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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Jingle Hells Bells (crônicas de um miserável)

Senhores, ah!, meus estimados senhores, que bela e suntuosa época é esta que se aproxima de forma inevitável e irrevogável... O mês de dezembro. Ah!, afinal é natal... (Digo-vos, pois - humilde, porém coberto de franquezas -, onde estão de fato os motivos de alegria e júbilo?) Aos diabos!... Perdão, senhores, perdão... Mas se trata de uma irônica incoerência. Meu pequeno irmão tão somente sabe inventar extravagantes pedidos. "Desejo de ti, oh!, infeliz primogênito, uma bicicleta motorizada. Sim!, não!, melhor dizendo... Algo que voe, isso!, algo que voe..." (Uma janela, talvez?...) E meus pais, o que relatar sobre eles? Imagens e atuações irritantemente acima de nossos íntimos laços familiares. Possuíamos e executávamos todas as condutas natalinas. Faltava-nos o sentimento. (O bom desse quadro é que eu sempre pude embriagar-me sem remorsos muitos... Ora!, coisa ridícula, eu já os tive um dia afinal?)
Mas, não obstante, admitir é preciso. Gosto dessa época. Os enfeites, os planos; são desnecessários os esforços, tornamo-nos melhores apenas por sorrir e receber cumprimentos. "Feliz natal!, feliz natal!" (Quem de vós sabe mesmo o que é felicidade? Como diz aquela música sobre saúdes, dinheiros, bolsos e vendas... Pois bem!) Ah!, mas eu acredito. É bem verdade, senhores, é bem verdade. No entanto, a obrigatoriedade de minhas desconfianças me exige semelhante comportamento... Não vos enganeis, comungo igualmente de ceias e presentes, e saio de casa gargalhando feito hiena. Agradam-me profundamente tais rasas promessas. Ainda que tão somente por um instante, nada mais que um instante, senhores...
"Quá-quá-quá!", faria o meu imaginário Noel, ostentando doses e charutos, galhofas e quiproquós. "Uma perversidade!", dizeis vós... Eu sei. Mas, não obstante, sinceridades. Todos anseiam por festas e feriados; as crianças, pequenas insolentezinhas, maldizem os sofridos vencimentos paternos - num sentido amplo e generalizado, óbvio, senhores... Recolhei as vossas pedras, pois! E aos poucos que sobram, bem, a esses poucos que me restam apenas conforto nas palavras - onde estão? Abandona-me a acuidade visual. Descascam-me as horas. Ora!, não importa - é tempo de gastos, aquisições e doações... Sangue de Cristo, senhores!... Sangue de Cristo sobrevive! (Alinhai-vos à grande fila, recebei-vos o abraço universal, eh eh eh!)
Por deus!, estou perdendo a última linha de minha sensatez... Senhores, senhores, trata-se mesmo de algo indecoroso, a miséria. Mas o que posso fazer, respondei, o que posso de fato fazer? Comemoremos, comemoremos!...
Pois bem. Hei de tecer compras, sorrisos e saudações. A ebriedade prometida. Reunião. (Uma família que desempenha grandezas tão somente em épocas tais...) As crianças, demoniozinhos consumidores que já cercam todos os arredores... Ah!, senhores, se tais criaturas não se virem satisfeitas, ah!... E os banquetes? Recuso-me diante de quaisquer moralidades. Ora, pois, por mil e um diabos mancos!, não quero saber de justiças, mas apenas dos sentidos... Não há mais nada a fazer. (Embriaguez e uma bela coleção de fracassos...)
Às tantas horas, quando as surpresas todas já se desfizeram perante as previsões - dessa vez, coisa bem-vinda, dessa vez não fora eu o encarregado de portar aquelas tradicionais rubras vestes -, quando se bebia e se comia até haver-se perdido as tolerâncias, e as pestezinhas exibiam as suas fortunas conquistadas, improvável, surgira-me um alento. Atrasados visitantes... Uma prima, senhores, um prima com a qual jamais travara conhecimento até então. Desperdício! Numa palavra, paralisaram-me os paladares - ela era mesmo uma senhorinha e tanto!...
("Colóquios de mesa e colóquios de amor; uns como os outros, quiméricos: os colóquios de amor são nuvens; os de mesa, simples fumo.")
