dela - ou do apartamento, ou de ambos, ou... Enfim, era ela. Decidi por anunciar minha presença através de um telefonema - uma segurançazinha de nada (que mal me faria?)...
Em instantes, ela surgira. Se houvesse dirigido meus olhares para cima, seria possível que me perdesse os sentidos. Não era a mesma senhorinha com que me acostumara tão brevemente a lidar na repartição - ela era outra pessoa, digo, outra imagem. (Relato um parágrafo sobre tal imagem? Não, não relatarei parágrafo algum - manter-me-ei egoísta até o fim dessa crônica!) Maravilha, senhores, maravilha! Vestido, cabelo, perninha - de fato uma coisinha admirável!...
E o que acontecera dali em diante, digo, após eu recobrar-me de meu semi-estado de catatonia? Bem, senhores, é de se imaginar, é perfeitamente previsível; mas, não obstante, trata-se de minha função contar o que houve - afinal, ela não vos diria absolutamente palavra a respeito. (Portanto, agradecei-me, ainda que tardio...)
A cena se deu assim: quinze minutos. Pouco menos de quinze minutos. Ela entrara no carro. Estava um pouco trêmula, embora agisse decidida. Um leve beijo como cumprimento. Aquilo tudo me deixou inebriante; ela alternava a direção dos olhares entre os meus e o porta-luvas. Eu cá não conseguia desviar-me de seus traços. E, logo de imediato à minha iniciativa de lhe dizer algo, como que me atropelando, ela me confessou a sua brilhante idéia.
- Perdão, pois sei de que se trata de sua hora de descanso, ainda mais em uma sexta-feira como essa - ela disse tais palavras prenunciando o pior para mim. (Ora o que tem de mais em uma sexta-feira como essa?) Não obstante, ela continuou. - Porém, é com a melhor das intenções que o chamei aqui. Tenho em mãos alguns documentos que, creio eu, irão facilitar e acelerar o seu trabalho. Eu, bem, eles estão aqui. Tome-os. É isso...
Não havia notado a pasta que ela carregava consigo. Não me importavam os detalhes irrelevantes; ela estava ali, em meu carro insignificante, diante de todas as minhas vontades e necessidades, para me entregar uma pasta que, segundo ela, continha elementos o suficiente para me auxiliar no ofício de minhas responsabilidades? Era isso então? Ela queria mesmo tornar-me um inútil por completo, incapacitando-me de meus próprios afazeres? Como se eu não estivesse à altura de...
(“Espera um minuto, deixe-me refletir sobre o sucedido. Quer oferecer-me hora extra? Do meu trabalho cuido eu, mocinha... Já de você, já de você cuido eu também!”)
Óbvio. Eu não disse palavra. Recebi a pasta, derrotado. Não obstante, toquei-lhe a mão - e senti toda a sua insegurança. Mas do que se tratava esse ato impulsivo da parte dela? Inocências?, uma galhofa?, indecisões?... O diabo, o diabo sabia o que ela possuía verdadeiramente em mente!
- Ah, é isso - após o meu toque ela demorara exatos três segundos para afastar sua mão, assustada, de minha. - Bem, obrigado. Muito obrigado. Não precisava de tanto esforço (ou pressa) afinal - mas, não obstante, era perceptível a sua fragilidade. - Prometo-lhe resolver tudo (mesmo!) já nesta segunda...
- Eu preciso ir. Eu, bem, trabalho amanhã cedo... Estou de plantão, e... Bem, é isso. Digo, eu preciso dormir cedo. Eu, bem, é isto. Pois, boa noite. Eu...
Ah!, mas só podia se tratar de uma troça - uma mofa! Ela, a senhorinha que respira altivez, que desfila trejeitos e gracejos, maliciosa, aquela que adora ostentar seu narizinho acima de nossos olhares, ela mesma, atuando desesperadamente? Ela exibia angústias, tão somente angústias e inquietações - dava para ouvir o coraçãozinho de beija-flor dela pungindo centenas de batimentos incontroláveis. Ah!, mas aquilo se tratava mesmo de uma piada... Um chiste, uma pilhéria - e nada mais, nada mais!