Quando se é preciso fazer as vezes de galante anfitrião, ah!, meus senhores, os fins acabam por justificar de fato os meios. Sim, tratava-se agora de um curioso natal. Eram parentes distantes de meus paternos avós; faziam se sabe lá o quê em nossa ignota cidade. Sorte. (Já a consciência, senhores, a consciência...) Muito bem! Uma damazinha de traços e passos notáveis, e eu cá, em todo o salão, o único solteiro com mais de duas atrapalhadas décadas de insistências em vida. Ela e os pais tão somente. Bastavam-me apenas outros dois goles de uísque e algumas dúzias de palavras. Ela sorria para os meus desajeitos. (Uma pena, senhores, um pena que eu desempenhasse exatamente o contrário de meus planos... Ah!, ebriedade que me cativa! Oh!, maldita ousadia dos infernos!...) Um belo quadro para comédias e patacoadas.
A cena se dera rápido. Num átimo, já não mais respondia por minhas insanidades. Um bufão, senhores, um completo bufão. Uma noite de natal; uma encantadora jovenzinha. Poderia mesmo jurar que ela havia se afeiçoado com minhas elegâncias, ainda que um poucozinho só,,, Mas, não obstante, apressara tudo. Naturalidades de minha parte. Um trago. Dois. (Uma garrafa.) E em coisa de minutos, encontrava-me a disputar presentes contra todas aquelas criancinhas. Derrubara uma mesa; das cadeiras havia perdido a conta. Desculpas? Apenas enquanto pude manter a decência de pronunciar - corretamente, digo - as devidas palavras. Pois bem. Plenitudes de espalhafatos. Mantinha os sorrisos - eu juro, senhores, eu juro! Não importava mais... Àquelas tais alturas, toda a dignidade e a compostura haviam sido ultrapassadas. Aos diabos!... Afinal, quem gosta mesmo dos atos desprovidos de temperos? Sou ácido, admito. Mas, não obstante, sei do valor de minhas funções...
O retorno. Os arrependimentos. As chances, ainda que ínfimas; as reais chances de milagres e gracejos se esvaindo em facilidades tamanhas. Mais um dia, senhores, apenas mais um dia... Que natal o quê! O ano novo já está por vir... Novas promessas estúpidas. Seguimos adiante! (Ou não?)
No entanto, feito acréscimos inesperados, um braço me impede a saída. Era ela, senhores!... Ela. A danadinha - digo, minha ilustre e inédita priminha. Um sorriso, um agradecimento, um recado num papel... O que havia nele? Curiosidades, hem, portanto!... Números, números - números mágicos, meus senhores. (E viva, afinal, o natal!)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Metades (ou pedras rolando)

Seu maior medo era o esquecimento. Faltava-lhe algo; sempre lhe faltara algo... Numa palavra, encontrava-se cronicamente insatisfeito. Desacreditava em diagnósticos e previsões. Mas, não obstante, suas impressões desconheciam a falha - aguardava impaciente pelo fim. Abandonaram-lhe todas as surpresas... Resignara-se diante de sua solitude incondicional. Não importava mais; “aos diabos!”, deveria ter gritado. No entanto, suas artes se faziam por incoerências - preferira desferir risos ao redor. (Lugares vazios, frios, inertes...)
Na véspera de sua grande mudança - não sabia de fato aonde ir -, despedira-se da mulher. “A culpa é minha, eu sei. Mas, querida, não faça uso de seus direitos em mim. Não nos pertencemos; apenas lhe amei com elegância - e nada mais.” Evitara por demasiado tempo tais vontades: uma ânsia e um ardor que lhe roubavam sono e tolerância. Dispunha de forma imprescindível da certeza de que, agindo assim, renunciaria a quaisquer modos de um lar. Tornar-se-ia andarilho, feito tempestade. Indesejável. Não recebera sequer um adeus. Era justo. (Não havia motivos para tais alentos.) Permanecera do lado de fora da casa. Até a hora exata.
Tratava-se de um dia apropriado - chovia pela manhã. Uma estação rodoviária; poucos pertences, dinheiro - suficiências. Nenhum itinerário. “Dá-me uma passagem para o mais pontual dos destinos.” (Aquele que urge, o instante.) Sorriu para a moça do guichê. Sentou-se em um banco de espera por quase cinco minutos. Ofereceu café a um indigente. Olhou para os próprios cadarços. E, num átimo, feito atos de uma peça mal-feita de teatro, já se mostrava longe.