- Tem certeza? Não há nada que possa oferecer? Nós podemos, digo, se não for uma inconveniência, nós poderíamos conversar sobre assuntos mais agradáveis. Nem é tarde assim (ainda)...
Não obstante, ela foi irredutível. Dispensara-me. Uma bela - e precoce - suposta noite de sono fora a sua opção mais apraz. Ela saíra de meu carro, deixara-me com a sua pastinha. Trôpega, confusa, receosa; chegara por fim a sua residência. Ponto final. “Até logo. Até segunda...”
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“As mulheres brincam com a própria beleza como as crianças brincam com seus canivetes. Sempre saem feridos.” - pois bem, mas no ato de fato, o que fazer? Eu não iria atrás dela, amarrar-lhe os pulsos e reclamar-lhe os tremores e suores... Uma cena miserável, ainda que agradabilíssima. Após ligar o carro, com o verdadeiro intuito de assassinar o pusilânime silêncio, unicamente me restara um destino: a ebriedade! Doses, estupefacientes, toxicidades; o que mais aliviar-me-ia tal estúpida condição? E numa sexta-feira como aquela... Eu sabia que havia algo de inusitado, mas aos diabos!, que pessoas morram em seus plantões! (Nem que seja tão somente de tédio, senhores, de tédio - mas morram...) Revoltara-me com o belo e o sublime. Pronto, falei!...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um Dia (ou crônica final)

"Mas um dia, um dia tudo estará resolvido..." - com semelhantes palavras dei início a esse ano e a este blog. Um ano se fez (ou quase) e se desfaz; o que foi feito? Digo, numa palavra, e com muito orgulho, pois, que inúmeros atos se deram por satisfatoriamente realizados - capítulos de uma história não mais tão anônima assim... Corações, condições, situações; pensamentos exteriorizados, constantes alternâncias, angústias compartilhadas. Conheci amigos, paguei contas, atingi objetivos pré-estabelecidos, conclui assuntos mal-resolvidos - segui em frente (sempre em frente!). Não obstante, continuei no mesmo lugar de sempre; um retorno talvez, quiçá um novo começo (quem sabe)... Incertas certezas, um dia de cada vez, dinamismo - aí estou eu, aonde quer que vá.
Experiências, tudo se tratou de experiências. Equivoquei-me, como sempre - é bem verdade. Mas, não obstante, não me neguei um momento sequer. E mesmo que mantivesse a incoerência, a estranheza e a excentricidade, toquei a alma feminina - ainda que houvesse sido um esbarrãozinho de meia pataca tão somente... Aos diabos!, eu sei que o consegui! E isto, coisa curiosa, isto se tornou a maior concretidão de meus passos ao longo dos dias tais...
Além disso, três décadas de vida - e os cabelos brancos, e as protuberâncias, e os rezingões -, pedaladas inconvenientes afora, espiadelas de praxe e o diabo a quatro. Sim, o diabo - o próprio... Afinal de contas, se não acreditas no diabo, ele acredita em ti, quá-quá-quá!
De algo que escrevi possuo vaidades. Ainda que vãs, sem sentido; vaidades. Sei da beleza, da sinceridade - da ironia, vê bem, isso é muito importante! - e da profundidade de tamanhos dizeres capazes de serem encontrados por aqui. Amores e vontades estão neles. Projetos futuros - e o melhor de tudo: já vivos e em prática - brotam aos montes no lado mais inefável e incompreensível de minha mente. Não obstante, perfeitamente tangível. Eu sou um livro aberto - e assim começo o novo caminho, os meus dias extremos.
Digo-te que perdi o meu medo da chuva. (A inquietude, jamais.) Lembranças remotas, uma leve ansiedade e nada mais. Que as águas façam o que devem fazer - assim como eu, palavras soltas por aí...
Estou pronto para o que virá. Continuarás tu comigo? Não importa, mantenho-te em minhas verdades.
(Um ano novo - ah!, quem não precisa dele?)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Mensagem De Natal

Quanto tempo nós possuímos? Não muito; não obstante, o suficiente. O suficiente para fazermos o necessário e o almejado. Basta agir - e pensar, e pensar... - por si. Não façamos do tempo um artigo de luxo ou motivo de revolta. Hoje não somos mais os mesmos de ontem, assim como amanhã seremos igualmente diferentes; que isto se conserve por todo o tempo - melhor dizendo, pelo tempo suficiente.