A seu favor, tão somente a estrada. Sustentava-se inábil em pensamentos - esgotara-se por completo de planos e sonhos. Lera todos os livros de seu interesse; não havia mais nenhuma espécie de provas. Mas, não obstante, descobertas... A fronteira. Reinventava meios para não sucumbir às desistências. Um dia quase inteiro de viagem. Tratava-se de um dia comum. Ainda chovia. (Isso já não lhe proporcionava tantos receios.) Arrependimentos? Unicamente do tempo perdido. Cabelos alvos... Uma insone alma juvenil.
Sentia a vida como grãos de areia que escorriam por entre os dedos; agora, adrede, atirava-os ao horizonte com as próprias mãos. Decisões. Tornara-se estrangeiro. Sabia nada além do instinto. Consumia avidamente as suas últimas impressões. Selvagerias. Via-se então, embora imerso em contradições, exatamente da forma que esboçara para si, há décadas... Uma terra inesperada, ações e respostas desmedidas. Identificava-se em reflexos de bares e vitrines. Abraçara dores e prazeres. Um comportamento incomum. “Cinquenta anos... Cinquenta anos desconhecidos.” Sorrira mais uma vez. Meios copos vazios, palcos gastos, jovens moças - e lá fora, lá fora a estrada novamente a lhe incitar pecados. (Ainda era cedo...)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Intermédio

Esses caminhos, senhores, esses caminhos pelos quais alento e desespero se perdem e se cruzam feito dia e noite - ah!, como tudo isso é tão imprevisto... Há pouco tempo, há muito pouco mesmo, encontrava-me a salvo. Uma condição tão somente, é bem verdade; mas, não obstante, um abrigo. Dava-me por sereno. Efemeridades, no entanto - jamais conseguira dormir de fato. A chuva não mais me alcançava, mantinha-me vivo e quente... Os olhos, apenas os olhos deixavam escapar fagulhas de minhas insustentáveis inquietações.
Dias distantes, dias distantes de mim. Por mais recentes que sejam passados e recordações, hoje, senhores, os dias se mostram controversos. Incertezas, inviabilidades... Pois bem! Sei nada do amanhã - nunca o soube na verdade. Sigo constante em solidão. (Os olhos venceram a calma artificial...) Tardes, noites, manhãs; desfiz-me das distinções. Não há mais volta, feito minhas idades perdidas... Tanto tempo, senhores, tanto tempo! Afinal o que há de errado em mim? Será o paladar - ou as palavras incontidas? Faz mal não, faz mal não! Enquanto houver um coração, seguirei mesmo constante (ainda que em solidão)...
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Semana dessas a encontrei, assim, sem mais nem mais. Saía de uma loja de roupas; olhava as horas num relógio imaginário. Finalmente abriu a própria bolsa - procurava pelo aparelho celular. Diante de ensejos tais, sentia-me sempre embaraçado, como se minha presença gerasse um incômodo - um pequeno distúrbio, uma ânsia e uma desnecessária espera. Aguardara pelo desfecho daquela cena; andava refreando cada um de meus passos... Ela levantou a cabeça e mal me reconhecera. Não obstante, o sorriso, o sorriso já disposto em mãos. Num átimo, feito arco-íris, sua consciência emergira da introspectividade de sua busca pela ciência das horas. Aí, senhores, aí, numa palavra, fora agraciado com um sorriso ainda maior - o mais pontual de todos os sorrisos. (Ela sabia muito bem com qual deles se vestir...)
Fazia da vida desprendimentos. Leve. Responsável. Bela. Presente. Ria tristezas, bebia alegrias. Assumia sinceridades. Uma loja de roupas, senhores... Mas, não obstante, largara-as todas, as sacolas, ao me reconhecer. Um abraço. Simplesmente um abraço que, feito preces e magias, devolvera-me os dias - as distâncias. Uma palavra - ou duas - e nada mais apresentar-se-ia condicional.
- Olá, meu amigo!...
Desarmara-me as aflições. Equívocos, expectativas, tudo se transformava menor. Ela, a brandura, os sorrisos, os olhares - nuances de simplicidade... Fizera-me paz; das infelicidades, diversões. (Naturalidades.) Uma beleza natural, uma inefável beleza natural...
- Escute, não quer ajuda, moça?
- Ah!, mas eu já sei que a tenho... Aonde for, não é verdade?
(Sim, é bem verdade...)