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Pois bem, uma mensagenzinha altruísta era a minha intenção inicial. Semelhante intenção se encerrou naquelas primeiras linhas - é tudo o que consigo no momento... Sinto muito em não me portar como o esperado. Sinceramente, eu sinto mesmo muito. No entanto, meus sentimentos permanecem; nunca encontrarás pessoa como eu: a ausência de preconceitos e a admissão de erros e culpas são condutas singulares. E o amor, o amor despojado - o simples e indizível estado permanente de admiração, respeito, confiança e compreensão, jamais defasado, perpetuamente cultivado -, livre e isento de condições e retribuições, esta motricidade que me leva a atos, escolhas e decisões, de fato, tal plenitude e concretidão de íntima consciência tornar-se-á única em tuas impressões. Talvez leves a vida inteira para perceber o que sou, quiçá não haja tempo o suficiente para tal realização. Não importa. Teus olhos, tão somente teus olhos neste momento - e nada mais, nada mais me faz vital, isto juro a ti - são as testemunhas de que preciso. Presencia meus mistérios - os equívocos, a dramaticidade, já conheces de cor. Um longo inverno foi vencido; meus frutos virão, ah!, eles virão... Um dia, um dia.
Tenho aversão ao passado; ver-me em melhores condições no ontem, e não no hoje, simplesmente destrói toda a minha vontade. Numa palavra, trata-se do fim. Não obstante, desgosto de criar responsabilidades para o futuro - deixo os dias como estão. E embora eu desconheça o mínimo que seja do rumo que minhas próximas atitudes tomará, sinto pela primeira vez (e isso durante um longo tempo) que de fato estou vivo. Não se trata de meu querer que tais atos se vertam em negligências e incômodos - porém, será inevitável. Ao final destes parágrafos tudo soará como uma despedida; que seja assim... Explicações não há, tampouco rusgas ou desordem. É, sim, uma despedida; voarei em direção ao novo ano - à aceitação do anonimato, do comum, do cotidiano. No entanto, lembra-te de um único dizer de minha parte e serei eterno. Feito pedra, rocha, nuances deixadas por ondas já desfeitas de mar.
Eu te prometo, estas são as minhas últimas palavras - não busques o porquê (afinal a curiosidade nunca fez parte de teus interesses). Meus pés agora são meus o bastante para seguir em frente... Nossos caminhos jamais foram os mesmos - para quê adiar novamente? Não desejo mais a agonia; os sonhos já me foram tolhidos, todos eles sepultados. A felicidade, não quero escrever sobre ela. Não obstante, continuar é preciso. Defenderei perante a morte todas as tuas vontades, mas não quero mais saber de ti. Abraço o que sou. (E que venham os dias extremos!...)
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No momento adequado, ao nosso tempo, saberemos como pensar - e agir. Isso é tudo o que importa, a única certeza que possuo. Todos nós saberemos; todos nós possuímos. Não precisamos de mais nada, de mais ninguém - a não ser de nós mesmos... Tão somente de nós mesmos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Crônicas De Um Miserável (uma sexta-feira agradabilíssima - parte dois)

Ah, mas sessenta minutos de intervalo não passam de uma miséria - como, eu lhes pergunto, como se é possível satisfazer todas as necessidades de um simples e ordinário homem em tão pouco tempo? E o direito à sesta, senhores, onde fica? Quinhentas mil e uma maldições, o inferno aguarda por vossas malquistas almas - todos vós, detentores do poder! Tão somente duas classes cultivam certas regalias: os fidalgos e os descabidos. E ainda que eu ostente pretensões a ambas, bem, este não é momento para semelhante vislumbre; afinal todos esses meus sessenta minutos, um por um, já se encontram esvaídos. Mas, não obstante, continuar é preciso, é preciso! Com o quê, sabe-se lá... Ah!, sim, sim, a história... A curiosa história daquela fagueira senhorinha, assim como o desenrolar de minha sexta-feira agradabilíssima. Sem mais nem mais - continuemos, continuemos!