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Mas, não obstante, incertezas... Inviabilidades. Ao fechar os olhos, a vida parece querer contrariar todos os meus controles. Virtuais influências. Cravo os pés sobre o chão - dentes cerrados; uma respiração ofensiva. Ergo minhas vontades. (Ainda que improvável...) Dos instantes faço eternidades espontâneas; das horas, senhores, das horas, fotos e documentos. Desconheço no momento rumos e trilhas - apenas sigo adiante.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Todos Aqueles Que Prezo (sabeis vós quem são...)


Uma manhã fria em outubro. Incoerências, imprevisibilidades. Contrariedades. Por mais que julguemos tendências e analisemos prudências, comportamentos tais jamais deixarão de existir. Somos espelhos do nosso ambiente. Nascemos e morremos em períodos menores que um dia. Vagamos entre razões e insanidades, vontades e resignações, lutas e entregas - isto se mostra numa freqüência avassaladora. Sentimos o peso dos sentidos, imposições e significados. Perdemo-nos na completa ausência das moralidades. Necessitamos de equilíbrio. (Mas, não obstante, nossas almas insistem nas extremidades...)
Meus atos recentes questionam a própria racionalidade. Riscos e mágoas, isso é tão somente a oferta que recebo. Fecho os olhos, vem-me o medo. Inseguranças. Miro o horizonte e desafio minhas fronteiras. Permanecerei na incompreensão alheia, alvo das condenações... Faz mal não!, faz mal não... Meus amores, admirações e meu respeito demonstrar-se-ão maiores que quaisquer desentendimentos. Se hoje busco a solitude, é porque me vejo incapaz perante os compromissos. Injustiças tamanhas de minha parte - exatamente por isso é que me ausento de exigências e expectativas. Àqueles que amo, resta-me apenas um pedido de perdão. Nada aqui dentro, com relação a todos vós, nada aqui dentro há de se apagar. No entanto, neste momento, abandonam-me as forças da beleza e da sublimidade. Serenidades, não consigo mais atuá-las. É preciso a revolta. As insubordinações... E, queridos senhores, haveis de admitir, não é mesmo justo que eu trilhe tais caminhos de mãos dadas. Trata-se de uma tarefa minha, tão somente minha.
Atuo agora com estranhezas, é bem verdade. (Feito manhãs frias em outubro.) Desprendo-me das considerações. Mas, não obstante, carrego comigo todas as lembranças, todos os semblantes. Gratidões, eternas gratidões. Sorrisos nos bolsos. O melhor de vós, apenas o melhor de vós...

sábado, 17 de setembro de 2011

Incondicional II

O conceito humano de felicidade consiste numa linha reta - ilimitada. Um trem bala rumo a infinitas, singulares ocasiões e graciosidades. Realizações ímpares, inefáveis impressões. Um quê de inesgotabilidades. Somos incapazes de desenhar perfeições sob estática. Precisamos nos encontrar sempre adiante - desbravadores. Do desconhecido, do prazer, da vitória. E justamente aí é que reside e se inicia a nossa própria ruína.
Trata-se de algo incondicional: o fado das frustrações. A insatisfação eterna. A indizível linha reta, jamais preenchida. O máximo que se pode alcançar são estados temporários - ilusões elegíveis. Volubilidades. Posses, amores, paixões - a lascívia... Conhecimentos, capacidades; descoberta. Verdades corruptíveis. Tão somente falsos traços desse caminho de utopias. Sonhos. Névoa. Cegueira - nada mais.
Descontentamos de imediato com as conquistas corriqueiras, caídas no esquecimento. Construímos pedestais às novidades. Sonhos sempre tão maiores que a necessidade. Afinal, e disso se trata a nossa condição, precisões e obrigatoriedades não compõem prazeres. Requeremos mais, um pouco mais. Na verdade, uma imensidão desconhecida de beatitudes é o que se opõe entre o eterno presente e o ímpeto das insaciabilidades.
Contrária a semelhantes expectativas, a ideia do Paraíso se fundamenta em pequenos círculos de hábitos e paladares. Serenidades. Trata-se do pensamento religioso - cordeiros e pastores. No entanto, tal quadro tão somente é imaginado em futuras e dúbias realidades. A prorrogação da alma. Não é exatamente do que se precisa nesse instante: continuaremos a devanear com uma linha reta. E, confesso, sinceramente não creio ser possível negar tamanha natureza - não somos domesticáveis. Sempre haverá, não importam crenças ou lutas - ainda que seja unicamente uma fagulha, um lapso de memória, centésimos de segundo de reações inesperadas -, haverá sempre uma inacabável melancolia no imo da identidade humana; algo que possa até morrer de forma latente, mas que inexplicavelmente servir-nos-á sensações incompletas. Metades, sempiternas metades.
Que fôssemos ovelhas de fato! Mas não... Desejamos o futuro - é mesmo incondicional. Restam-nos apenas as incertezas. Ensaios de felicidade. Mas, não obstante, é impossível viver sob tais esboços; uma chance é o que temos. Uma única chance. (Ah!, como eu queria saber alegrar-me de verdade, feito meu cachorro...)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Fusca (crônicas de um miseravel)

Penso, logo desisto. Uma lástima, senhores, embora saiba muito bem desse lugar comum. É-me tão árdua a continuidade das intenções: ânimos e boas vontades esvoaçantes. Um dia é o período máximo de minha tolerância. (Coisa curiosa, há muito em minha vida nada acontece; ainda assim, a impaciência... ) No seguinte, já não quero mais. Deixa tudo como está - não fará muita diferença. Outras sextas-feiras virão!...
Certo dia me ocupara do equívoco de atuar o cavalheirismo - um pneu furado. "Um pneu furado!"; julgara semelhante tarefa um simples e louvável ato. Uma senhora de longas primaveras acumuladas - parecia mais uma beata oriunda da Ordem das Carmelitas Descalças -, um infante de aparência não tão amistosa; um fusca branco. Óbvio, faltava apenas o hábito - teríamos então a cena completa. Sentira-me observado por santidades inquisidoras... Como não ajudar? Pois bem, cinco minutos - não mais que isso. Cinco minutos... Para cada maldito parafuso literalmente talhado, isso sim!
(Deus!, seu ser vingativo, você há de me pagar uma suntuosa recompensa por isso!...) Aquela inoportuna velhinha não possuía as ferramentas necessárias sequer em um mínimo estado apresentável de uso - o pior nem fora todos os meus dedos esfolados... Tratava-se de uma semissurda, a infeliz. "O quê, meu filho, um macaco? Ah!, sim, sim! O macaco. Que macaco?..." E a criança então, senhores? Tamanha agra impressão a seu respeito logo me habitara como que um preconceito. No primeiro dizer, um fato.
- Meu pai faz isso muito melhor que você.
- Perdão, pequeno gafanhoto, mas ele não teve muito sucesso no ato da consumação, é verdade?
- Como? Você é canhoto? Mas isso é lá mesmo um problema? O que tem a ver com a ação? - a pobre santinha insistia em decifrar minhas palavras...
E o pior: o sol declarava a sua inimizade perante minha pessoa. Malquistas camisas sociais!... Ainda havia uma tarde inteira de horas de labuta - poderia jurar que o famigerado macaco não aguentaria a pressão. Tudo bem. Até então...
- Por obséquio, não dá para ir mais rápido, meu senhor? É que eu tenho compromisso... - agora era a vez da velha resmungar; tudo isso por querer mesmo ajudar.
- Senhora, minha senhora, banco o mais presto possível. Se ainda não acabei semelhante encargo, saiba por que: doem-me os botões.
- Como?
- Pois não.
- Os botões?
- Da camisa, minha senhora.
- Ah. Entendo...
- Ele não diz coisas, mamãe... Que disparatado! - sim, eu sei, sou merecedor de meu próprio fado...
O silêncio. Por vezes, provavelmente por várias delas tais, o silêncio é o melhor dos instrumentos, sejam lá quais forem os ensejos. Mas, não obstante, sempre considerei mais justo operar com mãos vazias.
- Seu nome, criança?... Pois bem, quer um doce? Segure esta roda para mim. Mas não suje os dedos - ah!, que maçada!... Então. Fica para a próxima!
E o pior? Os botões. O bojo. Aos diabos! Como estas rotinas nutricionais ousaram me deixar assim?... Algo deveria ser feito - imediatamente. Com um quê de prioridades. Exercícios! Emagrecimento! Aparência! (Mulheres...) Ora, quem um dia irá afirmar que um miserável não credita valores a tais caprichos? Experimentem sobreviver sem essas danadinhas... (Depois, depois; vejamos...)