A tarde ocorreu tranquila, contradizendo toda a expectativa, ainda que vã, minuciosamente elaborada pela manhã (e durante a noite anterior, por que não?) já exaurida; óbvio, para tudo isso se possui um bom motivo: um intrigante par de pernas - digo, senhores, uma mente brilhante e um semblante simpaticíssimo. Meus caros colegas de repartição já não faziam mais nada além de exercer o papel da insignificância. E assim fui coroado com breves e fugazes quatro horas esvoaçantes de labuta naquela sexta-feira.
Mas, não obstante, esperanças não havia - aprendera a sobreviver isento de ilusões. Embora a imagem de minha ilustre e oportuna cliente permanecesse feito véspera de feriado em minhas irrelevantes lembranças, a opção primeira e mais prudente para minha condição era a exímia arte do macaqueado equestre - em outras palavras, fingir-se de égua. E foi esta justamente a conduta de meu comportamento agudo, ao longo dos minutos finais daquela tarde; instantes precedentes do soar libertador das dezessete horas, chamadas instigadoras brotavam tal qual chuva de verão em meu aparelho celular...
- Oh, miserável! O que vamos fazer, digo, beber hoje à noite?
- Seu tunante irremediável, antro de defectibilidades, qual é?, o mesmo bar da última semana?
- Mas, pois, sem desculpas dessa vez, pague-me sua dívida ou conto para minha irmã aquele nosso pequeno segredinho... Pague-me em uísque, sem mais nem mais!
Ah, meus amigos... Numa palavra, meus amigos são tão - como se diz? - criativos e imprevisíveis... Ora, mas que diabos se faz numa sexta-feira além de se embriagar? Fiquemos bêbados, eu também lhes afirmo - a comunhão de fato se é concebida tão somente num estado pleno de ebriedade, quá-quá-quá!
Pois bem - antes de me enveredar em mesas de bares noite adentro, uma breve e necessária ida em casa; banho, roupas limpas etc. Antes disso, uma cervejinha, apenas uma cervejinha!... Afinal, tenho nada mais a fazer - a pensar, bem, tal estado completo de ausência de atividades se torna impossível. Contas, futebol, dívidas, mulheres, crises existenciais, mulheres, idade avançada, parcos vencimentos, mulheres, o sentido da vida, aquela senhorinha... Aquela senhorinha de olhar arredio, e narizes empinados! “Está decidido: uma cervejinha tão somente e depois irei para casa.”
Companheiros para tal intuito existem aos montes - se ainda assim, em casos de extrema infelicidade, esses se encontrarem em falta, basta sentar-se em soledade e oferecer uma rodada livre. Abutres e bebedores compulsivos se prontificam com um estalar de dedos - e um abrir de carteiras, eh eh eh! Mas, não obstante, antes mesmo de qualquer percepção de minha parte, ao penetrar no recinto costumeiro das sextas-feiras às dezoito horas e pouco, já fora identificado por alguns destes companheiros...
- Mais uma cadeira, garçom!... Nosso maldito contador de anedotas veio rezar em nosso culto hoje!
- Apenas uma cervejinha, irmãos! - digo eu; ora, pois, ajoelhou-se, há de rezar, quá-quá-quá! - Preciso despir-me de toda a imundície do cotidiano e me purificar nas benditas águas termais da tecnologia da eletricidade, ainda que a obrigatoriedade do pagamento em dinheiro por tais seja notória, é bem verdade...
- Quem é este? Um pastor forasteiro?... - havia pessoas inéditas para mim naquela mesa; para meu infortúnio, nada de interessante. Também pudera, não estava presente, dentre as minhas intenções e expectativas para aquele local, encontrar misses ou artistas; apenas gente comum, miserável, assim como eu. Ótimo, senhores, ótimo!...
Após a minha cerveja planejada - na verdade foram três, mas, no entanto, quem de fato esperava que eu cumprisse ao pé da letra semelhante e única promessa? - fui-me assear em casa. As horas ainda eram poucas; uma noite agradabilíssima era anunciada. Súbito, meu celular começara a funcionar novamente - era uma chamada. Um chamada, senhores!, e adivinhem de quem? A pessoa mais improvável a ostentar tal intenção naquela noite de sexta-feira - nem tanto, admito; não se trata de meu objetivo elevá-la a um pedestal de mármore, tampouco vesti-la sob fios de ouro. Sim, senhores, senhores meus... Aquele número piscando freneticamente diante dos olhos deste inconveniente narrador pertencia àquela senhorinha - à minha senhorinha, digo, mui formosa cliente. Volto a afirmar: por uma horda e meia de diabos mal-cuidados, mas que noite, que noite agradabilíssima!