Pois bem. Tratava-se de minha hora de almoço. A Hora do Almoço! As escrituras sagradas... E o imbróglio dos pneus furados - e a recompensa, senhores? A ingratidão. "Ah!, agora não precisa mais de apreços; meu compromisso já está desonrado. Que inutilidade!" Inútil. Misérias... Não se fazem mais damas de cristo como em tempos idos. Infortúnio! Oficialmente fora um terço de hora em combate - mas, não obstante, o cenário gravar-se-ia ao longo de minhas memórias naquele dia. Outro dia... N'outro dia me comportara de forma semelhante - e em outro. E mais outro... E para quê? Simples. Iniciativas serão sempre iniciativas. E o depois - o diabo no meio da rua! - que fique para depois. Tenho dito. Destrato com facilidades tamanhas o extraordinarismo. (Mas, vejam bem, não é por maldade - apenas por falta de tom.) Heróis que não transpiram, atores que não envelhecem, escritores que não perdem a razão - pais que trocam pneus em tempos hábeis... Condenada seja essa corja intocável! (Não obstante, desejável, insuportavelmente desejável...)
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E quanto aos dizeres de meu amigo francês, cujo nome de forma lamentável se é confundido com bolsas e sapatos? Atuarei com sinceridades outra singular vez: não me faz a menor estima no momento. Mas, não obstante, manter-me-ei o propósito, quebrando assim minha infindável sequência de lacunas por preencher. Deem-me, senhores, um tempo - e tudo estará resolvido. A preguiça, o sobrepeso, a coceira nos olhos; todos se lembram de cor, não?
"Não sei que filósofo disse: - Nunca faltarão mulheres velhas." Com efeito, poderia muito bem essa afirmativa haver contraído origens nas reflexões de meus intestinos - pois é verdade, semelhantes obsoletas senhoras repletas de fastio é que existem soberbamente. Coitados daqueles que, assim como eu, insistem, ainda que de forma imune a resultados, nas agradabilidades!... (Sim, eu confesso, seria mais digno de minha parte esclarecer a raridade de tais insistências; não cabe a mim, convenhamos.)
Portanto é isso, meus senhores. A vida imita a arte - ou seria exatamente o inverso? Já não sei mais dos projetos, das ideias; grito apenas por meu direito às desistências - de consciência livre. O que é um problema. Um intrínseco e verdadeiro problema, digo eu. Cedo ou tarde, tenham a plena ciência disso, cobraremos de nós mesmos todas as ausências que representamos. Que seja tardio... Ora!, o diabo que cuide dos imediatismos - viver me exausta de fato. Uma lástima, é sim - uma lástima. (No entanto, um ou outro prazer pusilânime e indecoroso sou capaz de encontrar pelo caminho, eh eh eh!...)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desculpas

Durante um longo tempo, e isso já faz alguns anos, fazia de minhas impressões inocentes e doces palavras. Tentava, munido delas, em vão, conquistar mundos e atenções. Ousava ser alguém belo, casto, correto - um coração juvenil. Sim, isso já faz alguns anos...
Além de não haver tocado superiores intenções, infame, eu fui ao chão. Distúrbios, discórdias, dores - amores. Não obstante, amores... Assumi a culpa de toda a humanidade. Uma alma vazia, uma vida vazia - e o início de uma épica busca. Nascia aqui toda a minha vontade. Com ela, minha força. Foi inevitável; invadia-me, após, por completo, a revolta.
E, no auge de minha irascibilidade, cerrei os punhos - reclamando por minha parte das maravilhas. Jamais as encontrei; sequer foram vistas. Assumi a solidão. Despi-me da moral. Reneguei todas as promessas, desdenhei das esperanças. Imbui-me em ações. E assim, como quem já não quer mais rezar, feito improbabilidades imprevistas, redescobri os sorrisos.
Tornara amor - verdadeiro, absoluto. Aceitara os equívocos; do humano jamais havia me desfeito. Atingira a sinceridade. Novos ares, novos olhares. A arte. A compreensão - ainda que incompreensíveis sejam estas minhas novas vestes. O cerne, o imo - a razão. Sentimental.
Mas, não obstante, era mesmo inevitável. A inconveniência insistia como minha companhia. Mudanças desprovidas de rumo, giros inúteis sobre si. Eu amo. Sempre amara desde os primórdios. No entanto, maldoso, continuo desconhecendo a capacidade das demonstrações. (Um dia, quem sabe, um dia...)