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Um esclarecimento. Felicidades são momentos; vivemos afirmando que somos felizes, mas não o somos. Juramos felicidades a pessoas que detém nossa admiração, porém sabemos no fundo que tal promessa é injusta. Momentos não passam de momentos - unicidades. Gastamos uma semana inteira! lamentando e praguejando, para finalmente em um dia, uma noite - ou uma ligação, tão somente uma ligação... -, explodirmos em um êxtase inexplicável. Isto, senhores, isto é a felicidade! Algo improvável, imune a quaisquer prescrições. E, nada mais compreensível, em momentos assim agimos feito infantes - precoces. Afinal, dias, meses, semanas - e por que não anos e existências? - presenciando ordinariedades e frustrações nos levam a tal comportamento igualmente inesperado. “É próprio da dor fazer reaparecer o lado criança do homem.” - está aí uma frase justificável. Portanto, não julguem as patacoadas inefáveis que tomarão nota daqui em diante; trata-se de infantilidades, nada mais que isso. Eis, pois, o ocorrido.

sábado, 27 de novembro de 2010

Essa Chuva Que Não Para...

Um ano. Um ano se desfez - exatamente não sei; mas um ano se trata de muito tempo. Talvez não (afinal, já supostamente vivi trinta deles). Não obstante, os dias se vão e não voltam mais. As mudanças, se há de verdade, as transmutações, as convicções constantemente vencidas ou defasadas registram tão somente lembranças esvaídas - lembranças que, ainda assim, servem como provas de uma vida fortalecida em equívocos. Uma pequena sala branca, igualmente um ventilador - com alguns toques em azul, é verdade -, papel e caneta, e uma mente já não tão perturbadora assim; lá fora, ela, a chuva.
Duas horas. Este é o tempo imprevisto que o acaso me presenteou - agora. Não estou com pressa, não estou com sono (é manhã, por mais incrível que pareça); não há tarefas, tampouco vontades, anelos. Só o tempo, a chuva... Faz mal não, faz mal não! Creio que aprendi a esperar; ao menos ando lidando de forma surpreendente com tal fenômeno. As águas desabando seus infortúnios em terras de homens me dizem o que fazer. “Espere!” - Para quê? Eu pergunto. Costumava perguntar... Para quê, perguntas? Agir eu já sei; aguardar se faz necessário. Um dia, um dia a chuva encerrar-se-á - um dia, um mês, uma hora... Que diferença faz?
Pessoas. Presenças, ausências. Inconstâncias - de quê se trata o eterno? Não quero mais eternidades, não sou uma divindade - não acredito mais nelas. Admito valores, confortos, e nada mais; quiçá um dia, um dia possa eu vir a desejar semelhanças tais. Mas, não obstante, não neste momento. Quero viver, esperar se de fato for preciso. Onde estão aqueles de meu interesse? Afastei-os de mim. E o que restou além dos pensamentos? Alternâncias, transformações. Mudanças e pensamentos. É bem verdade, parece, as convicções e o homem são coisas muito diferentes (devo-lhe essa, meu amigo Chátov!). E a chuva, a chuva lá fora já não mais me assusta - ela me faz rir, galhofeira que é.
No entanto, uma idéia, uma idéia fixa se mostra intrínseca em minha atual condição. Algo que me impele a mais alta compreensão e o sentido de toda a existência, de toda e qualquer justificativa do amor pela humanidade que se manifesta em mim. O ódio, para quê o ódio, se todas as vontades comungam? Felicidades são dádivas, raridades valorizam décadas de atos e sensações; não obstante, as pessoas continuam sendo as mesmas - inseguras, eufóricas, apáticas, altivas. Continuamos vivendo, continuamos vivendo... (Com chuva ou sem chuva, continuamos vivendo; seguimos em frente!)